De São Paulo, SP.
Há mais de 10 anos
dicionários de língua inglesa como o Merriam-Webster
e o Oxford Dictionary of English, mantem
a tradição de eleger a “palavra do ano”.
Associações ligadas às línguas e à
escrita cultivam tradições semelhantes mundo afora.
Obviamente, estava na
hora de surgir uma iniciativa equivalente no campo dos números. Foi assim que,
em 2017, pela primeira vez em sua história, a Real Sociedade Estatística da Grã-Bretanha convidou seus membros e
o público em geral para elegerem sua estatística favorita.
A “estatística do ano”, a
que recebeu mais votos, foi uma que indicava a percentagem de terra no Reino
Unido, ocupada por áreas densamente povoadas.
Essas áreas, também
conhecidas pelo termo “fábricas urbanas contínuas”, são aquelas ocupadas por
prédios, casas e construções.
Mesmo que você nunca
tenha visitado o Reino Unido, nem jamais tenha ouvido falar desse tipo de
estatística, tente dar um chute sobre essa percentagem.
Se quiser algo mais
próximo, tente chutar o percentual do território brasileiro ocupado por áreas
urbanizadas (as respostas poderão ser encontradas mais abaixo nesse artigo).
Chutes não tão “calibrados”
O que causou surpresa na estatística do ano vencedora, na eleição
do Reino Unido (e provavelmente foi o que a fez ser mais votada), foi ser tão
diferente daquilo que a maioria das pessoas imaginava sobre o assunto.
As pessoas podem ser
totalmente ignorantes a respeito da altura da maior montanha de Marte, da
extensão do Rio Nilo ou da produção diária de petróleo cru, a menos que tenham
um interesse especifico nesses assuntos.
Porém, esperava-se que as
pessoas que vivem no Reino Unido fossem capazes de adivinhar a resposta correta
com razoável assertividade. Talvez com um fator de diferença máxima de 2 ou 3
vezes entre suas opiniões e a resposta certa. O mesmo provavelmente se
aplicaria aqui no Brasil e em outros países.
Os chutes calibrados são uma combinação intrigante de fatos e crenças
e de certo modo, são uma mistura entre nossos dois modos de pensar tão bem descritos
por Daniel Kahneman em seu “best seller“ (Rápido e Devagar – Duas Formas de
Pensar).
O modo rápido e impulsivo
de pensar, o Sistema 1 do cérebro, explora nossos sentimentos e impressões e o
modo devagar e lógico, o Sistema 2, ganha tempo para pensar racionalmente e considerar
todos os fatores.
Algumas vezes não
raciocinamos muito e o processo de adivinhar (o famoso “chute calibrado”) resulta
do Sistema 1 que é dominado por heurística e crenças, sem nos darmos conta de
que é isso que está acontecendo.
Nota:
Heurística = processos cognitivos empregados em decisões não racionais, definidas
como estratégias que ignoram parte da informação com o objetivo de tornar a
escolha mais fácil e rápida.
No caso da estatística
acima, o chute foi influenciado pelo fato de 83% das pessoas no Reino Unido
viverem em aglomerados urbanos. Para piorar, muitos que não vivem nas cidades,
trabalham nelas. Muito parecido com o que acontece no Brasil. Ou seja, áreas
construídas são marcantes em nossa experiência, assim como na deles.
Até visitamos o interior ou
ocasionalmente percebemos quão pequeninas são as cidades vistas do alto, quando
viajamos de avião. Ficamos surpresos com aqueles pontinhos em que se resumem as
cidades e a imensidão de espaço vazio entre uma e outra.
Mesmo assim, a imagem
prevalente em nossas mentes é dominada por tijolos, concreto, estradas e
edifícios e isso “calibra” nosso chute mais do que qualquer raciocínio lógico.
Kahneman chama isso de “Tudo
que existe é o que você vê” (em inglês: WYSIATI – What You See Is All There Is).
Reflete nossa tendência a sermos influenciados mais fortemente pelo que sabemos e está ligado aos diversos
vieses cognitivos descritos a seguir.
Disponibilidade heurística: o atalho mental que ativa os conceitos trazidos
mais facilmente às nossas mentes. Por exemplo, quando pensamos sobre um cisne,
a maioria das pessoas imagina um cisne branco, simplesmente porque essa é a
única cor de cisne que quase todo mundo vê.
Negligência do cenário básico: faz muitos acreditarem na força da fé para curar
doenças ou outras intervenções que não tem nenhuma base científica. Quando não
sabemos qual a chance de que uma determinada condição melhore sem qualquer
intervenção humana, é tentador acreditar que tal melhoria é resultado de reza
brava, milagre, ação santificada ou da mão divina.
Viés de confirmação: reforça o efeito - “Tudo que existe é o que você
vê”, porque nos faz ver (e até procurar) o que acreditamos ser a resposta
correta.
Viés do excesso de confiança: faz com que nos tornemos excessivamente confiantes
de que o que enxergamos é tudo que existe.
Por falar nisso, a
percentagem da área densamente construída no Reino Unido é de 0,13%, o equivalente
a 320 km2. No Brasil a área urbanizada é de meros 0,63% de todo o
território do país. Seu chute chegou perto?
Percepções Perigosas
O efeito que nos faz
errar nas avaliações não está limitado somente àquilo que enxergamos
fisicamente. Esse efeito pode ser estendido facilmente para “Tudo que existe é
aquilo que acreditamos existir”.
A empresa de pesquisas IPSOS MORI conduz regularmente um estudo
chamado “Perigos da Percepção”. O estudo entrevista pessoas de diversos países
buscando entender suas percepções sobre determinados parâmetros sociais, como a
incidência de gravidez na adolescência ou crença em céu e inferno.
Na versão de 2017 desse
estudo, os entrevistados tinham que dizer em qual país acreditavam haver maior
consumo de álcool. A Rússia surgiu no topo da lista (quando na verdade está
apenas na sétima posição).
O resultado não tem nada
a ver com os russos bêbados, com uma garrafa de vodca na mão, que vemos na TV
comemorando o sucesso (até aqui) na Copa do Mundo, mas sim porque nos baseamos
numa informação que simplesmente não é verificada.
Meros 4% dos respondentes
colocam o verdadeiro campeão de consumo de álcool (a Bélgica) nas três
primeiras posições. Até mesmo na Bélgica, apenas 5% dos respondentes
adivinharam habitar o país mais “bebum” do mundo.
Os estudos dos “Perigos
da Percepção” estão cheios desse tipo espetacular de erro de percepção. As
figuras abaixo mostram alguns exemplos intrigantes de chute nos quais as pessoas erram por margens consideráveis, muitas
vezes maiores do que uma ordem de magnitude.

Nota de atenção: Os
exemplos acima foram selecionados para sustentar os argumentos do artigo. “O
que você vê não é tudo que existe!”
Em resumo
Fazer uma estimativa ou
dar um chute calibrado, ainda que nos
pareça um processo bem embasado, nem sempre representa a resposta mais racional
possível, porque não dispomos de todos os fatos relevantes toda vez que tomamos
uma decisão e nossa capacidade de raciocínio é limitada.
“Tudo que existe é o que
você vê”, envolve muito menos raciocínio e muito mais conclusões apressadas.
Nós superestimamos a relevância daquela fração de informação que temos
disponível e a usamos para generalizar. Fazemos isso imbuídos da maior convicção.
No exemplo da percentagem
de terra ocupada no Brasil, não é que a gente desconheça as vastas áreas de
espaço desocupado entre São Paulo e Manaus. É que passamos nossas vidas nas
cidades, entre construções de prédios e casas e isso nos contamina.
A natureza perniciosa do “Tudo
que existe é o que você vê” é precisamente o fato de não raciocinarmos. Uma
antiga história ilustra bem como pulamos apressadamente para conclusões:
Um pai e um filho sofrem um terrível acidente e o
pai morre. O filho é levado correndo para um hospital. Quando está prestes a
ser operado, o cirurgião exclama: “Não posso operar - esse garoto é meu filho!”
Como pode isso?
Da mesma forma que
assumimos que todos os cisnes são brancos porque é isso que mais vemos, nós tendemos
a pensar que os cirurgiões são todos homens, porque a maioria dos cirurgiões
que conhecemos ou ouvimos falar são do sexo masculino. Você, por um momento,
imaginou que o cirurgião pudesse ser a mãe do menino?
“Tudo que existe é o que
você vê” distorce inconscientemente nossa percepção e reforça nossos
estereótipos.
Claro que nunca
conseguimos ver tudo e sempre vai existir um monte de coisas que estão fora do
nosso campo de visão, coisas de que não lembramos ou coisas que contrariam
nosso conhecimento.
O que podemos fazer é
sempre nos lembrar de que temos uma perspectiva limitada do mundo a nossa volta
– especialmente quando nos sentirmos confiantes demais em nosso julgamento.
Se tivermos ciência do nosso viés cognitivo do “Tudo que existe é o que nós vemos”, então já estaremos enxergando um pouco
mais.
Poupe para a aposentadoria, seu futuro está além
daquilo que você consegue enxergar hoje! “Nem tudo que existe é o que nós
vemos”.
Grande abraço,
Eder.
Fonte:
Adaptado do artigo “All there is” escrito por Koen Smets
Crédito de Imagem: Adobe Stock