De Sāo Paulo, SP.
O sistema de previdência complementar corporativo se acostumou a pensar o futuro com uma lógica quase industrial: emprego relativamente estável, carreira linear, vínculo duradouro com o empregador, comunicação formal, confiança institucional e uma boa dose de paciência.
Uma nova pesquisa da Morning Consult sobre a Geração Z mostra que esse desenho está ficando cada vez mais distante da realidade.
A Gen Z está amadurecendo, sim. Já não dá mais para tratá-la como uma geração de adolescentes, eternamente em fase de testes:
A parcela de casados subiu de 9% para 15%;
O emprego em tempo integral foi de 64% para 72%;
A responsabilidade financeira dentro do domicílio avançou de 58% para 71%; e
a fatia de estudantes caiu de 25% para 16%.
Em outras palavras, a Gen Z entrou na vida adulta, só que entrou do seu próprio jeito e é justamente aí que começam os problemas para os fundos de pensão.
A pesquisa mostra que, embora mais adulta, a Gen Z continua sendo a geração mais móvel, mais fluida e mais desconfiada dentre todas as demais.
Eles ainda mudam mais de emprego, mudam mais de casa, procuram mais por trabalho e permanecem fortemente inclinados à novidades, sāo impulsivos, adoram status e curtem as tendências.
Um terço dos jovens ainda está procurando emprego ativamente, percentual bem acima do total da população. Ao mesmo tempo, 52% seguem morando de aluguel, praticamente sem mudança relevante desde 2021, referendando a impressāo de que comprar a cada propria está cada vez mais dificil.
Traduzindo para o português claro do mundo da poupança de longo prazo, está a parte que deveria tirar o sono de quem atua com previdência complementar!:
A Gen Z se importa com o futuro, mas não quer um futuro empacotado num modelo rígido, lento, institucional demais e desenhado para uma vida profissional que já não existe mais.
A pesquisa mostra uma geração mais confiante e mais ambiciosa. A parcela dos que dizem sentir controle sobre o próprio futuro subiu de 61% para 67% e o senso de identidade também cresceu bastante.
Isso sugere uma geração menos disposta a terceirizar cegamente suas decisões financeiras para instituições opacas, paternalistas ou excessivamente burocráticas.
Em tese, isso poderia ser uma ótima notícia para os fundos de pensão. Afinal, uma geração que pensa no futuro, estabelece metas e quer ganhar autonomia deveria se interessar por instrumentos de acumulação de longo prazo.
Mas há uma diferença importante entre “querer construir o futuro” e “querer fazer isso do jeito e com as soluçōes que os fundos de pensāo oferecem”. A Gen Z parece valorizar controle, velocidade, transparência, experiência e aderência ao seu estilo de vida.
A própria pesquisa mostra que ela continua superando as demais geraçōes em impulsividade, busca por status, perseguição de tendências e adoção de novas tecnologias.
Também segue hiperconectada, com forte presença no TikTok, YouTube, Instagram e ambientes digitais onde vídeo, interação, descoberta e comunidade importam muito mais do que relatorios anuais bonitos, regulamentos e palestras em PowerPoint.
Agora imagine o choque de mundos.
De um lado, fundos de pensão ainda operando com linguagem pesada, jornadas lentas, baixa portabilidade subjetiva, pouca sensação de controle individual, pouca personalização e carteiras que muitas vezes parecem montadas para agradar reguladores e comitês, não para engajar participantes.
Do outro, uma geração acostumada a abrir conta em minutos, mover dinheiro em tempo real, acompanhar tudo pelo celular, consumir informação em vídeo, comparar alternativas em comunidades e testar soluções novas antes que o “mercado tradicional” termine de marcar a reunião preparatória da reunião.
Não é difícil inferir, portanto, como a Gen Z tenderia a enxergar o contraste entre fundos de pensão e alternativas modernas de poupança, inclusive estratégias de poupança e investimento associadas à ativos digitais e ao universo crypto.
Na cabeça de boa parte dessa geração, o fundo de pensão corre o risco de parecer uma espécie de “caixa-preta”:
promete segurança;
fala em longo prazo;
usa linguagem respeitável;
mas oferece pouco senso de autonomia,
pouco protagonismo individual; e
baixa conexão com a lógica digital de propriedade e acompanhamento em tempo real.
Já alternativas como cryptoativos, staking, plataformas digitais de investimento e carteiras com experiência mobile tendem a transmitir exatamente o oposto:
acesso direto;
visibilidade;
sensação de controle;
pertencimento a uma comunidade;
linguagem mais próxima e sobretudo;
a impressão de que o dinheiro continua sendo “meu”, o tempo todo.
Isso não quer dizer que a Gen Z seja, automaticamente, nem avessa ao risco nem, ao contrário, irresponsavelmente apaixonada por risco.
Quer dizer algo mais interessante: ela parece preferir risco visível a segurança opaca e isso, para os fundos de pensão, é uma provocação séria.
O setor está acostumado a dizer: “nós somos a solução prudente”, ao que a Gen Z talvez responda: “prudente para quem, exatamente e com qual grau de transparência, flexibilidade e autonomia?”
Outro ponto importante da pesquisa é que a relação da Gen Z com marcas e instituições é caracterizada por desconfiança.
O dado é brutal: 97% das marcas analisadas têm nível de confiança menor junto à Gen Z do que junto ao conjunto dos adultos.
Se isso vale para marcas de consumo, imagine para instituições financeiras, previdenciárias e reguladas, que já largam em desvantagem por parecerem distantes, complicadas e muitas vezes, pouco sexy.
Em outras palavras:
o fundo de pensão não concorre apenas com outros produtos financeiros, concorre com um déficit estrutural de confiança.
E ainda concorre com um segundo problema: os fundos de pensāo foram construídos em torno de um mercado de trabalho que está se desfazendo.
Sobretudo em sua lógica histórica, os planos de previdencia complementar corporativos funcionam melhor quando existe:
estabilidade de vínculo empregaticio;
previsibilidade de renda;
permanência no emprego;
identidade corporativa forte; e
horizonte longo dentro de uma mesma organização.
Só que a Gen Z está entrando no mercado com trajetórias profissionais mais fragmentadas, mais híbridas, mais móveis e menos obedientes à ideia de carreira única.
A pesquisa mostra exatamente isso ao destacar maior mobilidade profissional, maior procura ativa por novas oportunidades e uma transição para a vida adulta que não significa, de forma alguma, acomodação.
Esse descasamento é central.
O problema não é apenas convencer a Gen Z a poupar, o problema é que o veículo tradicional de poupança previdenciária foi desenhado para uma trajetória profissional que está ficando velha antes mesmo de alguns participantes envelhecerem.
Por isso, a pergunta correta não é: “como fazer a Gen Z gostar mais dos fundos de pensão?” A pergunta certa é: “o que os fundos de pensão precisam fazer para não parecer um DVD riscado na era do streaming?”
Olhando os dados da pesquisa, a Gen Z até reúne várias características que poderiam favorecer a poupança previdenciária:
está formando família;
assumindo as contas;
trabalhando mais;
ganhando mais do que antes; e
pensando mais seriamente no futuro.
O desafio é que a Gen Z quer soluções compatíveis com sua lógica de vida: soluçōes digitais, flexíveis, transparentes, portáteis, com linguagem simples e sensação concreta de comando.
Isso exige dos fundos de pensāo:
mudanças profundas;
comunicação em linguagem humana, não em dialeto de regulamento;
experiência digital de verdade, não portal com cara de repartição online;
portabilidade fluida, personalização;
opções mais aderentes à perfis distintos de risco e retorno;
educação financeira pensada para vídeo, comunidade e jornadas curtas de atenção.
Exige, acima de tudo, abandonar a fantasia de que o jovem rejeita previdência porque “não pensa no futuro”. A pesquisa sugere o contrário.
A Gen Z pensa, sim, no futuro. Talvez até mais do que muita gente imagina. O que ela não aceita tão facilmente é a ideia de entregar esse futuro a estruturas que parecem pertencer ao passado …
Há ainda um detalhe saborosamente irônico.
A Gen Z é apresentada como impulsiva, trend-chaser e atraída por novidade. O setor previdenciário, que costuma ler isso como defeito, talvez devesse ler também como alerta estratégico.
Num mundo em que novas tecnologias financeiras, tokenização de ativos, carteiras digitais edinheiro programável vão se tornando parte da paisagem, insistir apenas no modelo tradicional de previdencia complementar pode fazer com que os fundos de pensão não pareçam prudentes, mas simplesmente lentos demais.
No fim das contas, o embate não é entre Gen Z e previdência complementar corporativa. O embate é entre uma nova geração de poupadores e um velho design de poupança institucional.
A Gen Z não está necessariamente dizendo “não quero me preparar para o futuro”. Ela pode estar dizendo algo bem mais desconfortável para o setor:
“Quero, sim. Mas não desse jeito.”
Grande abraço,
Eder.
Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “The State of Gen Z - A Generation in Transition”, Morning Consult.
Disclaimer: Esse artigo foi escrito com uso de IA, baseado em prompts do autor, em sua profunda experiencia profissional e nas informações das fontes citadas.


Nenhum comentário:
Postar um comentário