De Sāo Paulo, SP.
Grandes instituiçōes, sejam governos ou empresas privadas, raramente erram ao prever o futuro, por falta de inteligência.
Elas erram porque se sentem confortáveis.
Foi isso que aconteceu quando Michael Saylor apresentou à Microsoft a ideia de “tesouraria corporativa com Bitcoin” — e a empresa recusou.
À primeira vista, pode ter parecido uma decisão corporativa perfeitamente razoável: o Bitcoin ainda continua controverso em muitas salas de reuniāo de conselhos.
O sistema Android
No final dos anos 2000, uma transformaçāo lenta estava ocorrendo na tecnologia. Os sistemas operacionais de telefonia móvel estavam prestes a se tornar as plataformas de software mais importantes do mundo.
A Microsoft tinha engenheiros;
A Microsoft tinha amplos recursos financeiros;
A Microsoft tinha canais de distribuiçāo;
…mas, nāo conseguiu perceber a velocidade com que a mudança ocorreria.
Em vez de liderar a revolução do mercado de dispositivos móveis, a empresa apostou ainda mais no Windows Mobile enquanto o Google lançava o Android.
Hoje, o Android está em bilhões de dispositivos no mundo e domina o mercado global de smartphones.
Na Microsoft, ter deixado escapar a oportunidade de adquirir o Android ainda é considerado um dos maiores fracassos estratégicos da empresa.
Essa lição não é sobre inteligência, é sobre reconhecer uma mudança de plataforma tecnológica antes que ela se torne óbvia.
Para deixar bem claro, a decisāo da Microsoft de rejeitar a ideia de adicionar Bitcoin à sua Tesouraria Corporativa, não foi uma decisão recente.
Ocorreu há mais de um ano, quando Michael Saylor defendeu a ideia publicamente. Na época, a sugestão soou radical para muitos conselhos de administração.
O Bitcoin ainda era visto como um ativo especulativo, volátil e fora da zona de conforto das diretorias financeiras tradicionais.
Mas o tempo tem o poder de lançar luz e mudar convicções. Passado mais de um ano, o contraste ficou ainda mais nítido.
Empresas de mineração listadas em bolsa, venderam mais de 15.000 BTC desde outubro/2025, utilizando suas reservas financeiras em um momento de margens de lucro cada vez menores no setor.
Mineradoras de Bitcoin como a Cango venderam parcelas significativas de suas participações, enquanto a MARA Holdings divulgou uma estratégia mais flexível, que permite à empresa comprar ou vender Bitcoin, mantendo ainda dezenas de milhares de moedas.
Nada disso é necessariamente pessimista.
Os mineradores produzem Bitcoin;
Eventualmente, eles o vendem;
Essa oferta de Bitcoin precisa ir para algum lugar;
Ela vai para quem está comprador, não quem está vendendo.
Enquanto os mineradores estão vendendo, Michael Saylor está fazendo o oposto. Por meio de sua empresa Strategy (antiga MicroStrategy), Saylor acumulou centenas de milhares de Bitcoins.
A estratégia é simples. Não tente fazer market-timing, não tente prever o momento certo para comprar ou vender: adquira.
Na visão de Saylor, Bitcoin não é um ativo especulativo, é capital.
Os mineradores mineram Bitcoin da mesma forma que as empresas petrolíferas extraem energia. A Strategy absorve essa oferta e a “armazena” em seu balanço patrimonial.
Há outra parte dessa história que as pessoas percebem, mas raramente expressam em voz alta.
Empresas do porte da Microsoft podem se dar ao luxo de ignorar certas ideias. Quando você já é uma das corporações mais ricas do mundo, perder uma nova ideia não representa uma ameaça para seu sucesso.
Mas empreendedores tendem a pensar de forma diferente das instituições.
Se alguém como Bill Gates estivesse construindo a Microsoft do zero, nesse momento, seria difícil imaginá-lo ignorando uma nova infraestrutura de capital, que está surgindo na Internet.
Empreendedores e fundadores de startups buscam:
alavancagem;
sistemas;
a próxima plataforma.
As grandes organizações, frequentemente, protegem aquilo que já existe. Essa é a questāo mais profunda por trás do debate sobre Tesouraria de Bitcoin e ativos digitais em fundos de pensāo.
Corporações tradicionais e organizaçōes de previdência complementar, ainda operam em um mundo de “sistemas fechados”:
Balanços patrimoniais;
Margens operacionais;
Lucros trimestrais;
Relatórios anuais;
Investimento passivo…
Até mesmo os mineradores de Bitcoin — apesar de protegerem a rede — ainda vivem e operam nesse mundo, eles gerenciam:
Preço da energia;
Atualizaçōes de software;
Upgrade de hardware (equipamentos);
Custos de infraestrutura e de pessoal.
Mineradores produzem Bitcoin, mas na maioria dos casos não têm condições de mantê-lo em estoque.
Enquanto isso, a ideia que Saylor está defendendo é radicalmente diferente:
Bitcoin não é custo fixo;
Não é estoque;
É capital.
… e capital se comporta de maneira muito diferente dentro de uma rede de blockchain e de um sistema financeiro aberto.
Hoje, ninguém sabe se a Microsoft está errada ao rejeitar Bitcoin em sua tesouraria e o governo acha que está certo em proibir ativos digitais no patrimonio dos fundos de pensāo.
Mas a história tem o poder de fazer com que certas decisões pareçam óbvias em retrospectiva:
A certa altura, os smartphones pareciam apenas experimentais, em certo momento a computação em nuvem parecia desnecessária, em certo momento o Android parecia só um projeto periférico, em certo momento fundos mutuos de investimentos foram considerados pirâmide financeira ...
Bitcoin, ativos digitais e cryptoeconomia
Hoje, algumas das maiores corporações privadas do mundo ainda não sabem ao certo o que fazer com o Bitcoin, da mesma forma que os fundos de pensāo sequer sabem como investir em ativos digitais.
O que levanta uma questão simples:
Se o Bitcoin se tornar “a infraestrutura” de capital corporativo, rejeitá-lo hoje será como ter rejeitado o Android?
Se todos os ativos forem para o blockchain, a proibiçāo dos fundos de pensāo investirem em ativos digitais hoje, seria como a Microsoft ter deixado passar o Android?
A Microsoft pode simplesmente ter dado a palavra a Michael Saylor e convidado-o a falar para seu conselho porque o momento dele havia chegado — tipo, uma chance de se apresentar diante de grandes nomes e defender seu ponto de vista.
A Microsoft nāo gostou, particularmente, de ser lembrada que perdeu uma valorização de 2.000.000% ou mais.
É claro que o Bitcoin provavelmente continuará subindo, mas, na época daquela reunião, o BTC já havia passado de cerca de um US$ 0,01 para o patamar mais alto possível.
As pessoas que estāo poupando e cuja segurança financeira no futuro depende de rentabilidades maiores do que as entregues por títulos públicos, precisam se lembrar de quem as proibiu de entrar na era dos ativos digitais quando ela estava no inicio.
Grande abraço,
Eder.
Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “They Passed on Android. Now They’re Passing on Bitcoin — The Problem With Closed-System Thinking”, escrito por Chip Mahoney



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