De Sāo Paulo, SP.
Existe uma tese circulando pela internet com o nome de “Dead Internet Theory”, que em traduçāo livre seria algo tipo “Teoria da Internet Morta”.
A ideia surgiu como uma teoria conspiratória, argumentando que boa parte da internet teria deixado de ser produzida e frequentada por seres humanos.
Bots criariam conteúdo para outros bots, algoritmos conversariam com algoritmos e nós bipedes vivos e pensantes, continuaríamos navegando por aquele ambiente sem perceber que, por trás da aparência de movimento, alguma coisa havia morrido.
Vinte anos atrás isso parecia maluquice, hoje, vai se tornando realidade.
Uma pesquisa mencionada pelo The Independent mostrou que:
Mais de um terço, 35% para ser preciso, das páginas publicadas desde o lançamento do ChatGPT apresentam sinais significativos de autoria ou edição por inteligência artificial;
Antes do surgimento do ChatGPT esse numero girava em torno de 10%;
O estudo analisou quase meio milhão de páginas em inglês publicadas nos últimos cinco anos.
A definição da Dead Internet Theory é justamente essa:
Uma internet progressivamente produzida e consumida por máquinas, em vez de seres humanos de carne e osso.
Isso nos remete a uma reflexāo interessante:
Será que vem acontecendo algo semelhante com os fundos de pensāo?
Em outras palavras, estamos vendo surgir diante de nossos olhos uma:
“Teoria do Fundo de Pensāo Morto”
Não estou dizendo que os fundos de pensão desaparecerão amanhã, da noite para o dia. Muito pelo contrário.
Eles poderão continuar por muitos e muitos anos, administrando centenas de bilhões de reais, pagando aposentadorias, realizando reuniões de conselhos, produzindo relatórios, contratando consultorias, fazendo congressos anuais e discutindo durante horas se determinada política de investimentos deveria ter 87 páginas ou 102.
Tudo funcionando perfeitamente. Aí que está o problema. A morte de uma instituição nem sempre acontece quando ela fecha as portas.
Acontece da mesma forma que no memorável diálogo entre dois personagens do famoso romance de Ernest Hemingway publicado em 1926, entitulado The Sun Also Rises (O Sol Também se Levanta).
No livro, Mike Campbell é um veterano escocês da Primeira Guerra Mundial que está constantemente bêbado e endividado. Quando o amigo Bill Gorton pergunta como ele perdeu todo o seu dinheiro, Mike responde de forma espirituosa e melancólica, explicando que a ruína financeira acontece aos poucos (com pequenas escolhas, contas acumuladas e falsos amigos) até que, num estalo, tudo desmorona de uma vez só:
Bill: “Como você faliu?”
Mike: “De duas maneiras: Gradualmente e entāo, de repente”
Credito de Imagem: www.amazon.com
A morte dos fundos de pensāo começa quando as pessoas que deveriam formar a próxima geração de poupadores, simplesmente deixam de entrar pela porta.
É aqui que a “Dead Internet Theory “ se encontra com a “Dead Pension Fund Theory”.
Uma enorme maquina conversando consigo mesma
Pense na morte da internet:
Conteúdo produzido por algoritmos;
Distribuído por algoritmos;
Otimizado para algoritmos;
Consumido por algoritmos.
Agora olhe para a previdência complementar fechada no Brasil e no mundo:
Temos reguladores falando com fundos de pensão;
Fundos de pensão falando com associações de fundos de pensão;
Consultores falando com fundos de pensão;
Fundos de pensão participando de congressos de fundos de pensão para discutir o futuro dos fundos de pensão.
Enquanto isso, do lado de fora dessa bolha, uma geração inteira de jovens está aprendendo a investir … pelo celular.
A pesquisa da FINRA Foundation com o CFA Institute já havia apontado algo interessante entre investidores da Geração Z nos Estados Unidos:
56% dos jovens possuíam algum investimento;
Entre os que investiam, cryptomoedas apareciam com enorme destaque;
82% haviam começado a investir antes dos 21 anos; e
Apps de investimento estavam entre suas formas preferidas de administrar e negociar seus recursos.
Ou seja,
O jovem não perdeu o interesse em investir, ele vem perdendo o interesse em investir do jeito que as instituições tradicionais esperam que ele invista.
Essa é uma mudança geracional gigantesca, que poucos perceberam estar acontecendo. Deveria alterar, radicalmente, tudo que vem sendo feito até aqui pelos fundos de pensāo:
O desafio centenário de atrair a atençāo dos jovens para a importância de começar a poupar desde cedo, para ter segurança financeira nas idades mais avancadas;
Cedeu lugar ao desafio de atrair os jovens para poupar usando fundos de pensāo e nāo de investir e poupar fora deles.
O jovem quer investir, só que nāo com você …
Desde o período que sucedeu a II Guerra Mundial, a previdência complementar corporativa funcionou dentro de uma lógica bastante simples.
Você entrava numa empresa;
A empresa tinha um fundo de pensão;
Você entrava no fundo;
Contribuía ao longo da carreira;
Alguém administrava seu patrimônio para você;
Esse mundo, que sustentava o modelo de previdencia complementar corporativa, está mudando e vai, lentamente, saindo de cena.
Hoje alguém com vinte e poucos anos consegue:
Abrir uma conta de investimentos e poupança pelo celular;
Comprar um ETF internacional;
Investir em ações de empresas japonesas;
Investir em títulos publicos Europeus,
Comprar cotas de fundos de investimentos asiaticos;
Aplicar em ativos digitais ou
Utilizar serviços automatizados de gestão,
Tudo isso, sem jamais entrar num fundo de pensāo ou pisar numa agência bancária.
Essa nāo é apenas uma mudança tecnológica é uma mudança de comportamento.
Em uma pesquisa recente, publicada agora mesmo em 2026, o CFA Institute encontrou forte envolvimento com ativos digital entre investidores mais jovens, de maior patrimônio e maior procura por personalização.
Mais da metade dos jovens com renda e patrimonio mais altos afirmou já ter tomado decisões de investimento motivadas por FOMO, particularmente diante de novas classes de ativos como crypto.
Nota: FOMO é a sigla em inglês para “Fear of Missing Out”, que significa o medo de ficar de fora ou de estar perdendo alguma experiência, evento ou informação importante que outras pessoas estão vivenciando
Isso tem riscos? Evidentemente:
FOMO não é política de investimentos;
TikTok não substitui educação financeira;
Cryptomoedas podem sofrer quedas brutais;
Autocustódia exige conhecimento e responsabilidade.
Contudo, seria um enorme erro estratégico olhar para esses riscos e concluir que o comportamento desaparecerá, que simplesmente deixará de existir no momento que o jovem tiver acesso a maior educaçāo financeira.
Talvez aconteça exatamente o contrário.
As plataformas vão melhorar;
A inteligência artificial vai melhorar;
Os robo-advisers vão melhorar;
A tokenização vai melhorar.
A experiência de investir vai ficar mais simples.
Resultado? O jovem que investe por conta propria, provavelmente, ficará cada vez mais confortável administrando a maior parte de seu patrimônio sozinho.
O fundo de pensāo nessa história
Enquanto o universo de opçōes de poupança e investimentos, disponível ao pequeno investidor, está ficando maior, o universo efetivamente utilizado por muitos fundos de pensão brasileiros parece estar ficando menor.
Um estudo da Ártica publicado em 2025 estimou que quase 90% dos recursos dos fundos de pensão brasileiros estavam investidos em títulos públicos. (Ártica)
Outra amostra, envolvendo 140 EFPC acompanhadas pela Aditus, apontou 92% dos ativos em renda fixa. (blog.abrapp.org.br)
Tudo bem, tudo certo, isso é perfeitamente compreensível porque, com os juros reais brasileiros nas alturas, comprar títulos públicos pode ser uma excelente decisão financeira.
Especialmente para planos do tipo BD, maduros, com passivos atuariais previsíveis, imunizar obrigações futuras faz todo sentido.
Portanto, esta não é uma discussão sobre títulos públicos serem bons ou ruins para determinados tipos de planos de previdencia complementar.
A discussāo é outra!
É uma discussão sobre o que acontece quando uma situaçāo conjuntural de mercado (juros altos) se transforma numa cultura institucional permanente.
Existe uma diferença enorme entre:
“Estou comprando títulos públicos porque esta é a melhor oportunidade ajustada ao risco, neste momento, para planos BD”
e
“Invisto em títulos públicos porque é isso que sei fazer, é isso que o ambiente institucional recompensa e é onde dificilmente alguém será criticado, mesmo que titulos publicos nāo entreguem o melhor retorno para planos CD.”
A primeira frase acima é gestão, a segunda, acomodação.
Um risco que o VaR nāo mostra
Imagine dois jovens de 25 anos de idade (pura Gen Z).
Um, abre o aplicativo e encontra ações americanas, ETFs globais, crédito privado, fundos imobiliários, ouro, estratégias quantitativas, private markets democratizados, ativos digitais e, cada vez mais, ativos do mundo real tokenizados.
O outro, entra no app do seu fundo de pensāo, acessa seu plano de previdência complementar e descobre que grande parte de seu dinheiro está, direta ou indiretamente, preso no financimento da dívida pública brasileira.
Qual dos dois jovens parece representar melhor o mundo financeiro no qual esse jovem viverá durante os próximos quarenta anos?
Essa é uma pergunta muito mais importante do que parece. O maior risco para os fundos de pensão NĀO está em suas carteiras de investimentos.
Está fora delas. Pode chamar esse risco de “Risco de Irrelevância”. Dificilmente você encontrará esse risco na matriz tradicional de riscos do relatório semestral de controles internos do conselho fiscal de um fundo de pensāo ...
A comunicaçāo que nāo é feita sobre rentabilidade
Os jovens acompanharam Bitcoin, empresas de tecnologia, inteligência artificial, ETFs temáticos e inúmeras outras classes de ativos e estratégias ativas de investimentos, produzindo períodos extraordinários de valorização.
Naturalmente, também levam tombos espetaculares, mas enxergam uma coisa que importa muito psicologicamente:
Possibilidade
O fundo de pensão que concentra seu portfólio de ivestimentos em títulos públicos, pode entregar um excelente retorno ajustado ao risco e cumprir perfeitamente seus objetivos.
Só que existe uma diferença entre cumprir meta e despertar interesse. Para alguém de 65 anos, previsibilidade pode ser a prioridade absoluta.
Para alguém de 23, com quatro décadas pela frente, não é.
Usar a mesma filosofia de investimento para ambos é como oferecer o mesmo cardápio do café da manhã, para quem está jantando.
A morte começa antes do último participante sair
Essa é a essência da “Dead Pension Fund Theory”.
Um fundo de pensão começa a morrer não quando paga seu último benefício. Ele começa a morrer quando deixa de ser considerado pelas novas gerações como um lugar natural para poupar e construir patrimônio ao longo da vida.
Primeiro, os jovens deixam de prestar atenção ao fundo de pensāo;
Depois, começam a investir, paralelamente, por meio de outras alternativas;
Entāo, os que estāo dentro passam a direcionar a poupança para fora do sistema;
Por fim, quando conquistam liberdade de escolha, deixam de entrar.
O patrimônio do fundo pode continuar, vegetativamente, crescendo durante algum tempo:
As contribuições vāo se reduzindo a cada ano, mas continuam pingando;
Os benefícios continuam sendo pagos mensalmente;
Belos relatórios anuais continuam sendo publicados;
Os indicadores continuam verdes e as metas atingidas.
Tudo isso, torna o processo difícil de enxergar.
“As instituições podem parecer perfeitamente saudáveis durante muito tempo depois de terem perdedido relevância.
A Internet continua vibrante, movimentadissima, cheia de páginas publicadas a cada segundo, mas por trás disso tudo está acontecendo, silenciosamente, de modo imperceptível, o que foi apontado há algum tempo pela Dead Internet Theory.
Os fundos de pensāo continuam saudáveis, financeiramente solventes, pagando bilhōes de $$$ em beneficios, com patrimonios que aumentam ano após ano, mas por trás vai se desenrolando o preconizado pela Dead Pension Fund.
O Paradoxo dos 90%
Chegamos, finalmente, ao paradoxo.
Quanto mais confortável for para um fundo de pensão obter sua meta simplesmente comprando títulos públicos, menor será seu incentivo institucional para desenvolver competências em outras classes de ativos.
Investir praticamente todo o patrimonio em titulos publicos, tem como consequencia:
Equipes menos especializadas;
Menor exposiçāo a mercados internacionais;
Estratégias de investimentos, eminentemente, passivas;
Menos ativos alternativos no patrimônio;
Menos experimentação, que gera aprendizado;
Baixa inovação.
Visāo de curto prazo
Até que, um dia, os juros mudam ou, algo ainda mais importante acontece:
Constata-se que quem mudou foi o participante, muito tempo atrás
No dia que isso acontecer, o problema não será simplesmente buscar investimentos melhores, atrair novos profissionais de investimentos, mudar estrategias de alocaçāo .
O problema será convencer uma geração de jovens acostumada a administrar sua vida financeira pelo celular, com conhecimento adquirido com educaçāo financeira, de que vale a pena entregar o dinheiro dela por trinta, quarenta anos, para uma instituição que passou décadas nāo investindo justamente nos mercados, tecnologias e produtos que ela aprendeu a utilizar.
Nāo confundir sobrevivência com sustentabilidade
Os fundos de pensão brasileiros administram um patrimônio gigantesco. A Previc informou recentemente que o sistema possui cerca de R$ 1,4 trilhão em ativos. (Revista Investidor Institucional)
Portanto, ninguém vai fechar as portas amanhã.
A Kodak também continuou vendendo filmes depois da invenção da câmera digital. Em 1975 Steven Sasson criou o primeiro protótipo de câmera digital dentro dos laboratórios da Kodak. A diretoria decidiu engavetar o projeto comercial por medo de que a nova tecnologia destruísse o lucrativo mercado de rolos de filme e produtos químicos. Até que em 2012, sufocada por dívidas e atrasada na transição digital, a Eastman Kodak declarou falência.
Jornais continuaram imprimindo milhões de exemplares em papel depois do nascimento da Internet.
Táxis continuaram circulando depois que os primeiros aplicativos iguais ao Uber apareceram.
Bancos continuaram mantendo agências fisicas mesmo depois que os bancos passaram a caber dentro do celular.
Disrupturas raramente começam com o desaparecimento repentino dos incumbentes.
Começam quando surge uma alternativa que parece pequena, imperfeita e até irresponsável aos olhos de quem domina o mercado.
Até deixar de ser pequena.
Se um jovem de 20 anos pudesse escolher livremente hoje onde construir seu patrimônio para os próximos 50 anos, ele escolheria a gente (um fundo de pensāo)?
Se a resposta for “não”, talvez minha “Dead Pension Fund Theory” já tenha começado e esteja em movimento.
Como aconteceu com a “Dead Internet Theory”, quando percebermos isso, será tarde demais.
Grande abraço,
Eder.
Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “More than a third of the internet is now being written with AI, study suggests”, escrito por Andrew Griffin
Disclaimer: Esse artigo foi escrito com uso de IA, baseado em prompts do autor, em sua profunda experiencia profissional e nas informações das fontes citadas.




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