De Sāo Paulo, SP.
Existe uma ideia confortável — quase reconfortante — que ronda os conselhos deliberativos dos fundos de pensão:
“Previdência não é para enriquecer. É para proteger.”
É bonito, poético, ético, seguro … e perigosamente incompleto.
No mundo real, dominado pelos planos de contribuiçāo definida (CD):
Não é a ausência de risco que ameaça a aposentadoria, é a ausência de retorno.
O mito da estratégia 100% passiva
Durante anos, principalmente depois da pandemia do Covid-19, muitos fundos de pensão brasileiros e estrangeiros adotaram uma postura quase monástica, uma estratégia passiva de investimentos, previsível e silenciosa:
- Comprar títulos públicos;
- Carregar até o vencimento; e
- Repetir o ritual.
O problema é que o mundo ao redor virou um parque de diversões macroeconômico com ciclos de juros globais, inflação estrutural, disrupção tecnológica e novos ativos digitais, embalados por uma longevidade que nāo para de esticar o tempo de pagamento dos benefícios.
Nesse cenário, ser 100% passivo não é ser conservador, é ser vulnerável.
Estratégias ativas de investimentos não significam “apostas de cassino”, significam:
- Alocação dinâmica entre classes de ativos;
- Gestão profissional dos riscos;
- Busca disciplinada por prêmios de risco onde eles realmente existam.
Ou seja: não tem a ver com correr atrás do mercado e sim nāo ficar parado e estagnado, sentado em cima de uma pilha de titulos publicos que limitam os retornos.
Risco não é vilão — desde que controlado
Credito de Imagem: iStock
Outro mito muito popular é que fundos de pensão devem investir sempre com risco mínimo, quase zero. A pergunta que ninguém gosta de fazer é:
“Risco mínimo para quem?
Para o Diretor de Investimentos, que hoje não quer correr o risco de ter que dar explicações desconfortáveis na próxima reunião do conselho?
Ou para o participante, que amanhã vai viver 25, 30, talvez 40 anos após se aposentar e depender da rentabilidade creditada no seu saldo de conta ao longo do caminho?
Assumir risco de forma ordenada, profissional e transparente não é imprudência, é antes de tudo, dever fiduciário da previdência complementar.
O verdadeiro erro não é perder rentabilidade em um ano ruim, mas sim garantir, com perfeição técnica, uma aposentadoria medíocre depois de passar três décadas limitando o retorno dos investimentos.
Risco do participante, responsabilidade do fundo
Nos planos de contribuição definida (planos CD) existe uma confusão conceitual, perigosa até:
A ideia de que cabe ao fundo de pensāo ou ao diretor de investimentos “proteger” o participante de si mesmo, limitando suas escolhas.
Na prática, o papel moderno de um fundo de pensāo deveria ser outro:
- Oferecer no plano CD, portfólios com diferentes níveis de risco;
- Fazer o assessment (avaliaçāo) do perfil de risco do participante;
- Investir pesado em educação financeira e previdenciária;
Então, permitir que ele acesse estratégias mais arrojadas e maior risco em seus investimentos.
Liberdade sem educação é abandono, porém:
Educação sem liberdade é paternalismo financeiro nāo solicitado.
Desacumulação com 100% em renda fixa?
Aqui mora um dos maiores paradoxos da previdência complementar moderna, que parece ter ficado parada no tempo:
- O participante passa 30, 40 anos investindo para crescer sua poupança, seu patrimônio previdenciário e …
- … no momento em que começa a sacar, o sistema empurra tudo para a renda fixa, como se nos 30, 40 anos seguintes, o risco tivesse acabado, desaparecido.
A longevidade atual mudou essa equação.
A fase de desacumulação virou, na prática, uma nova fase de investimentos de longo prazo.
Alocar 100% em ativos conservadores nesse momento (da desacumulaçāo) pode parecer seguro no curto prazo — e ser devastador no longo.
Quando desempenho vira problema jurídico
Nos Estados Unidos, a lógica é diferente da nossa. Lá, fundos de pensāo, planos 401k (como eles chamam os planos CD corporativos) e patrocinadores que apresentam desempenho sistematicamente baixo, não são apenas criticados — são processados.
A tese é simples e brutal:
- Se existiam alternativas melhores, mais baratas ou mais eficientes …
- … e o gestor não as ofereceu, isso pode ser visto como falha no dever fiduciário.
Na quinta feira da semana passada o plano 401k da Bloomberg - cujo patrimônio soma mais de US$ 5 bilhōes - foi acusado de má gestāo dos investimentos em uma açāo impetrada em Nova York.
Os cerca de 20.000 participantes pedem US$ 70 milhōes em ressarcimento. Alegam que o fundo de pensāo nāo tirou do plano dois perfis de investimentos que apresentaram performances ruins por mais de uma década. Um deles, entregou por 16 anos retornos muito abaixo do benchmark.
Credito de Imagem: InvestNews
O escritório de advocacia Charles Field, que defende os participantes do plano da Bloomberg, declarou à imprensa que:
“Casos como este contra a Bloomberg são uma ferramenta importante para proteger as economias de aposentadoria arduamente conquistadas pelos funcionários e garantir mudanças positivas contínuas na gestão de planos de aposentadoria".
"Isso é especialmente importante para grandes planos como o da Bloomberg, que detém bilhões de dólares das economias de aposentadoria de seus funcionários".
Ou seja: não buscar retorno sob a alegaçāo que está sendo prudente, nāo está incorrendo em riscos nos investimentos, coisa e tal, pode ser considerado uma forma de negligência. Imagine se a moda pega por aqui ….
Não enriquecer, nāo significa empobrecer
Existe um discurso confortável de que previdência não deve buscar o crescimento máximo do patrimônio, mas sim apenas preservá-lo.
O problema é que, em um mundo com inflação persistente, longevidade crescente e mercados financeiros cada vez mais sofisticados, preservar patrimônio sem crescer é, na prática, ir perdendo devagar.
Talvez o maior risco nos fundos de pensão de hoje em dia não esteja nos mercados financeiros, nem nas classes de ativos alternativos ou nas estratégias ativas de investimentos.
Talvez, o risco esteja nas salas de reunião, escondido atrás de uma frase aparentemente virtuosa:
“Somos pautados pela prudência e baixo risco nos investimentos”
A previdência é implacável com quem confunde prudência com imobilidade.
O verdadeiro risco não está em buscar a melhor aposentadoria para as pessoas e sofrer perdas ao longo do caminho. O verdadeiro risco está em garantir, com excelência técnica, que a aposentadoria nunca melhore.
Grande abraço,
Eder.
Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “Bloomberg hit with $70M ERISA lawsuit over decade of 401(k) underperformance”, escrito por Alan Goforth.
Disclaimer: Esse artigo foi escrito com uso de IA, baseado em prompts, na profunda experiencia profissional do autor e nas informações das fontes citadas.






