quarta-feira, 8 de julho de 2026

O QUE UMA REGRA DE DRESSING CODE QUE NĀO TEM LÓGICA DIZ SOBRE FUNDOS DE PENSĀO?


De Sāo Paulo, SP.

Usar bermudas no escritório faz todo sentido e os códigos de vestimento parecem ficar mais permissivos a cada dia: jeans, tênis e camisetas são onipresentes entre os trabalhadores que frequentam escritórios.

O tabu contra o uso de bermudas em ambientes profissionais, no entanto, resiste, mesmo em lugares como o Rio de Janeiro, Australia e Washington D.C., no verāo, quando o ar quente e úmido parece um bafo de cachorro no seu cangote.

O pensamento corrente é que bermudas, sāo coisa de criança.

Afinal, por que que a resistencia contra bermudas insiste tanto em sobreviver? Ninguém tem uma resposta satisfatória, mesmo sendo a convenção de moda mais ilógica ainda de pé.

Isso significa que seus dias provavelmente estão contados e que a gloriosa era da libertação das pernas está próxima.

Houve um tempo em que bermudas realmente eram coisa de meninos pequenos. No fim do período vitoriano, por volta de 1900, as escolas britânicas adotaram calças curtas para os alunos mais novos e do sexo masculino.

Essa prática acabou se espalhando para países fora da Commonwealth (Comunidade de 56 paises, a maioria ex-colônias do Império Briânico).

A associação entre bermudas e crianças ainda era forte em 1932, quando o astro inglês do tênis Bunny Austin, que era baixinho, decidiu que estava cansado de correr usando “calças encharcadas de suor” e estreou de bermuda no U.S. National Championships.

Com um chapéu branco de linho e bermudas de flanela, o pequeno jogador inglês parecia uma criação de A. A. Milne (autor dos livros sobre o ursinho Winnie-the-Poo)”, escreveu na época o The New York Times.

Talvez ele realmente tivesse algo de Christopher Robin. Foi Austin, que chegou a duas finais de Wimbledon, quem introduziu as bermudas nas quadras de tenis.

Ele perdeu as partidas, mas as bermudas venceram a guerra. Ao menos em contextos esportivos elegantes, homens adultos podiam se livrar das calças compridas sem se preocupar com o que o Times diria.

Segundo o historiador de moda James Laver, a moda masculina tende a nascer no campo esportivo ou no campo de batalha.

Durante a II Guerra Mundial, um enorme número de soldados britânicos e da Commonwealth usou bermudas no norte da África, popularizando o visual.

Depois da guerra, você passa a ter uma quantidade enorme de bermudas cáqui em lojas de sobras de uniforme do Exército e da Marinha ”, disse o eminente jornalista de moda masculina G. Bruce Boyer.

Credito de imagem: www.reddit.com/r/AskHistorians/

“Então, os homens começaram a usá-las para lavar o carro, depois para jogar golfe e assim por diante”, completou.

Nos anos 1950, as bermudas — uma calça na altura dos joelhos — eram aceitas como traje formal na ilha que deu o nome ao vestimento — mas nāo eram usadas em absolutamente nenhum outro lugar, a nāo ser entre o público dos clubes de campo.

Havia uma barreira rígida entre os lugares onde bermudas eram apropriadas — o clube, a praia, um churrasco — e o escritório, onde não eram.

Boyer lembra que marcas de moda americanas tentaram vender ternos masculinos com calças curtas já nos anos 1950. “A razão pela qual não se fala disso”, disse ele, “é porque não funcionou”.

As bermudas continuaram proibidas mesmo enquanto outros pilares do código de vestimenta corporativo desmoronavam.

  • Jeans eram originalmente roupa de trabalhadores braçais.

  • Camisetas costumavam ser roupa de baixo.

  • Camisas polo passaram do campo de golfe para a sala de reuniões.

  • Há uma década, tênis esportivos ainda eram, em grande parte, malvistos;

O código de vestimenta recentemente aprovado pelo Senado dos EUA, conhecido informalmente como SHORTS Act, exige paletó, gravata e — zero surpresa — calças compridas. Como não menciona calçados, hoje em dia até membros do congresso circulam pelo Capitólio de tênis.

A tendência clara é em direção ao conforto.

Segundo uma pesquisa Gallup de 2023:

  • 3% dos americanos usam terno para trabalhar no dia a dia.

  • 41% disseram usar “roupas business casual”, e

  • 31% disseram usar roupas comuns do dia a dia.

“Esses códigos mudam com o tempo”, diz Derek Guy, escritor de moda mais conhecido como Menswear Guy.

Eu não consigo lhe dar uma razão para explicar por que, de algum modo, as bermudas têm sido um pouco mais resistentes”, comenta ele.

Quando pressionados por uma explicação, vários especialistas de moda mencioam o ex-estilista Tom Ford. Em uma entrevista de 2011 à revista Another Man, Ford apresentou suas “cinco lições sobre como ser um cavalheiro moderno”.

Tudo ia bem — Lição 4: não seja racista nem sexista — até a lição final: “Bermudas só devem ser usadas na quadra de tênis ou na praia”.

Isso nos fz especular sobre por que bermudas poderiam ser consideradas pouco cavalheirescas. Uma possibilidade é que elas simplesmente podem ser feias.

Certamente, se forem longas demais, as bermudas podem encurtar visualmente as pernas, o que não é particularmente lisonjeiro. Talvez seja por isso que Tom Cruise, que tem 1,70 metro de altura, usou jeans compridos, não bermuda, enquanto jogava vôlei de praia no filme Top Gun.

Credito de Imagem: @joshcarlosjosh no X

A solução simples é usar bermudas que terminem alguns centímetros acima do joelho.

Para alguns céticos das bermudas, porém, essa cura específica seria pior que a doença. Ninguém quer ver pernas peludas.

O problema com essa teoria é a inconsistência com que ela é invocada. Se as pernas dos homens fossem realmente tão desagradáveis de se ver, então seriam consideradas feias em todos os lugares — mas não são.

Não há razão para uma parte do corpo que parece perfeitamente aceitável em uma cervejaria ao ar livre ou em um churrasco na casa dos amigos, se torne subitamente grotesca no momento em que aparecem na frente uma mesa e um laptop.

Por fim, mesmo que bermudas fossem inerentemente feias, isso ainda não explicaria totalmente a regra, basta olhar as roupas (feias) usadas em trajes casuais nos escritórios.

Mas bermudas podem compor um traje estiloso. Que tal uma boa bermuda, mocassins e digamos, uma camisa de linho ou de algodão leve com as mangas dobradas?

Como tantas vezes acontece, uma regra que prende um dos sexos acaba deixando ambos em situação pior.

Como se espera que os homens usem calças compridas, os termostatos dos escritórios são ajustados para temperaturas irracionalmente frias no verão. As mulheres, vestidas de maneira sensata para o clima, com saias e blusas sem mangas, acabam tremendo o dia inteiro.

É um desperdício de energia e dinheiro que faz tanto sentido quanto proibir suéteres no inverno.

Os tempos mudam e os verões continuam ficando mais quentes. Em abril passado, enquanto a guerra entre Estados Unidos e Irã fazia os preços da energia dispararem, a governadora de Tóquio, Yuriko Koike, anunciou que funcionários públicos poderiam usar bermudas no escritório.

Há cada vez menos camadas para tirar, e as pessoas agora chegaram às bermudas”, explicou ela a repórteres”

A Copa do Mundo deste ano é a primeira a exigir uma pausa para hidratação dos jogadores no meio de cada tempo. Eles também podem usar bermudas no trabalho :)

As bermudas parecem destinadas a um dia se juntar aos tênis e aos jeans como traje aceitável nos escritórios.

Em uma pesquisa de 2023 do The Wall Street Journal, a opinião de que bermudas nunca são aceitáveis em um ambiente de escritório, recebeu apoio majoritário de apenas um grupo: pessoas com 58 anos ou mais.

Hoje, os baby boomers estāo no topo da hierarquia dos escritorios, são os chefes dos locais de trabalho, mas não serão para sempre.

Setenta e cinco por cento dos millennials disseram que “às vezes pode ser apropriado” um homem usar bermuda no escritório”. Em algum momento, o joelho masculino será libertado. Quando isso acontecer, será difícil lembrar por que alguém teve tanto medo dele.

Credito de Imagem: www.deluccaclassico.com.br

A bermuda e os fundos de pensāo

A resistência histórica ao uso de bermudas nos escritórios é apenas uma metáfora aparentemente banal para algo muito maior:

A dificuldade das instituições em abandonar regras que já perderam sentido, mas continuam de pé por inércia, tradição ou medo do ridículo.

O mundo do trabalho mudou, os escritórios mudaram, o clima mudou, a tecnologia mudou — mas o joelho masculino continuou interditado em nome de uma ideia antiga de profissionalismo.

Com a previdência complementar ocorre algo parecido:

  • Os vínculos de trabalho se tornaram mais curtos, fragmentados e instáveis;

  • A demografia se transformou e a populaçāo envelheceu;

  • A carreira linear deixou de ser o eixo organizador da vida financeira;

  • Novas tecnologias passaram a permitir produtos mais baratos, personalizados e portáveis; e

  • Os ativos digitais surgiram como uma nova classe de investimento de longo prazo.

Ainda assim, o setor de fundos de pensão segue preso a desenhos de planos CD ultrapassados, a uma visão excessivamente patrimonialista da poupança e a uma lógica regulatória que olha mais para o retrovisor do que para o futuro.

Enquanto a bermuda no escritório pode ser apenas uma questão estética, a demora da previdência complementar em se adaptar às transformaçōes economicas e sociais tem consequências profundas.

A poupança do futuro não poderá mais ser pensada apenas como um cofrinho a ser aberto na distante a aposentadoria.

Terá que integrar objetivos de curto, médio e longo prazos, dialogar com novas formas de trabalho, usar tecnologia para reduzir custos e melhorar a experiência do participante, incorporar inovação no desenho dos planos e reconhecer que as novas gerações não aceitarão produtos financeiros com cara, linguagem e arquitetura do século passado.

Em algum momento, o joelho masculino será libertado nos escritórios.

A questāo mais importante é saber se os fundos de pensão também conseguirão libertar a própria imaginação — antes que os participantes encontrem, do lado de fora deles, soluções mais simples, mais baratas, mais flexíveis e mais alinhadas ao mundo em que estamos vivendo.

Grande abraço,

Eder.


Opinioes: Todas minhas. Fonte: “The Least Logical Fashion Rule”, escrito por Gilad Eldeman


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