quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Adultos de meia-idade cometem menos erros ao tomarem decisões financeiras do que os mais jovens e os mais velhos




 
De São Paulo, SP.
 
Muitos dos mais influentes tomadores de decisões financeiras em nossa sociedade, seja no mundo dos negócios ou na política, estão na meia-idade. A idade média dos CEO e CFO das 500 maiores corporações em todo o mundo, medidas pela receita (Fortune 500), está na faixa dos 55 anos.
 
A pesquisa “Chief Executive Study”, da Strategy&, revela que no Brasil a idade média dos CEO ao assumirem o cargo está em torno de 52 anos. Historicamente, a idade em que são nomeados o Presidente do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional, salvo raras exceções, também gira em torno dos 50 anos.
 
Será que existe alguma espécie de pico da razão e do raciocínio financeiro por volta dos cinquenta? Estudos recentes nas áreas de economia, psicologia e neurociência sugerem que, sim, pode haver.
 
Ao analisar os erros financeiros cometidos em diversas situações envolvendo crédito ao consumidor, como por exemplo, pagamentos de saldo do cartão abaixo do ideal, juros no financiamento de carros e imóveis, decisões sobre taxas de administração etc., uma pesquisa conduzida por Agarwal, Driscoll, Gabaix, & Laibson em 2009 identificou a idade média em torno da qual os erros são minimizados: 53,3 anos (com desvio padrão de 4,3 anos).
 
Ou seja, é na meia idade que os indivíduos tomam as decisões financeiras mais eficazes, resultando em baixas taxas de administração, juros menores em operações de crédito e também em empréstimos.
 
A explicação para isso se baseia em um trabalho clássico publicado em 1967 por Horn & Cattell que analisou os efeitos da psicologia do envelhecimento sobre a inteligência fluída e a inteligência cristalizada.
 
Inteligência fluída é a performance que temos ao desempenhar tarefas novas e pode ser medida ao longo de várias dimensões (memória de trabalho, visão espacial, raciocínio, velocidade de processamento cognitivo). A inteligência fluída apresenta um claro padrão etário sugerindo um declínio de um percentil por ano a partir dos 20 anos de idade.
 
Por outro lado, os declínios em nossa inteligência fluída relacionados à idade são parcialmente compensados pelo aumento na inteligência cristalizada, também chamada de experiência ou conhecimento, que cresce com o tempo.
 
Os autores do estudo de 1967 apresentaram um modelo mostrando como a performance na tomada de decisões financeiras é influenciada por mudanças divergentes que acontecem em nossa habilidade cognitiva ao longo da fase adulta.
 
Eles mostraram que tanto os tomadores de decisão mais novos como os mais velhos cometem erros, por razões diferentes. Os mais jovens são cognitivamente robustos, porém, inexperientes. Os mais velhos se baseiam na experiência de vida, no entanto, são limitados em suas habilidades cognitivas fluidas.
 
O pico acontece na meia idade, um ponto ótimo em que os indivíduos ainda não sofreram grande declínio na capacidade de aprender coisas novas e ao mesmo tempo possuem décadas de experiência de vida.
 
Em outras palavras, nossa performance cognitiva melhora entre a juventude e a meia idade até atingir o ápice e começar, então, um declínio constante. Consequentemente, adultos de meia idade podem estar no ponto ótimo para tomada de decisões financeiras numa espécie de curva em “U” invertido, que combina os dois efeitos advindos da idade.
 
Jovens tendem a ter baixos níveis de inteligência cristalizada, mas altos graus de inteligência fluída, enquanto tomadores de empréstimo mais velhos tendem a ter níveis elevados de inteligência cristalizada, mas inteligência fluída relativamente reduzida.

Isso explica um pouco a diferença entre as escolhas intertemporais de adultos e jovens quando se aborda a previdência.
 
Nas decisões que dependem de experiência acumulada ao longo da vida, há evidências de que adultos mais velhos preservam ou até melhoram a tomada de decisões financeiras (Li, Baldassi, Johnson, & Weber, 2012). A literatura de estudos do comportamento revela que adultos mais velhos frequentemente estão mais propensos a esperar por períodos curtos para obter montantes maiores de dinheiro do que receber montantes menores de forma imediata (Löckenhoff, 2011). 
 
Um estudo recente de neurociência mostrou que diminui com a idade a forte atividade na região do cérebro chamada de “ventrum striatum” de jovens adultos expostos a recompensas imediatas. Nos adultos mais velhos o nível de atividade dessa região do cérebro é o mesmo, esteja uma recompensa disponível agora ou mais tarde (Eppinger, Nystrom, & Cohen, 2012; Samanez-Larkin et al., 2011a).
 
É como se as pessoas mais velhas soubessem que receber R$ 50 daqui a duas semanas é tão bom quanto seria receber hoje. Os jovens de vinte e poucos anos apenas não tiveram a oportunidade de experimentar o efeito que décadas de taxas de juros pode ter sobre um investimento e assim valorizar a recompensa da espera.
 
Planos de previdência funcionam como o exemplo acima, ou seja, o desafio é convencer jovens impacientes a decidir poupar para a aposentadoria como o fazem os mais velhos. Uma série de experiências fascinantes conduzidas com apoio do Laboratório de Realidade Virtual da Universidade de Stanford está fazendo exatamente isso, aumentando a conexão de pessoas mais jovens com seu futuro eu. Ver um avatar do seu eu envelhecido (através de realidade virtual), reduz o desconto temporal aumentando a poupança para a aposentadoria ainda no começo da vida.
 
A combinação do foco econômico-financeiro tradicional nas decisões do dia-a-dia, com estudos de psicologia e neurociência sobre o funcionamento do cérebro e nosso comportamento, têm levado ao surgimento de um campo de pesquisa verdadeiramente multidisciplinar no estudo do processo de decisão durante a vida.
 
Apesar dos progressos recentes serem bastante promissores, esta ainda é uma área que está engatinhando. A integração das diversas abordagens no estudo da tomada de decisões tem um tremendo potencial para causar impacto científico e social.
 
Se formos bem sucedidos, o conhecimento adquirido com esse tipo de pesquisa poderá ser usado numa escala maior para elaboração de políticas públicas e em escala individual para ajudar as pessoas de qualquer idade a tomarem melhores decisões, contribuindo para melhorar o bem estar de todas as pessoas ao longo de suas vidas.
 
Ah, já ia esquecendo, você pode brincar comigo por causa da minha “meia idade”, mas se eu fosse você, ao invés disso, eu aproveitaria a oportunidade para me perguntar o que fazer com seu plano de aposentadoria. Eu estou no ponto ótimo para te ajudar.
 
 
Abraço forte,
Eder.


Fonte: Adaptado dos artigos “Financial Decision Making and the Aging Brain”, de autoria de Gregory R. Samanaez-Larkin e “What is The Age of Reason?”,  escrito por David Laibson, John C. Driscoll, Sumit Agarwal e Xavier Gabai

Crédito de Imagem: CartoonStock

 
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