Estados Unidos, anos 2000, um chaveiro experiente percebeu um padrão estranho ao analisar a evoluçāo da própria experiência e habilidade.
No começo da vida profissional, era lento, levava quase uma hora para abrir uma porta e quando chamado por um cliente em apuros:
Quebrava ferramentas;
Suava;
Lutava com a fechadura.
Os clientes pagavam US$ 100 sorrindo, ficam super satisfeitos e ainda davam gorjeta de tāo contentes com a soluçāo do problema, ao conseguirem abrir a porta.
Eles viam esforço do profissional, sentiam que o dinheiro pago ao chaveiro, um especialista, valia muito a pena.
Anos depois, com a experiencia adquirida, o chaveiro virou um mestre na arte de abrir portas sem ter a chave original.
Chegava, analisava a fechadura e abria a porta em meros 2 minutos:
Sem barulho;
Sem suor;
Sem drama.
Tecnicamente perfeito … mas foi aí que começaram os problemas, os clientes passaram a reclamar.
“US$ 100 por dois minutos de trabalho?”; “Isso é um roubo!”; “Um absurdo!”
O chaveiro estava sendo punido por ser bom demais. Os clientes, percebeu ele, não estavam pagando pelo resultado do seu serviço (a porta ser aberta).
Os clientes estavam tentando pagar pelo esforço que conseguiam enxergar no trabalho desempenhado pelo chaveiro.
A psicologia chama isso de “Heurística do Esforço”.
Nosso cérebro comete um erro lógico:
Associamos valor ao tempo e ao sofrimento visíveis, não à competência invisível, no melhor estilo do livro “Predictably Irrational”.
Isso explica por que:
Você reclama de um logotipo caro quando o designer faz “rápido”, ignorando 10 anos de estudo;
Você confia mais em um consultor que entrega um relatório de 100 páginas do que em outro que resolve tudo em uma frase;
Você valoriza mais um prato que demora 40 minutos para ficar pronto do que um que fica pronto em 5 minutos — mesmo sendo melhor.
O mercado, muitas vezes, não premia eficiência, premia a aparência de trabalho duro.
A lição para o seu negócio? Se você faz algo parecer fácil demais, o cliente acha que é barato. Para vender um alto valor, você precisa sinalizar esforço. Entāo:
Explique o processo todo, como chegará na soluçāo;
Mostre o que vai ser analisado, o problema, o desafio;
Apresente o longo caminho ao leigo, antes de mostrar o atalho do profissional.
Eduque o cliente sobre a complexidade, antes de entregar a simplicidade.
O mestre chaveiro não cobra pelos 2 minutos que levou para abrir a porta. Ele cobra pelos 20 anos que levou para aprender a abri-la em 2 minutos.
Mas se o cliente não vê os 20 anos, ele só enxerga os 2 minutos. Ninguém gosta de pagar caro pelo tempo dos outros.
As pessoas pagam caro pelo valor que conseguem perceber. Eficiência sem comunicação, vira desvalorização. Não seja apenas rápido, seja evidente.
Credito de Imagem: www.sciencelearn.org.nz
A Heurística do Esforço e os fundos de pensāo
O paradoxo que explica porque cobrar por um talento parece injusto é o mesmo com o qual se defrontam os participantes dos planos CD nos fundos de pensāo.
É extremamente baixa a percepção do esforço feito pelas áreas profissionais de investimentos dos fundos de pensāo - que deveriam buscar ativamente por maiores retornos para os participantes - quando se constata que um garoto de 18 anos, munido de um smartphone, consegue comprar Tesouto Direto (titulos públios) a custo zero, em cinco minutos.
Entāo, das duas uma:
Ou os fundos de pensāo conseguem mostrar e convencer os participantes de seus planos CD de que é impossivel se obter rendimentos superiores aos titulos publicos, com uma gestāo de riscos profissional, ativa e caracterizda pela excelência;
Ou os atuais e potenciais participantes, vāo buscar rentabilidade superior aos títulos públicos, com risco gerenciado, em outro lugar.
Nāo é segredo que os fundos de pensāo andam preocupados ultimamente com disruptura em sua longa existência como opçāo de poupança de longo prazo.
Depois de três anos, num mundo que muda a toda hora, foi alterada a regulamentaçāo do Conselho Monetário Nacional que regula os investimentos dos fundos de pensāo.
Nota: A Resolução CMN nº 4.994, de 24/03/2022, foi substituida pela Resolução CMN nº 5.202, de 27/03/2025.
Na sequência de intensos debates entre tecnocratas do governo, a proibiçāo dos fundos de pensāo investirem em ativos virtuais (leia-se cryptoativos) ocorreu, em parte, devido às posiçōes do Conselho de Gestāo da Previdência Complementar e do orgāo de fiscalizaçāo do setor, a PREVIC.
Mas isso pode nāo ter a menor importancia, porque os fundos de pensāo enfrentam uma crise muito maior:
Estão perdendo completamente a oportunidade de conquistar os consumidores mais jovens, com base no princípio fundamental da confiança.
Tendo por base os comportamentos observados entre os clientes do app OKX no mundo todo, foi realizado um estudo para entender as perspectivas geracionais em relaçāo ao setor financeiro, cujas soluçōes de investimento e poupança estāo em constante evolução
A OKX é uma empresa de tecnologia blockchain com sede na Costa Rica, que opera a segunda maior exchange (corretora) de cryptomoedas em termos de volume diário de negociação, fornecendo acesso a finanças descentralizadas (DeFi) por meio de sua OKX Wallet.
Credito de Imagem: 99Bitcoins
Os principais resultados da pesquisa revelam um panorama claro:
Os consumidores da Geração Z e os Millennials (Geraçāo Y) confiam quase 5 vezes mais em cryptomoedas do que a geraçāo dos Baby Boomers;
Além disso, um em cada cinco (20%) consumidores da Geração Z e millennials afirma ter pouca confiança nas instituições financeiras tradicionais, enquanto quase três quartos (74%) dos Baby Boomers mantêm altos níveis de confiança no sistema antigo, no qual se encaixam os fundos de pensāo.
Credito de Imagem: OKX
A razāo por trás de tudo isso é muito mais profunda do que tendências virais e a suposta moda das cryptomoedas.
Esta é uma geração criada com código aberto de programaçāo, com apps e dashboards de controle em tempo real e espera a mesma transparência dos produtos e soluçōes TradFi - do setor financeiro tradicional (bancos, corretoras, fundos de pensāo et all).
Agora, com o mundo cada vez mais conectado ao blockchain e tudo sendo tokenizado - de imóveis à direitos autorais, passando por arte, musica e projetos de energia solar, indo até pontos de programas de fidelidade - fica claro que:
Os jovens vêem a economia digital como seu mercado de investimento e poupança. Nāo dāo a minima para o que os tecnocratas que regulam a previdencia complementar no Brasil e no mundo pensam sobre isso.
O mercado financeiro tradicional, bolsas de valores, fundos de investimento, PGBLs, fundos de pensāo não lhes pertence, pertence aos seus pais e avós.
Motivações para investir: as decisões de investimento são fortemente influenciadas por informações nas mídias sociais e pela prevalência de aplicativos;
Comportamento de risco: entre 41% e 43% da Geração Z nos EUA, Canadá e Reino Unido e 60% na China, citaram o “medo de ficar de fora” (FOMO ou Fear of Missing Out) como um fator motivador para colocar dinheiro em alguma alternativa de investimento;
Cryptoativos ou ativos virtuais: uma parcela considerável de investidores da Geração Z se inclina fortemente para as cryptomoedas em relação a outros ativos — um sinal comportamental de que os americanos mais jovens estão dispostos a buscar alternativas fora dos canais tradicionais, quando não acreditam estar obtendo transparência ou retornos competitivos. De acordo com o estudo, quase 20% dos investidores da Geração Z possuem apenas cryptomoedas.
Para os bancos e fundos de pensāo, isso deveria servir de grande alerta:
Confiança não é mais algo que as instituições possam apenas declarar em suas estratégias de marketing, mas sim algo que devem conquistar e demonstrar.
A Geração dos Baby Boomer (nascidos até 1964) construiu sua vida financeira numa época em que instituições como bancos e fundos de pensāo eram a opção mais segura disponível.
A regulamentação significava proteção e a confiança era algo que se sinalizava e pressupunha primeiro, era questionava só depois.
Já a Geração Z, aprendeu o oposto,. Eles atingiram a maioridade no período que se seguiu à crise financeira de 2008, entraram na vida adulta com dívidas estudantis elevadas, chegaram no mercado de trabalho no meio da pandemia do Covid-19 e agora, enfrentam competiçāo com IA e uma inflação persistente.
Essas reviravoltas reforçaram uma lição simples: as promessas institucionais podem mudar da noite para o dia. Quando a confiança é testada repetidamente, o ceticismo se torna padrāo e vira um comportamento racional.
Fundos de pensāo e bancos não estão perdendo a Geração Z para as cryptomoedas. Estão perdendo essa geraçāo para a confiança.
Credito de Imagem: OKX
Controle ao invés de apenas promessas
Para os Baby Boomers, segurança significa supervisão regulatória e a estabilidade percebida das instituições tradicionais (fundos de pensāo e bancos). Mas agora, o ceticismo está remodelando e influenciando a confiança das gerações mais jovens.
A Geração Z classifica, consistentemente, a segurança das plataformas como o principal fator de confiança, acima da regulamentação como o principal fator de confiança.
Para a Geração Z, a segurança é mais pessoal e técnica, com as pessoas mantendo a propriedade direta dos ativos, a capacidade de verificar como os sistemas funcionam e a liberdade de movimentar valores sem depender de bancos ou fundos de pensāo como intermediários.
É por isso que tanto a Geração Z quanto os Millennials estão 4 vezes mais otimistas com relação às cryptomoedas em 2026 , comparados aos Baby Boomers:
Os jovens conseguem visualizar as transações no blockchain;
Eles têm a autocustódia de seus ativos investidos;
Tem acesso, também, aos protocolos de auditoria e compreendem as regras e retornos sem precisar esperar por um relatório trimestral ou uma atualização do órgão regulador.
A transparência é fundamental para mudança. Enquanto os Baby Boomers tendem a associar confiança à aprovação e controle regulatório, a GenZ associa confiança à visibilidade.
Eles querem entender como as decisões são tomadas, como os riscos são gerenciados e como os incentivos são alinhados.
Eles querem clareza sobre taxas de gestāo e administraçāo, rendimentos creditados, conflitos de interesse e sistemas que tenham código aberto como padrāo.
Historicamente, fundos de pensāo e bancos tradicionais têm enfrentado dificuldades nesses aspectos. Sua proposta de valor foi construída em uma época em que a transparência limitada era frequentemente vista como um diferencial.
Agora, porém, quando toda uma geração está acostumada a dashbords (painéis de controle) em tempo real e proof-of-reserve (prova das reservas investidas), a ideia de ter que esperar por um extrato mensal, um balanço auditado ou um relatorio anual de gestāo, parece simplesmente absurda.
A transparência tornou-se um requisito básico para a credibilidade.
O futuro dos fundos de pensāo e das finanças
Num cenario de rebranding de fundos de pensāo, no qual a maioria está começando a contruir uma nova marca do zero, desconhecida do público, sem histórico de resultados, os conselhos deliberativos deveriam se perguntar:
Por que os jovens confiam mais na transparência do que na tradição?
Os jovens americanos e isso nāo muda nada em relaçāo aos brasileiros, desejam alinhar a estabilidade das finanças tradicionais, regulamentadas, à transparência e ao controle dos ativos digitais.
Eles querem produtos de poupança de longo prazo que reflitam a forma como já interagem digitalmente com tecnologia e com dinheiro.
Os fundos de pensāo, instituições e setores que compreenderem essa mudança e se adaptarem a ela, definirão seu futuro. Aqueles que não o fizerem continuarão a ver os jovens buscarem alternativas em outro lugar.
Grande abraço,
Eder.
Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “Gen Z trusts code over bank promises”, escrito por Haider Rafique.
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Mestre em Administração Profissional pela EAESP/FGV, Bacharel em Ciências Atuariais pela UFRJ,com especialização em Propaganda & Marketing pela ESPM-RJ e em Governança Corporativa pelo IBGC. Mais de 25 anos de atuação no mercado de previdência complementar, Membro nº 641 e ex-Diretor do Instituto Brasileiro de Atuária e ex-Professor do MBA de Gestão de Riscos Financeiros e Atuariais da USP/FIPECAFI. Gerenciou inúmeros projetos internacionais e regionais na área de benefícios, tendo morado em Jacksonville, FLA-EUA e em Lincolnshire, CH-EUA. Ocupou cargos de alta gerência e direção nas maiores empresas globais de benefícios, em fundos de pensão, em seguradoras e em bancos.
Desenvolve Pesquisas, Projetos e Palestras sobre Previdência, Seguros (RE), Benefícios a Empregados, Programas de Saúde, Economia Comportamental, Neuromarketing e Investimentos Responsáveis.