terça-feira, 14 de abril de 2026

INSIGHTS DA INTERSEÇĀO: GEN Z VERSUS FUNDOS DE PENSĀO


De Sāo Paulo, SP.


O sistema de previdência complementar corporativo se acostumou a pensar o futuro com uma lógica quase industrial: emprego relativamente estável, carreira linear, vínculo duradouro com o empregador, comunicação formal, confiança institucional e uma boa dose de paciência.

Uma nova pesquisa da Morning Consult sobre a Geração Z mostra que esse desenho está ficando cada vez mais distante da realidade.

A Gen Z está amadurecendo, sim. Já não dá mais para tratá-la como uma geração de adolescentes, eternamente em fase de testes:

  • A parcela de casados subiu de 9% para 15%;

  • O emprego em tempo integral foi de 64% para 72%;

  • A responsabilidade financeira dentro do domicílio avançou de 58% para 71%; e

  • a fatia de estudantes caiu de 25% para 16%.

Em outras palavras, a Gen Z entrou na vida adulta, só que entrou do seu próprio jeito e é justamente aí que começam os problemas para os fundos de pensão.

A pesquisa mostra que, embora mais adulta, a Gen Z continua sendo a geração mais móvel, mais fluida e mais desconfiada dentre todas as demais.

Eles ainda mudam mais de emprego, mudam mais de casa, procuram mais por trabalho e permanecem fortemente inclinados à novidades, sāo impulsivos, adoram status e curtem as tendências.

Um terço dos jovens ainda está procurando emprego ativamente, percentual bem acima do total da população. Ao mesmo tempo, 52% seguem morando de aluguel, praticamente sem mudança relevante desde 2021, referendando a impressāo de que comprar a cada propria está cada vez mais dificil.

Traduzindo para o português claro do mundo da poupança de longo prazo, está a parte que deveria tirar o sono de quem atua com previdência complementar!:

A Gen Z se importa com o futuro, mas não quer um futuro empacotado num modelo rígido, lento, institucional demais e desenhado para uma vida profissional que já não existe mais.

A pesquisa mostra uma geração mais confiante e mais ambiciosa. A parcela dos que dizem sentir controle sobre o próprio futuro subiu de 61% para 67% e o senso de identidade também cresceu bastante.

Isso sugere uma geração menos disposta a terceirizar cegamente suas decisões financeiras para instituições opacas, paternalistas ou excessivamente burocráticas.

Em tese, isso poderia ser uma ótima notícia para os fundos de pensão. Afinal, uma geração que pensa no futuro, estabelece metas e quer ganhar autonomia deveria se interessar por instrumentos de acumulação de longo prazo.

Mas há uma diferença importante entre “querer construir o futuro” e “querer fazer isso do jeito e com as soluçōes que os fundos de pensāo oferecem”. A Gen Z parece valorizar controle, velocidade, transparência, experiência e aderência ao seu estilo de vida.

A própria pesquisa mostra que ela continua superando as demais geraçōes em impulsividade, busca por status, perseguição de tendências e adoção de novas tecnologias.

Também segue hiperconectada, com forte presença no TikTok, YouTube, Instagram e ambientes digitais onde vídeo, interação, descoberta e comunidade importam muito mais do que relatorios anuais bonitos, regulamentos e palestras em PowerPoint.

Agora imagine o choque de mundos.

De um lado, fundos de pensão ainda operando com linguagem pesada, jornadas lentas, baixa portabilidade subjetiva, pouca sensação de controle individual, pouca personalização e carteiras que muitas vezes parecem montadas para agradar reguladores e comitês, não para engajar participantes.

Do outro, uma geração acostumada a abrir conta em minutos, mover dinheiro em tempo real, acompanhar tudo pelo celular, consumir informação em vídeo, comparar alternativas em comunidades e testar soluções novas antes que o “mercado tradicional” termine de marcar a reunião preparatória da reunião.

Não é difícil inferir, portanto, como a Gen Z tenderia a enxergar o contraste entre fundos de pensão e alternativas modernas de poupança, inclusive estratégias de poupança e investimento associadas à ativos digitais e ao universo crypto.

Na cabeça de boa parte dessa geração, o fundo de pensão corre o risco de parecer uma espécie de “caixa-preta”:

  • promete segurança;

  • fala em longo prazo;

  • usa linguagem respeitável;

  • mas oferece pouco senso de autonomia,

  • pouco protagonismo individual; e

  • baixa conexão com a lógica digital de propriedade e acompanhamento em tempo real.

Já alternativas como cryptoativos, staking, plataformas digitais de investimento e carteiras com experiência mobile tendem a transmitir exatamente o oposto:

  • acesso direto;

  • visibilidade;

  • sensação de controle;

  • pertencimento a uma comunidade;

  • linguagem mais próxima e sobretudo;

  • a impressão de que o dinheiro continua sendo “meu”, o tempo todo.

Credito de Imagem: Morning Consult

Isso não quer dizer que a Gen Z seja, automaticamente, nem avessa ao risco nem, ao contrário, irresponsavelmente apaixonada por risco.

Quer dizer algo mais interessante: ela parece preferir risco visível a segurança opaca e isso, para os fundos de pensão, é uma provocação séria.

O setor está acostumado a dizer: “nós somos a solução prudente”, ao que a Gen Z talvez responda: “prudente para quem, exatamente e com qual grau de transparência, flexibilidade e autonomia?”

Outro ponto importante da pesquisa é que a relação da Gen Z com marcas e instituições é caracterizada por desconfiança.

O dado é brutal: 97% das marcas analisadas têm nível de confiança menor junto à Gen Z do que junto ao conjunto dos adultos.

Se isso vale para marcas de consumo, imagine para instituições financeiras, previdenciárias e reguladas, que já largam em desvantagem por parecerem distantes, complicadas e muitas vezes, pouco sexy.

Em outras palavras:

o fundo de pensão não concorre apenas com outros produtos financeiros, concorre com um déficit estrutural de confiança.

E ainda concorre com um segundo problema: os fundos de pensāo foram construídos em torno de um mercado de trabalho que está se desfazendo.

Sobretudo em sua lógica histórica, os planos de previdencia complementar corporativos funcionam melhor quando existe:

  • estabilidade de vínculo empregaticio;

  • previsibilidade de renda;

  • permanência no emprego;

  • identidade corporativa forte; e

  • horizonte longo dentro de uma mesma organização.

Só que a Gen Z está entrando no mercado com trajetórias profissionais mais fragmentadas, mais híbridas, mais móveis e menos obedientes à ideia de carreira única.

A pesquisa mostra exatamente isso ao destacar maior mobilidade profissional, maior procura ativa por novas oportunidades e uma transição para a vida adulta que não significa, de forma alguma, acomodação.

Esse descasamento é central.

O problema não é apenas convencer a Gen Z a poupar, o problema é que o veículo tradicional de poupança previdenciária foi desenhado para uma trajetória profissional que está ficando velha antes mesmo de alguns participantes envelhecerem.

Por isso, a pergunta correta não é: “como fazer a Gen Z gostar mais dos fundos de pensão?” A pergunta certa é: “o que os fundos de pensão precisam fazer para não parecer um DVD riscado na era do streaming?”

Olhando os dados da pesquisa, a Gen Z até reúne várias características que poderiam favorecer a poupança previdenciária:

  • está formando família;

  • assumindo as contas;

  • trabalhando mais;

  • ganhando mais do que antes; e

  • pensando mais seriamente no futuro.

O desafio é que a Gen Z quer soluções compatíveis com sua lógica de vida: soluçōes digitais, flexíveis, transparentes, portáteis, com linguagem simples e sensação concreta de comando.

Isso exige dos fundos de pensāo:

  • mudanças profundas;

  • comunicação em linguagem humana, não em dialeto de regulamento;

  • experiência digital de verdade, não portal com cara de repartição online;

  • portabilidade fluida, personalização;

  • opções mais aderentes à perfis distintos de risco e retorno;

  • educação financeira pensada para vídeo, comunidade e jornadas curtas de atenção.

Exige, acima de tudo, abandonar a fantasia de que o jovem rejeita previdência porque “não pensa no futuro”. A pesquisa sugere o contrário.

A Gen Z pensa, sim, no futuro. Talvez até mais do que muita gente imagina. O que ela não aceita tão facilmente é a ideia de entregar esse futuro a estruturas que parecem pertencer ao passado …

Há ainda um detalhe saborosamente irônico.

A Gen Z é apresentada como impulsiva, trend-chaser e atraída por novidade. O setor previdenciário, que costuma ler isso como defeito, talvez devesse ler também como alerta estratégico.

Num mundo em que novas tecnologias financeiras, tokenização de ativos, carteiras digitais edinheiro programável vão se tornando parte da paisagem, insistir apenas no modelo tradicional de previdencia complementar pode fazer com que os fundos de pensão não pareçam prudentes, mas simplesmente lentos demais.

No fim das contas, o embate não é entre Gen Z e previdência complementar corporativa. O embate é entre uma nova geração de poupadores e um velho design de poupança institucional.

A Gen Z não está necessariamente dizendo “não quero me preparar para o futuro”. Ela pode estar dizendo algo bem mais desconfortável para o setor:

“Quero, sim. Mas não desse jeito.”

Grande abraço,

Eder.


Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “The State of Gen Z - A Generation in Transition”, Morning Consult.

Disclaimer: Esse artigo foi escrito com uso de IA, baseado em prompts do autor, em sua profunda experiencia profissional e nas informações das fontes citadas.


segunda-feira, 13 de abril de 2026

A COCHILADA COM O ANDROID E A VACILADA COM A CRYPTOECONOMIA

 



De Sāo Paulo, SP.


Grandes instituiçōes, sejam governos ou empresas privadas, raramente erram ao prever o futuro, por falta de inteligência.

Elas erram porque se sentem confortáveis.

Foi isso que aconteceu quando Michael Saylor apresentou à Microsoft a ideia de “tesouraria corporativa com Bitcoin” — e a empresa recusou.

À primeira vista, pode ter parecido uma decisão corporativa perfeitamente razoável: o Bitcoin ainda continua controverso em muitas salas de reuniāo de conselhos.

O sistema Android

No final dos anos 2000, uma transformaçāo lenta estava ocorrendo na tecnologia. Os sistemas operacionais de telefonia móvel estavam prestes a se tornar as plataformas de software mais importantes do mundo.

  • A Microsoft tinha engenheiros;

  • A Microsoft tinha amplos recursos financeiros;

  • A Microsoft tinha canais de distribuiçāo;

…mas, nāo conseguiu perceber a velocidade com que a mudança ocorreria.

Em vez de liderar a revolução do mercado de dispositivos móveis, a empresa apostou ainda mais no Windows Mobile enquanto o Google lançava o Android.

Hoje, o Android está em bilhões de dispositivos no mundo e domina o mercado global de smartphones.

Na Microsoft, ter deixado escapar a oportunidade de adquirir o Android ainda é considerado um dos maiores fracassos estratégicos da empresa.

Essa lição não é sobre inteligência, é sobre reconhecer uma mudança de plataforma tecnológica antes que ela se torne óbvia.

Para deixar bem claro, a decisāo da Microsoft de rejeitar a ideia de adicionar Bitcoin à sua Tesouraria Corporativa, não foi uma decisão recente.

Ocorreu há mais de um ano, quando Michael Saylor defendeu a ideia publicamente. Na época, a sugestão soou radical para muitos conselhos de administração.

O Bitcoin ainda era visto como um ativo especulativo, volátil e fora da zona de conforto das diretorias financeiras tradicionais.

Mas o tempo tem o poder de lançar luz e mudar convicções. Passado mais de um ano, o contraste ficou ainda mais nítido.

Empresas de mineração listadas em bolsa, venderam mais de 15.000 BTC desde outubro/2025, utilizando suas reservas financeiras em um momento de margens de lucro cada vez menores no setor.

Mineradoras de Bitcoin como a Cango venderam parcelas significativas de suas participações, enquanto a MARA Holdings divulgou uma estratégia mais flexível, que permite à empresa comprar ou vender Bitcoin, mantendo ainda dezenas de milhares de moedas.

Credito de Imagem: www.bisonapp.com

Nada disso é necessariamente pessimista.

  • Os mineradores produzem Bitcoin;

  • Eventualmente, eles o vendem;

  • Essa oferta de Bitcoin precisa ir para algum lugar;

  • Ela vai para quem está comprador, não quem está vendendo.

Enquanto os mineradores estão vendendo, Michael Saylor está fazendo o oposto. Por meio de sua empresa Strategy (antiga MicroStrategy), Saylor acumulou centenas de milhares de Bitcoins.

A estratégia é simples. Não tente fazer market-timing, não tente prever o momento certo para comprar ou vender: adquira.

Na visão de Saylor, Bitcoin não é um ativo especulativo, é capital.

Os mineradores mineram Bitcoin da mesma forma que as empresas petrolíferas extraem energia. A Strategy absorve essa oferta e a “armazena” em seu balanço patrimonial.

Há outra parte dessa história que as pessoas percebem, mas raramente expressam em voz alta.

Empresas do porte da Microsoft podem se dar ao luxo de ignorar certas ideias. Quando você já é uma das corporações mais ricas do mundo, perder uma nova ideia não representa uma ameaça para seu sucesso.

Mas empreendedores tendem a pensar de forma diferente das instituições.

Se alguém como Bill Gates estivesse construindo a Microsoft do zero, nesse momento, seria difícil imaginá-lo ignorando uma nova infraestrutura de capital, que está surgindo na Internet.

Empreendedores e fundadores de startups buscam:

  • alavancagem;

  • sistemas;

  • a próxima plataforma.

As grandes organizações, frequentemente, protegem aquilo que já existe. Essa é a questāo mais profunda por trás do debate sobre Tesouraria de Bitcoin e ativos digitais em fundos de pensāo.

Corporações tradicionais e organizaçōes de previdência complementar, ainda operam em um mundo de “sistemas fechados”:

  • Balanços patrimoniais;

  • Margens operacionais;

  • Lucros trimestrais;

  • Relatórios anuais;

  • Investimento passivo…

Até mesmo os mineradores de Bitcoin — apesar de protegerem a rede — ainda vivem e operam nesse mundo, eles gerenciam:

  • Preço da energia;

  • Atualizaçōes de software;

  • Upgrade de hardware (equipamentos);

  • Custos de infraestrutura e de pessoal.

Mineradores produzem Bitcoin, mas na maioria dos casos não têm condições de mantê-lo em estoque.

Enquanto isso, a ideia que Saylor está defendendo é radicalmente diferente:

  • Bitcoin não é custo fixo;

  • Não é estoque;

  • É capital.

… e capital se comporta de maneira muito diferente dentro de uma rede de blockchain e de um sistema financeiro aberto.

Credito de Imagem: REUTERS/Gonzalo Fuentes

Hoje, ninguém sabe se a Microsoft está errada ao rejeitar Bitcoin em sua tesouraria e o governo acha que está certo em proibir ativos digitais no patrimonio dos fundos de pensāo.

Mas a história tem o poder de fazer com que certas decisões pareçam óbvias em retrospectiva:

A certa altura, os smartphones pareciam apenas experimentais, em certo momento a computação em nuvem parecia desnecessária, em certo momento o Android parecia só um projeto periférico, em certo momento fundos mutuos de investimentos foram considerados pirâmide financeira ...

Bitcoin, ativos digitais e cryptoeconomia

Hoje, algumas das maiores corporações privadas do mundo ainda não sabem ao certo o que fazer com o Bitcoin, da mesma forma que os fundos de pensāo sequer sabem como investir em ativos digitais.

O que levanta uma questão simples:

  • Se o Bitcoin se tornar “a infraestrutura” de capital corporativo, rejeitá-lo hoje será como ter rejeitado o Android?

  • Se todos os ativos forem para o blockchain, a proibiçāo dos fundos de pensāo investirem em ativos digitais hoje, seria como a Microsoft ter deixado passar o Android?

A Microsoft pode simplesmente ter dado a palavra a Michael Saylor e convidado-o a falar para seu conselho porque o momento dele havia chegado — tipo, uma chance de se apresentar diante de grandes nomes e defender seu ponto de vista.

A Microsoft nāo gostou, particularmente, de ser lembrada que perdeu uma valorização de 2.000.000% ou mais.

É claro que o Bitcoin provavelmente continuará subindo, mas, na época daquela reunião, o BTC já havia passado de cerca de um US$ 0,01 para o patamar mais alto possível.

As pessoas que estāo poupando e cuja segurança financeira no futuro depende de rentabilidades maiores do que as entregues por títulos públicos, precisam se lembrar de quem as proibiu de entrar na era dos ativos digitais quando ela estava no inicio.

Grande abraço,

Eder.


Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “They Passed on Android. Now They’re Passing on Bitcoin — The Problem With Closed-System Thinking”, escrito por Chip Mahoney


quarta-feira, 8 de abril de 2026

UMA REALIDADE DOS PLANOS CD QUE NINGUÉM TE FALA

 


De Sāo Paulo, SP.


“Passei a vida toda fazendo seguro contra a morte, agora tenho medo de viver demais” - Troy Breiland


Por séculos o maior medo de um chefe de familia foi morrer cedo demais e deixar seus entes queridos financeiramente desamparados. A soluçāo para isso era fazer seguro de vida, fazer um hedge contra a taxa de mortalidade.

Hoje, esse medo se inverteu: a nova catástrofe nāo é mais morrer muito cedo, é viver até muito tarde. Vivemos um tempo em que a longevidade se tornou um fardo.

Lá pelo final dos anos 80, com a transiçāo dos planos de beneficio definido (BD) para os planos de contribuiçāo definia (CD) os fundos de pensāo, silenciosamente, reescreveram a estrutura do risco de envelhecimento.

Houve uma era em que a longevidade era compartilhada coletivamente, os planos BD absorviam esse risco. Se voce vivesse mais do que a media das pessoas, você se beneficiava do sistema. Se morresse cedo, outra pessoa se beneficiava.

O risco era socializado, repartido entre milhoes de individuoa. O milagre do aumento na expectativa de vida era assimilado coletivamente.

A partir do inicio dos anos 90, a maioria de nós termina com contas de poupança individuais, somada aquilo que formos capaz de receber da Previdência Social.

A responsabilidade de gerenciar o risco de sobrevivência por 30 - 40 anos, passou das instituições (empresas e fundos de pensāo) para os indivíduos. O risco repousa nas mesas das cozinhas, nāo nos balanços corporativos.

Risco de longevidade é o termo elegante para essa mudança, significa simplesmente o risco de você viver mais do que você tem de dinheiro.

Emocionalmente, tem um significado mais sombrio. Significa que chegamos num ponto em que viver uma vida longa e saudável trás instabilidade financeira.

Aos 64 anos, a aritmética deixa de ser teórica. Se a aposentadoria começa aos 65 e a vida se estende até os 95, são trinta anos sem salário. Trinta anos sujeito aos ciclos economicos. Trinta anos de inflação corroendo o poder de compra. Trinta anos de avanços médicos que prolongam a vida, mas aumentam o custo de mantê-la.

Trinta anos na esperanca de que as hipoteses que voce considerou se confirmem.

Os solavandos a economia não se tornam mais suaves com a idade. Um mercado em baixa aos 40 anos de idade é inconveniente. Um mercado em baixa aos 80 anos é desestabilizador.

Quedas bruscas de rentabilidade podem prejudicar permanentemente uma poupança acumulada quando os saques (retiradas mensais) sāo feitos durante períodos de recessão. As recuperações, posteriormente, podem acontecer, mas nem sempre reparam os danos causados ​​ao longo de todos os anos da aposentadoria.

Os fundos de pensāo e a previdência complementar corporativa criaram um sistema que pressupõe estabilidade emocional e tomada de decisões disciplinadas ao longo de décadas de envelhecimento.

Pressupõe que você se reequilibrará com serenidade, em meio à volatilidade, aos 83 anos de idade. Pressupõe que você não entrará em pânico quando as manchetes anunciarem recessão. Pressupõe que a clareza cognitiva, o raciocineo matematico, a capacidade de gerenciar suas retiradas, o acompanharāo até os noventa anos.

É premissa demais equilibrada em sua biologia.

O esvanecimento silencioso a vida

O impacto do risco de longevidade no comportamento individual é mais corrosivo do que seu impacto nos balanços patrimoniais.

As pessoas aposentadas gastam pouco. Adiam a alegria. Dizem não a viagens, a melhorias, a pequenos luxos, não porque não possam pagá-los, mas porque temem que, aos 95 anos, se deparem com uma conta bancária vazia.

Uma estranha paralisia se instala quando você não sabe quanto tempo vai viver. Você acumula escolhas. Adia o prazer. Reduz as experiências a “gastos não essenciais”.

Você não fica sem dinheiro, você fica sem permissão para gastar e assim a vida vai se estreitando silenciosamente. O horizonte se contrai, não porque os recursos sejam insuficientes, mas porque a incerteza é intolerável.

A tragédia é sutil, ela não se anuncia, ela se acumula-se em pequenas recusas.

O casamento prolonga a coisa

Credito de Imagem: Elo7

Se você é casado(a), o risco de longevidade tem impacto ampliado.

A probabilidade de pelo menos um dos cônjuges viver até os 90 anos é alta. Isso significa que o horizonte de planejamento se estende por mais tempo ainda.

Quando um dos parceiros falece, seu benefício da Previdência Social desaparece. Os custos fixos não diminuem proporcionalmente. Os custos com saúde geralmente aumentam. A solidão agrava a vulnerabilidade financeira.

O risco de longevidade não é apenas um fenômeno individual, ele é relacional.

O cônjuge sobrevivente pode ser aquele que enfrenta a complexidade justamente no momento em que a resiliência é mais frágil, mas o sistema pressupõe transições tranquilas, decisões racionais e conhecimento financeiro em meio ao luto …

O que a previdencia complementa chama de planejamento, no fundo, é uma tentativa de gerenciar a incerteza que não pode ser verdadeiramente controlada.

O que é triste de verdade

O mais perturbador não são os cálculos matematico-financeiros, mas a inversão emocional. Durante a maior parte da vida, as pessoas paguam seguro para que suas famílias não sofram se elas desaparecessem.

Agora, elas se veem tendo que garantir que as familias não sofram se elas insistirem, teimosamente, em viver.

É algo meio sombrio. Viver muito tempo deveria ser motivo de alegria, deveria sinalizar sabedoria acumulada, relacionamentos duradouros e uma experiência mais profunda. Em vez disso, parece um problema.

Quanto melhor você se cuida, mais anos seu patrimônio precisa te sustentar. A vitalidade tem um custo.

A biologia nāo é o vilāo

É tentador caracterizar o risco da longevidade como um problema biológico.

Não é!

O problema é que os fundos de pensāo construíram um sistema de previdência complementar que dependente de retornos financeiros contínuos, de disciplina pessoal, de um INSS estável ​​e de função cognitiva intacta até o final da vida.

Adicione a tudo isso as disrupturas tecnológicas — indústrias remodeladas pela automação, deslocamento de profissionais no final da carreira, janelas de emprego mais curtas — e um período menor para acumular poupança.

Você pode:

  • perder poder aquisitivo aos 55 anos e nunca mais recuperá-lo totalmente;

  • ser forçado a se aposentar mais cedo do que o planejado;

  • precisar de seus ativos antes do que o planejado.

O risco de longevidade se soma ao risco de carreira. A ameaça não é você viver muito tempo, é o mercado de trabalho deixar de valorizá-lo muito antes do seu corpo.

Uma frase que ninguem diz

Credito de Imagem: Mercado Livre

Ninguém diz: “espero não viver muito tempo”, mas muitos desejam isso em silêncio. Temem:

  • se tornar um fardo;

  • que suas economias se esgotem;

  • um capítulo final prolongado, marcado por dificuldades financeiras em vez de liberdade.

Esse medo silencioso molda decisões, molda o consumo, molda a tolerância ao risco, molda a maneira que vivemos os anos que nos restam.

O risco de longevidade é real, os cálculos atuariais importam, mas a forma como a previdencia o encara pode estar causando mais danos do que as probabilidades em sí.

O que poderia ser feito?

Um sistema de previdencia complementar corporativo mais saudável começaria com pisos de renda garantidos mais robustos, para que as necessidades básicas não dependam do desempenho do mercado nem da economia.

Um veiculo de poupança institucional deveria ser mais holistico, considerar a inflação na área da saúde, para que o envelhecimento não se traduza automaticamente em aumento da exposição financeira.

Deveria tratar a aposentadoria não como “férias de dez anos”, mas como uma fase legítima da vida que exige estrutura, propósito e comunidade.

Acima de tudo, isso impediria que a longevidade fosse vista como algo desestabilizador. A longevidade deveria ser algo para o qual nos preparamos, não algo que deveriamos temer.

A ironia? Transformamos o dom de viver por mais tempo em um risco calculado em planilhas. Isso revela tudo sobre como reorganizamos o risco na sociedade moderna.

Viver muito não deveria ser uma ameaça financeira, se for, a culpa não é da biologia, é nossa, é dos sistema de previdencia complementar que criamos.

Grande abraço,

Eder.


Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “The Cruel Irony of Longevity Risk”, escrito por Troy Breiland.


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