segunda-feira, 29 de junho de 2026

QUE O TRABALHO MUDOU, NÓS SABEMOS, MAS OS FUNDOS DE PENSĀO MUDARĀO A TEMPO?

 


De Sāo Paulo, SP.


Tanto na ciência quanto na história, trabalho é uma ferramenta definitiva de modificação do estado das coisas.

Na física, trabalho (T) é uma grandeza que mede a transferência de energia para um corpo através da aplicação de uma força, que gera um deslocamento (a formula basica é T = F x D). O conceito é puramente vetorial e mecânico. A força precisa ter direção e sentido úteis para gerar deslocamento. Se você empurrar uma parede até cansar e ela não se mover, o trabalho na física é zero, não importando o seu esforço.

Na história, o trabalho humano, potencializado pelas máquinas a vapor, tinha como foco a transformação brutal da matéria-prima em produtos. O trabalhador na industria aplicava uma força real e exaustiva, mas perdeu o propósito subjetivo daquilo que produzia. Segundo a teoria da alienação de Karl Marx, o operário não era mais dono do processo e nem do produto final; seu único propósito imediato passou a ser a subsistência através do salário. Ele vendeu a sua capacidade física de gerar energia (trabalho), quantificada em horas, para que o sistema industrial a canalizasse em lucro.

Na etmologia, a palavra trabalho deriva do latim tripalium ou tripalus, uma ferramenta de três pernas que imobilizava animais de traçāo (cavalos e bois) para colocar ferradura. Curiosamente, era também o nome de um instrumento de tortura usado contra escravos e presos, que originou o verbo tripaliare cujo primeiro significado era “torturar”. Nesse sentido insere-se também a antiga tradição bíblica do trabalho como castigo, ao condenar o homem comum expulso do paraiso (Adāo) à labuta para ganhar o pão de cada dia (”tu comerás o teu pão, no suor do teu rosto”).

O sistema de previdência complementar foi construído sobre uma premissa aparentemente sólida de trabalho.

Era uma linha reta: escola-emprego-carreira-aposentadoria. Esse modelo fez sentido por mais de um seculo, enquanto o trabalho também seguia uma linha reta.

Mas essa linha se quebrou.

O setor de previdência complementar já percebeu que há uma transformação em curso naquilo que, por força do hábito, ainda chamamos de “trabalho”.

Porém, nāo percebeu o suficiente!

Notar que o trabalho está mudando é apenas o primeiro passo. O passo realmente importante para o setor de fundos de pensāo é entender para onde essa mudança está levando o trabalho, o emprego, a renda, a contribuição previdenciária e a própria ideia de segurança financeira.

Os fundos de pensão nasceram em um mundo industrial, um mundo em que o trabalho era medido por unidade de tempo.

O empregado vendia horas de trabalho, a empresa comprava essas horas, o salário remunerava essas horas e a previdência era calculada sobre esse salário. A segurança financeira futura era financiada por uma relação relativamente estável entre empregado, empregador e planos de benefícios de fundos de pensāo.

Credito de Imagem: GettyImages


Essa arquitetura funcionava porque havia uma espécie de “física planetária do trabalho” embutida.

  • O emprego era o centro em torno do qual tudo gravitava.

  • A carreira era a órbita.

  • A empresa era o planeta.

  • A aposentadoria era o destino final.

A tecnologia não mudou apenas as ferramentas usadas no trabalho, ela mudou essa física inteira. As pessoas não vivem mais de um único emprego e muitas nem vivem de emprego, vivem de:

  • Projetos

  • Plataformas

  • Contratos

  • Consultorias,

  • Venda de conteúdo,

  • Comunidades,

  • Marcas pessoais,

  • Produtos digitais,

  • Renda de investimentos,

  • Participação em negócios,

  • Atividades paralelas e

  • Combinações que ainda nem sabemos nomear direito.

A carreira, como conceito, está desaparecendo e é aqui que os fundos de pensão precisam prestar atenção.

O setor pode até ter percebido que o futuro do trabalho está mudando, mas isso, sozinho, não assegura o futuro dos próprios fundos de pensão. Pelo contrário: pode apenas transformá-los em espectadores bem informados do próprio ocaso.

O desafio é redesenhar produtos, serviços e modelos de negocios para um mundo em que o trabalho é fragmentado, digital, instável, autônomo e na maioria dos casos, independente de um emprego formal.

Como fica a previdência complementar nesse mundo?

  • Se a renda do futuro será mais irregular, os planos precisam aceitar e ter sistemas para receber contribuições intermitentes;

  • Se o vínculo empregatício é mais curto, o saldo acumulado precisa ser portátil de verdade e acompanhar automatiamente o participante para onde ele for.

  • Se as pessoas terão múltiplas fontes de renda, o plano precisa receber contribuiçōes mensais não (apenas) de salários, mas de fontes variadas de recolhimento, tipo, % de gastos com cartōes, aluguéis, honorários PJ, debito em conta-corrente etc.

  • Se a educação financeira tradicional não engaja, o setor precisa estar nas plataformas tipo TikTok onde as pessoas realmente estão no dia-a-dia.

  • Se a vida será menos linear, os produtos precisam deixar de ser lineares.

Não basta oferecer acumulação para uma aposentadoria aos 65 anos, será preciso oferecer segurança financeira ao longo de toda a vida:

  1. Seja entre momentos de perda de renda: a pessoa fica sem trabalho;

  2. Seja diante dos riscos: invalidez, morte, longevidade;

  3. Seja em situaçōes de emergência: gastos inesperados com saúde, acidentes, despesas com a casa ….

Isso significa criar soluções para pausas de carreira, transições profissionais, períodos de renda baixa ou nula, requalificação, empreendedorismo, desacumulação parcial, proteção contra longevidade, renda complementar temporária, fundos de emergência e orientação financeira personalizada.

Credito de Imagem: Shutterstock


Em outras palavras:

Os fundos de pensão precisam sair da lógica de “guardar dinheiro para o fim da vida” e entrar na lógica de “entregar segurança financeira para uma vida imprevisível”

A previdência complementar brasileira tem uma oportunidade enorme, mas essa oportunidade não está em ajustar o modelo antigo. Está em redesenhar o modelo, criar um modelo novo, antes que outros fora do setor de fundos de pensāo façam isso.

Neobanks digitais, fintechs, plataformas de investimento, seguradoras, big techs, exchanges, carteiras digitais e agentes de inteligência artificial já estão disputando a atenção financeira das novas gerações.

Eles não precisam pedir licença ao sistema de previdência complementar para oferecer soluções de longo prazo para os consumidores.

Eles aparecem no celular, falam a linguagem do usuário e entregam conveniência.

Se o sistema de previdência complementar quiser continuar relevante, precisará entender que:

  • O produto previdenciário do futuro não será apenas um plano de acumulaçāo de capital seguido de desacumulaçāo, na forma de renda contínua.

  • Será uma plataforma, que entrega segurança financeira ao longo da vida, de toda ela, que dá suprte no curto, nomedio e no longo prazo.

Uma plataforma:

  1. Que acompanha a pessoa ao longo de toda a vida e conversa com suas fontes de renda reais hoje, amanhā e depois;

  2. Que permite contribuições pequenas ou grandes, variáveis e automáticas;

  3. Que aceita múltiplos vínculos de trabalho, proprio ou emprego.

  4. Que ofereça orientação em tempo real, digital, rápida e facil de acessar, de qualquer lugar e a qualquer hora;

  5. Que use IA para orientar, educar e ajudar nas decisões;

  6. Que permita transições entre acumulação permanente e desacumulação temporária ou permanente;

  7. Que proteja contra os riscos de longevidade, mas também contra os riscos de uma vida profissional instável.

O fundo de pensão do futuro não será um lugar para onde o trabalhador manda contribuiçōes mensais, mas sim um lugar que organiza sua vida financeira.

Aqui no TECONTEI estamos apenas antecipando o caminho. O trabalho deixou de ser linear, a carreira deixou de ser previsível e a aposentadoria deixou de ser um evento isolado no final da vida.

A separaçāo entre aposentadoria e vida ativa, simplesmente, nāo existe mais.

O trabalho nāo vai desaparecer, mas nunca mais será o mesmo e os fundos de pensão desaparecerāo se ficarem ancorados no antigo conceito.

Grande abraço,

Eder.


Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “Careers Are Collapsing. Jobs Are Dying. The Smartest People Are Doing This Right Now”, escrito por Thomas Oppong.

Disclaimer: Esse artigo foi escrito com uso de IA, baseado em prompts do autor, em sua profunda experiencia profissional e nas informações das fontes citadas.


MERCADO DE ANUIDADES: VAI SE PERDENDO O BONDE DA HISTÓRIA, OUTRA VEZ ...

 


De Sāo Paulo, SP.


As sondagens de seguradoras para compra de anuidades por pessoas acima de 75 anos, mais do que quadruplicou desde 2024 no Reino Unido.

Anuidade - também chamada de renda vitalícia ou anuidade de seguros - é um contrato financeiro em que você entrega um capital acumulado para uma seguradora e em troca, ela garante o pagamento de uma renda mensal regular por toda a sua vida. O produto, inexistente no Brasil, foi desenhado especificamente para eliminar o risco de longevidade, ou seja, o medo de se viver mais do que o seu dinheiro durar.

De acordo com a seguradora britânica Standard Life, os pedidos de proposta por clientes com mais de 75 anos aumentou de 1,3% para 5,5% no acumulado até 2026.

O interesse, informa a seguradora da Terra de Sua Majestade, surge impulsionado por uma combinaçāo de fatores.

Um dos fatores sendo a atratividade dos preços das anuidades e outro a certeza oferecida pelo produto, que paga renda vitalícia, i.e., até o participante morrer.

A Standard Life estima um aumento de 39% na demanda pela compra de anuidades por indicaçāo de planejadores financeiros.

Essa maior demanda também tem a ver com um aumento na tributaçāo de saldos de previdencia complementar deixados como herança (IHT - Inheritance Tax), no Reino Unido, a valer a partir de abril de 2027.

Mas o ponto aqui nem é esse.

De acordo com o Head de Annuities da Standard Life, Pete Cowel:

As taxas de juros (das annuities) estão atualmente em níveis historicamente altos, atingindo os maiores patamares desde maio, depois da aprovaçāo de uma nova lei de previdência complementar. (no Reino Unido).

Vai de perdendo o bonde … de novo

O Brasil vive, neste momento, uma daquelas janelas raras que aparecem poucas vezes na história financeira dos países mais desenvolvidos.

  • Juros elevados;

  • População envelhecendo;

  • Planos de contribuição definida amadurecendo;

  • Trabalhadores chegando à aposentadoria com saldos acumulados

Nessa conjunçāo de fatores, faz mais sentido do que nunca uma pergunta angustiante: “como transformar poupança em renda segura, que dure pelo resto da vida”?

Essa é uma questāo que deveria estar no centro da agenda pública, regulatória e estratégica do setor de previdência complementar e de seguros.

Mas não está!

Juros altos, que tantos problemas causam à economia, têm pelo menos uma virtude quando se trata de previdencia:

Eles ajudam a tornar viáveis produtos de renda vitalícia (anuidades). Quanto maior a taxa de juros usada para precificar uma anuidade, maior tende a ser a renda mensal que pode ser oferecida ao participante aposentado

Em outras palavras, agora seria justamente o momento ideal para o Brasil idealizar, regular, testar e implantar em escala um verdadeiro mercado de anuidades.

Mas … o governo parece não ter percebido que esse bonde está passando.

Em vez de usar esta fase da economia para construir soluções capazes de proteger o aposentado contra o risco de viver mais do que o seu dinheiro, seguimos presos ao velho modelo:

  • poupadores acumulam recursos $$$;

  • fundos de pensão e seguradoras compram títulos públicos com retorno fácil;

  • o governo obtém financiamento garantido, liquido e certo.

Só que o participante, pobre participante, continua sozinho diante da pergunta mais difícil da fase de aposentadoria: quanto posso gastar sem correr o risco de ficar sem dinheiro?

É um arranjo confortável para o governo, cômodo para todos os gestores de investimentos dos fundos de pensāo, mas insuficiente para participantes e cidadãos.

No Reino Unido, a combinação entre juros mais altos, envelhecimento da população, mudanças tributárias e maior demanda por previsibilidade abre ainda mais espaço para as anuidades.

No Brasil, a mesma janela poderia estar sendo aproveitada pelas seguradoras para criarem produtos modernos, transparentes, flexíveis e adequados à nossa realidade:

  • anuidades vitalícias puras;

  • anuidades vitalicias reversíveis ao cônjuge;

  • anuidades parciais, combinadas com saques programados;

  • anuidades diferidas,

  • soluções híbridas de desacumulação;

  • produtos desenhados para diferentes faixas etárias e de renda.

Nada disso exige reinventar a roda, requer apenas reconhecer que o dever fiduciário da previdência complementar não se limita (nem termina) na acumulação.

A grande omissão brasileira está em tratar a aposentadoria como se o problema da seguranca financeira futura fosse apenas juntar dinheiro e fazer o saldo aumentar o maximo possível.

Não é!

O problema maior começa depois da aposentadoria: transformar patrimônio em renda, renda em segurança, segurança em dignidade e dignidade em liberdade.


Se o país perder mais essa oportunidade, não será por falta de condiçōes ideais de juros, de necessidade social ou de exemplos internacionais. Será por falta de visão …

Mais uma vez, o setor de previdência complementar e o mercado segurador terão assistido ao bonde da história passar diante de seus narizes — enquanto permaneciam sentados, confortavelmente, financiando o governo com a compra passiva de títulos públicos.

Grande abraço,

Eder.


Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “Annuity demand from over-75s quadruples in two years, escrito por Ellie Carric.

Disclaimer: Esse artigo foi escrito com uso de IA, baseado em prompts do autor, em sua profunda experiencia profissional e nas informações das fontes citadas.


ADESĀO AUTOMÁTICA: "NO REPLY" | "NĀO RESPONDA ESSE E-MAIL


 

De Sāo Paulo, SP.


O número de pessoas optando por cancelar a adesāo automática nos planos de previdência complementar dos fundos de pensāo do Reino Unido, atingiu a marca de 500.000 por ano.

É isso que mostram os dados do DWP - Department of Work and Pensions, responsável pelos planos de previdencia complementar corporativos da Terra de Sua Majestade.

Uma firma de gestāo de investimentos, a Lubbock Fine Wealth Management, analisou os dados públicos disponíveis. Os dados mais recentes, do final de 2023, mostram que:

158.000 participantes, o equivalente a 9,3% do total de pessoas que foram incluidas pela adesāo automatica em planos de previdência complementar corporativos e pediram para sair, sāo de jovens abaixo de 30 anos de idade.

Outros 139.000 participantes, equivalentes a 9,4% dos que pediram para sair dos respectivos planos de previdencia ao longo do ano de 2023, sāo pessoas de 30 a 40 anos.

Andrew Tricker, um dos planejadores financeiros certificados da Lubbock, disse ser “uma vedadeira preocupaçāo o fato de tantos jovens estarem optando por nāo permanecer nos planos de previdência complementar dos fundos de pensāo”.

A matematica mostra que, se você quiser formar uma poupança razoavel para ter segurança financeira na aposentadoria, é preciso começar o mais cedo possivel.

Além disso, ao abrir māo de participar do fundo de pensāo da empresa onde trabalham, os jovens estāo perdendo $$$, pois deixam de contar com a contribuiçāo do empregador para formaçāo de sua poupança.

Mas os jovens sabem de tudo isso e se mesmo assim pedem para sair, o que está errado, o que anda acontecendo?

Sāo inúmeros fatores.

  • Vāo desde o desafio de remuneraçōes que nāo tem acompanhando o aumento do custo de vida, fazendo o jovem priorizar o dia a dia em detrimento do futuro.

  • Até a opçāo por outras formas de poupar para a aposentadoria, com mais flexibilidade de acesso, com uso de mais tecnologia para engajamento, com investimentos alinhados aos propositos individuais e melhores rendimentos.

Uma coisa é certo, a adesāo automática veio para proteger as pessoas delas mesmos, usando a seu favor o “viés de procrastinaçāo”, tipico do comportamento humano.

Mas quando as pessoas pedem, conscientemente, para sair e optam por nāo participar de um plano de previdencia complementar corporativo, o minimo que deveriamos fazer é pesquisar para saber quais as reais razōes por trás dessa decisāo.

Ainda mais quando se trata de jovens.

No reply | Nāo responda esse e-mail

Se o seu fundo de pensāo tem um serviço de atendimento e relacionamento ou uma área de marketing que usa um daqueles e-mails com o título “no reply” (nāo responda essa mensagem”), está deixando escapar o principal.

Bilhōes de reais sāo gastos anualmente pelas empresas na esperança de se fazerem notar, de atrairem a atençāo das pessoas.

A atençāo humana é fugaz, está cada vez mais curta e o mundo está cada vez mais cheio de bots, no entanto:

  • No momento em que um cliente, real ou potencial, se atreve a querer falar;

  • No momento em que eles podem demonstrar interesse em dizer QUALQUER coisa, fazer QUALQUER pergunta ou mostrar por um segundo que se importam;

  • Não nos damos ao trabalho nem de ler o que eles estão tentando dizer?

Sim, sim, sim, sabemos os motivos desses e-mails pedirem para você nāo responder, mas esses motivos sāo uma grande mentira.

Especialmente na era da IA, empresas e entidades de previdencia complementar deveriam se esforçar ao máximo para

  • ouvir;

  • conversar;

  • entender; e

  • aprender tudo que puderem.

Toda vez que um jovem participante opta por cancelar a adesāo ao plano de previdencia complementar, depois de ter sido incluido nele por adesāo automatica e o fundo de pensāo nāo pergunta a razāo da saida, para entender o que está acontecendo, é como se tivesse enviando um e-mail do tipo “no reply” …

Grande abraço,

Eder.


Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “Almost 10% of under-30s opting out of AE as overall annual opt-outs reach 500,000, escrito por Jack Gray.

Disclaimer: Esse artigo foi escrito com uso de IA, baseado em prompts do autor, em sua profunda experiencia profissional e nas informações das fontes citadas.


quarta-feira, 17 de junho de 2026

EM TEMPOS DE CONSOLIDAÇĀO E DE PLANOS INSTITUÍDOS, É PRECISO EVOLUIR NA GOVERNANÇA DOS FUNDOS DE PENSĀO



De Sāo Paulo, SP.

Existe uma regra simples no mundo corporativo: quando uma empresa cresce, administra bilhões e impacta a vida financeira de milhares de pessoas, ela precisa prestar contas.

Prestar contas não apenas através de relatórios anuais bonitos, informaçōes publicadas no site ou reuniões de seu conselho de administraçāo.

Precisa olhar para seus acionistas, explicar o que fez no ano, ouvir perguntas, responder críticas e submeter decisões relevantes ao escrutínio público.

Nas companhias de capital aberto, as S/A, isso acontece por meio da Assembleia Geral Ordinária, a famosa AGO. É nela que todos os acionistas são chamados a aprovar contas, examinar demonstrações financeiras, eleger administradores e discutir os rumos da empresa.

A pergunta que fica é:

Se isso vale para as sociedades empresariais, por que não deveria valer também para os grandes fundos de pensão?

A proposta é simples: os grandes fundos de pensão brasileiros classificados como S1 pela legislação, assim como todos os fundos multipatrocinados, deveriam realizar anualmente uma AGO dos participantes.

A PREVIC informou que, em 2026, haverá 10 EFPC no segmento S1, 75 no S2, 89 no S3 e 72 no S4, classificação baseada em porte e complexidade

Uma Assembleia Geral Ordinária de Participantes, aberta a todos, digital, gravada, com pauta mínima obrigatória, direito a perguntas, prestação de contas clara e possibilidade de manifestação formal de qualquer participante.

Não se trata de substituir conselhos deliberativos, conselhos fiscais ou diretorias executivas. Trata-se de complementar a governança.

A AGO do fundo de pensāo seria uma camada adicional de legitimidade, transparência e escuta. Em vez de o participante:

  • aparecer apenas na hora de contribuir;

  • votar de tempos em tempos em seus representantes nos conselhos;

  • ter voz indireta nos órgaos superiores de gestāo; ou

  • reclamar quando algo dá errado …

… ele passaria a ter um espaço institucional anual para acompanhar, questionar e influenciar diretamente.

Consolidaçāo e planos instituidos

Credito de Imagem: www.churchleadership.com

A ideia se torna ainda mais necessária diante da consolidação dos fundos de pensão no Brasil e no mundo.

O setor está caminhando para entidades maiores, mais complexas, multipatrocinadas e com carteiras de planos cada vez mais diversas e pulverizadas.

A consolidação pode trazer ganhos de escala, redução de custos e maior profissionalização. Mas traz, também, um risco óbvio:

Quanto maior a entidade, mais distante fica o participante comum.

Quando planos de várias patrocinadoras passam a ser administrados por uma mesma entidade, a representatividade nos conselhos tende a se diluir.

  • O participante de uma patrocinadora menor pode se sentir apenas um CPF perdido dentro de uma estrutura gigantesca.

  • O aposentado pode achar que sua voz já não chega a lugar algum.

  • O jovem participante, acostumado a interagir digitalmente com bancos, corretoras, redes sociais e plataformas de investimento, pode olhar para a governança tradicional dos fundos de pensão e pensar: “isso não é uma comunidade, isso conversa comigo”.

O problema fica ainda mais interessante — e mais urgente — com a expansão dos planos instituídos, especialmente os chamados planos família.

O modelo tradicional dos fundos de pensão foi construído em torno da relação empresa-empregado: patrocinadora de um lado, trabalhadores e assistidos de outro.

A governança refletiu essa lógica.

Conselhos compostos por representantes das patrocinadoras e dos participantes, com vínculos empregatícios, associativos ou sindicais bem definidos.

Mas os planos instituídos trouxeram outra figura para dentro dos fundos de pensão: a pessoa física, sem vínculo de emprego com uma patrocinadora.

Pode ser o filho, o cônjuge, o parente, o associado, o profissional liberal, o participante que entrou por uma porta diferente daquela velha relação empresa-trabalhador.

Essas pessoas passam a acumular poupança dentro de uma entidade cuja governança, ainda pensa com a cabeça do Século XX.

Uma questāo inevitável: quem representa essas pessoas? A resposta não pode ser apenas “os conselhos já representam todos”.

Formalmente, no papel, pode até ser, mas na prática, a distância existe e é enorme. Quando essa distância cresce, a confiança diminui.

Fundos de pensão não administram apenas $$$, administram expectativa, medo, futuro, aposentadoria, renda familiar. Governança, nesse contexto, não se reduz a um organograma, passa a ser um pacto de confiança.

AGO em fundo de pensāo

Credito de Imagem: Internet

Uma AGO anual ajudaria a reconstruir esse pacto. A pauta poderia incluir:

  • apresentação dos resultados dos planos;

  • desempenho dos investimentos;

  • custos administrativos;

  • remuneração de dirigentes;

  • principais riscos;

  • reclamações recorrentes;

  • política de comunicação;

  • politica de desacumulaçāo;

  • qualidade do atendimento;

  • estrategias de inovação;

  • uso de tecnologia;

  • educação previdenciária; e

  • metas para o ano seguinte.

Além disso, a AGO poderia ter votações consultivas. Por exemplo:

  • os participantes aprovam a qualidade da prestação de contas?

  • Consideram adequada a comunicação da entidade?

  • Estão satisfeitos com os canais digitais?

  • Querem mais transparência nos investimentos?

  • Defendem novos produtos de desacumulação?

  • Desejam maior participação em decisões relevantes?

Essas votações não precisariam ter, em um primeiro momento, caráter vinculante, mas teriam enorme valor político, reputacional e institucional.

Seria difícil para um fundo de pensão ignorar, ano após ano, a manifestação organizada de milhares de participantes.

E vou derrubar por terra a velha desculpa operacional de “não dá para reunir tanta gente”. Hoje dá, sim.

Existem soluções tecnológicas para assembleias digitais, votação simultânea, autenticação, trilhas de auditoria, registro de presença, perguntas organizadas, moderação, transmissão ao vivo e apuração eletrônica.

Se bancos conseguem autenticar milhões de transações por dia, se corretoras permitem ordens de compra e venda em segundos, se companhias abertas realizam assembleias digitais, os fundos de pensão também podem fazer melhor do que publicar um relatório anual e torcer para alguém ler.

A AGO de participantes não seria uma revolução contra os fundos de pensão, seria uma modernização a favor de sua governança na era digital.

Aliás, os fundos deveriam abraçar essa ideia antes que ela venha por imposição regulatória. Conforme venho frisando, esta na hora dos fundos de pensāo deixarem as melhorias incrementais em sua governanca, forçadas pos-facto pela relamentaçāo governamental e passarema atuar antes, buscando melhorias mais profundas.

As entidades que saírem na frente poderão transformar transparência em vantagem reputacional, poderão dizer ao mercado, aos participantes, aos patrocinadores e ao regulador: “não temos medo de prestar contas”.

Em um setor que fala tanto de longo prazo, confiança e responsabilidade fiduciária, isso deveria ser o mínimo esperado.

A proposta poderia começar pelos fundos classificados como S1, justamente por seu porte, complexidade e relevância sistêmica.

Depois, deveria alcançar todos os fundos multipatrocinados, porque ali a questão da representatividade é ainda mais sensível. Quanto mais diversa a base de patrocinadores, instituidores, planos e participantes, maior a necessidade de um fórum comum de escuta e prestação de contas.

No futuro, talvez a questāo deixe de ser se os fundos de pensão devem realizar Assembleias Gerais Ordinárias de Participantes e passe a ser por que demoraram tanto a fazê-lo.

Convenhamos, se o dinheiro é dos participantes, se o risco é dos participantes, se o benefício futuro é dos participantes, já passou da hora dos participantes deixarem de ser uma plateia silenciosa e passarem a ocupar, pelo menos uma vez por ano, o palco principal da governança.

Fundo de pensão sem participante é só uma estrutura administrativa procurando uma razão para existir.

Grande abraço,

Eder.


Opiniōes: Todas minhas. Fonte: “Assembleias Gerais de Participantes: Uma Revoluçāo Necessaria na Governança dos Fundos de Pensāo” e “Explorando uma Proposta Radical: Governança Direta na Representaçāo dos Participantes dos Fundos de Pensāo”, Eder C. Costa e Silva.

Disclaimer: Esse artigo foi escrito com uso de IA, baseado em prompts do autor, em sua profunda experiencia profissional e nas informações das fontes citadas.


TIKTOK, SEGUROS E PREVIDÊNCIA LEGO: UM RECADO PARA OS FUNDOS DE PENSÃO

 


De Sāo Paulo, SP.


O TikTok acaba de dar mais um sinal de que a próxima fronteira dos serviços financeiros não está necessariamente dentro dos bancos, das seguradoras ou das entidades tradicionais de previdência complementar.

Está onde as pessoas já vivem, trabalham, compram, vendem, se informam e tomam decisões.

A novidade é simples, mas poderosa: o TikTok Shop passou a oferecer seguros comerciais - embutidos na venda de outras soluçōes - para pequenos empreendedores, pequenas e medias empresas (PME).

Emresas que já usam o TikTok para vender seus produtos, poderāo contratar coberturas como:

  • responsabilidade civil;

  • responsabilidade profissional;

  • seguro para empregados;

  • seguro para riscos cibernéticos …

… diretamente no ambiente em que administram suas lojas virtuais no TikTok Shop.

Isso não é apenas “mais um produto financeiro digital”, é uma mudança de paradigma, uma nova arquitetura de distribuiçāo de produtos e serviços.

O modelo tradicional de distribuiçāo de produtos financeiros, de poupança, de investimentos e de proteçāo contra riscos, seguia um roteiro simples:

  1. Primeiro, a pessoa ou a empresa percebia uma necessidade;

  2. Depois, procurava uma instituição financeira, um banco, uma corretora de seguros, uma corretora de valres ou uma entidade de previdência complementar;

  3. Preenchia formulários, entregava seus dados, completava cadastros;

  4. Comparava produtos, serviços, preços, avaliava qualidade, características;

  5. Falava com intermediários, com gerentes; com agentes, com corretores, com técnicos; e

  6. Contratava (ou nāo) alguma solução, algum produto, alguma serviço, algum investimento, algum plano de previdencia complementar.

O novo modelo inverte toda essa lógica.

Credito de Imagem: DreamsTime


A proteção aparece no contexto da necessidade. O produto financeiro surge no fluxo da vida real. A contratação deixa de ser um evento separado e passa a ser parte da experiência.

É exatamente isso que eu chamei, lá em 2020, de previdência lego.

A ideia era simples:

  • O futuro da previdência complementar não seria construído apenas com planos fechados, produtos rígidos, regulamentos complexos e jornadas desenhadas para o trabalhador formal do trabalho do Século XX.

  • O futuro seria modular, conectado, plugável, integrado por APIs, dados, parceiros, plataformas, serviços e experiências. Como peças de lego, as soluções financeiras seriam montadas em torno da vida das pessoas — e não o contrário.

O TikTok está entrando no mercado de seguros e isso mostra que minha tese deixou de ser uma inovaçāo futurista e virou realidade, está se tornando uma prática de mercado.

O ponto central, que ressalto aqui, para os fundos de pensão:

  • Se o TikTok pode vender seguro comercial dentro da jornada de um pequeno empreendedor;

  • Por que os fundos de pensão ainda tratam a adesão, a contribuição, a educação previdenciária e o engajamento, como processos quase separados da vida digital das pessoas?

Os fundos de pensāo brasileiros continuam esperando que o participante venha até eles, continuam pensando em como superar o desafio de “vender” planos de previdência complementar e cobertura de rsicos de invalidez, morte e longeviddade

Mas o mundo digital funciona ao contrário: é a solução que precisa aparecer no momento certo, no canal certo, com a linguagem certa e com o menor atrito possível

Essa é a grande lição.

Não basta o fundo de pensão “ter uma conta no TikTok” como quem abre uma filial decorativa no shopping center da moda.

Também não basta publicar vídeos institucionais explicando juros compostos, reserva matemática, perfil de investimento e benefício proporcional diferido.

Tudo isso pode até ser útil, mas não muda o jogo.

O jogo muda quando o fundo de pensāo entende que o TikTok não é apenas um canal de comunicação e muito menos uma plataforma para a garotada publicar videos com dancinha.

O TikTok é um ambiente de descoberta, formação de comportamento, captura de atenção e cada vez mais, um canal de distribuição de produtos, serviços e soluçōes.

Em artigos anteriores sobre o tema, eu já havia chamado atenção para o fato da previdência complementar praticamente não existir, estar ausente, no TikTok brasileiro, enquanto crypto, finanças digitais e influenciadores de investimento ocupam um espaço desproporcionalmente maior na cabeça dos jovens.

Os fundos de pensāo ainda falam com os potenciais participantes e patrocinadoras através de canais proprios e websites corporativos. O mundo digital fala como se estivesse conversando com as pessoas no bar da esquina.

Credito de Imagem: www.dlaignite.com


O risco é óbvio: o próximo milhāo de participantes não será conquistado por:

  • Campanhas tradicionais;

  • Palestras virtuais;

  • PDFs bem diagramados; ou

  • Simuladores escondidos no site da entidade.

Eles serão conquistados por quem aparecer primeiro na frente deles, na jornada digital deles, com soluções simples, úteis, contextuais e confiáveis.

Por isso, a sugestão aos fundos de pensão nāo é “façam dancinha no TikTok” e sim “repensem seu modelo e seus canais de distribuição”.

Um fundo de pensão moderno poderia começar a testar a lógica da previdência embutida ou, para usar o termo que cunhei, previdência lego.

Isso exige tecnologia, mas exige principalmente mudança de mentalidade. O fundo de pensão não precisa virar um banco digital ou uma seguradora com pagna noTikTok.

Mas pode atuar como orquestrador de um ecossistema, pode ser o provedor confiável da camada previdenciária dentro de plataformas onde a vida financeira já está acontecendo.

Esse é o ponto da previdência lego: o fundo de pensāo não precisa fabricar todas as peças do lego. Precisa saber quais peças conectar, com quem se associar, onde aparecer e como gerar valor na jornada financeira das pessoas ao longo da vida.

Há desafios, naturalmente. Regulatórios, operacionais, fiduciários e reputacionais, mas inovação séria não é sair fazendo qualquer coisa. É criar, experimentar, controladar pilotos, parcerias, sandboxes, estabelecer métricas e governança adequada para testar o futuro antes que o futuro teste a entidade, se ela vai sobreviver ou nāo.

O TikTok oferecendo seguro comercial não significa que os fundos de pensão devam sair vendendo previdência em vídeos de 15 segundos.

Significa algo bem mais profundo:

  • As plataformas digitais estão se tornando infraestrutura de distribuição;

  • Quem controla a jornada controla a atenção;

  • Quem controla a atenção influencia o comportamento; e

  • Quem influencia o comportamento captura o futuro participante / patrocinadora.

Os fundos de pensão ainda têm uma vantagem enorme: confiança institucional, patrimônio acumulado, conhecimento técnico, escala potencial e um propósito social legítimo.

Só que essas vantagens não serão suficientes se continuarem presas a uma arquitetura de distribuição desenhada para outro tempo, outra era, outro mmento histórico.

Os fundos de pensão devem estar no TikTok?

Bem, o futuro da previdência complementar não está em convencer um jovem a visitar o website do seu fundo.

Está em fazer a previdência complementar aparecer, de forma simples, útil e confiável, exatamente no momento em que o jovem recebe, vende, compra, trabalha, cria, empreende, investe e vive.

Uma estatística interessante reforça o argumento. Segundo dados da GlobalData:

  • 39,1% das PMEs no mundo já disseram ter recebido oferta de seguro embutido ao comprar outro produto ou serviço em marketplace e

  • 48,8% das que receberam a oferta contrataram o seguro. Isso sustenta bem a tese de que distribuição contextual no mundo digital pode vencer educação financeira abstrata no mundo real.

Em 2020, isso parecia só uma provocação, em 2026, quem continua achando que se trata apenas disso está no atraso.

Como eu costumo dizer: cobra que não se mexe, não engole sapo.

Grande abraço,

Eder.


Opiniōes: Todas minhas | Fontes: “"TikTok partners with insurtech to launch embedded commercial insurance”, escrito por George McDade | “Disruptura: a previdência lego e o futuro das finanças mudarão para sempre o modelo de negócios da previdência complementar - Parte 1; Parte 2, Parte 3, Parte 4” | “Onde Estāo os Póxmos Milhōes de Participantes, mas Ninguem Está Procurndo Eles Lá?” escritos por Eder C. Costa e Silva

Disclaimer: Esse artigo foi escrito com uso de IA, baseado em prompts do autor, em sua profunda experiencia profissional e nas informações das fontes citadas.



DESACUMULAÇÃO: O TAMANHO DO DESAFIO DO GRUPO DE TRABALHO DA PREVIC

 


De Sāo Paulo, SP.


O desafio da previdência complementar, desde que os fundos de pensāo surgiram no inicio do século passado, tem sido ensinar as pessoas a fazer uma coisa:

Acumular, juntar, poupar mais, contribuir sistematicamente, investir melhor, fazer o dinheiro crescer.

O problema é que, quando finalmente chega a aposentadoria, quando a pessoa entra na fase de “desacumulaçāo”, de gastar a poupança que acumulou, o jogo muda completamente.

A pergunta deixa de ser “quanto consegui juntar?” e passa a ser “quanto posso gastar, mensalmente sem cometer uma irresponsabilidade financeira comigo mesmo?”.

Uma pesquisa recente da Corebridge Financial, nos EUA, mostra o tamanho desse desconforto:

  • Só 28% dos pré-aposentados e aposentados entrevistados dizem se sentir confortáveis com a ideia de ver suas economias diminuírem para bancar despesas na aposentadoria;

  • 70% dizem ser muito importante que o patrimônio acumulado não encolha. Ou seja: a pessoa passou a vida inteira juntando dinheiro para usar na aposentadoria, mas quando a aposentadoria chega, usar o dinheiro parece quase um pecado;

  • O dado mais revelador: 38% dos aposentados disseram que gastaram menos do que gostariam, porque queriam preservar o tamanho do patrimônio.

Isso não é planejamento previdenciário. É medo, travestido de prudência.

Curiosamente, esse comportamento não parece ser explicado pelo desejo de deixar herança. A maioria das pessoas simplesmente não tem uma meta específica de quanto deixar para os filhos de herança.

O que existe é o medo de se encontrar vivo depois que o dinheiro que guardaram para a fase final da vida simplesmente acabar.

Esse é o drama humano central, que vem sendo fomentado nos ultimos 50 anos pelo único plano de previdencia complementar que os fundos de pensāo continuam oferecendo para quem quer poupar: planos de contribuição definida (CD).

Na fase de acumulação, o participante sabe mais ou menos o que fazer:

  • poupar todo mês o máximo que o orçamento permitir,

  • escolher o perfil de investimentos mais adequado,

  • acompanhar o saldo na medida que vai crescendo,

  • torcer para a rentabilidade ser boa.

Na fase de desacumulação, ele precisa tomar decisões muito mais difíceis:

  • quanto sacar mensalemente?

  • com que reajuste para compensar a inflaçāo?

  • em qual sequência?

  • assumindo qual risco de mercado no investimento do saldo acumulado?

  • qual risco de longevidade, por quanto tempo a mais deverá viver?

  • qual o risco de precisar gastar mais com saúde?

Os fundos de pensāo tratam seus participantes assim:

“Parabéns, você juntou dinheiro. Agora resolva sozinho o problema mais difícil da sua vida financeira”.

Isso precisa mudar!

O Reino Unido já percebeu isso com clareza. O debate sobre “guided retirement solutions” (ver esses artigos que publiquei semana passada: aqui e aqui) parte justamente da constatação de que os aposentados não precisam apenas de produtos.

Os aposentados precisam de caminhos, precisam de soluções-padrão, de orientação, de simulações permanentes, de comunicação simples e de desenho de produtos e soluçōes institucionais que transformem saldo acumulado em renda segura.

O aposentado não quer uma aula de estatística atuarial. Ele quer saber se pode trocar os moveis da sala, ajudar o neto, viajar de vez em quando e ainda assim, dormir tranquilo.

No Brasil, o desafio é silencioso. Dados oficiais mostram que a previdência complementar já paga mais de R$ 100 bilhões por ano em benefícios, sendo a maior parte no segmento fechado, fundos de pensāo.

Só que boa parte desses pagamentos ainda vem de planos de benefício definido (BD), que carregam uma lógica mais antiga: a renda pinga mensalmente, como um salário que nunca acaba.

Nos planos CD e CV, que dominam a cena da previdencia complementar no mundo todo, fica com o participante toda a responsabilidade sobre decisões que a maioria das pessoas não está preparada para tomar sozinha.

A inferência para o Brasil é preocupante. Se em um mercado mais maduro, com maior oferta de produtos, mais tradição de suporte ao participante e maior orientação previdenciária, 38% dos aposentados já reduzem gastos por medo de consumir o próprio saldo, é razoável imaginar que, entre brasileiros em planos CD, esse percentual seja igual ou maior.

Pode não apareça nas estatísticas, porque aqui o problema costuma ser tratado como “escolha individual”, mas o nome correto é outro:

Na previdência complementar brasileira, a arquitetura de produtos e soluçōes de desacumulação é inexistente, falta (por culpa do governo que nada faz sobre isso) um mercado de anuidades e seguradoras simplesmente nāo cumprem seu papel econômico de intermediários de risco (que venham as seguradoras estrangeiras).

O Brasil precisa parar de tratar a data da aposentadoria como uma linha de chegada. Ela é, na verdade, uma nova etapa de gestão de renda futura, risco e comportamento.

Os fundos de pensão deveriam oferecer, no mínimo, trilhas de retirada, rendas programadas inteligentes, opções de renda vitalícia diferida (a partir dos 70, 80 anos), simulaçōes ilustrativas, alertas de esgotamento do saldo remanescente e acompanhamento periódico do aposentado.

Não basta entregar um extrato periódico, é preciso entregar confiança.

Falamos muito, na previdência complementar, em longo prazo. Mas o longo prazo, para o aposentado, chega todo mês na forma de boleto, remédio, supermercado, plano de saúde, gastos familiares e vontade de viver um pouco melhor.

Acumular foi só a primeira metade da história, a segunda metade é ajudar o participante a usar o dinheiro com segurança, dignidade e com prazer.

Uma previdência complementar que ensina a poupar, mas não ensina a gastar, entrega apenas meia aposentadoria.

A pesquisa da Corebridge ouviu 2.210 adultos de 45 a 79 anos com ao menos US$ 100 mil em ativos investíveis, descobriu que

  • Meros 28% se sentem confortáveis em reduzir o patrimônio para pagar seus gastos durante a fase de aposentadoria,

  • 70% consideram muito importante preservar o saldo,

  • 38% gastaram menos do que gostariam para manter o patrimônio, e

  • Só 29% dos pré-aposentados com 55 anos ou mais têm um plano de retiradas.

No Brasil os benefícios pagos pela previdência complementar chegaram a R$ 103 bilhões no acumulado em 12 meses até junho/2025 (fonte: RGPC 2ºSem./2025).

O problema: nas EFPC os planos BD respondem por 68% dos pagamentos, enquanto CDs e CVs somam pagametos de aposentadoria da pequena parcela restante.

Um estudo do Ipea sobre previdência complementar no Brasil afirma que a oferta de produtos vitalícios é escassa e pouco estimulada, e propõe renda vitalícia para idade avançada como alternativa para proteger contra risco de longevidade.

O que falta? Uma combinação de produtos e soluçōes financeiras mais complexas.

Grande abraço,

Eder.


Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “Lack of withdrawal strategies forces 38% of retirees to cut back on spending, escrito por Alan Goforth.

Disclaimer: Esse artigo foi escrito com uso de IA, baseado em prompts do autor, em sua profunda experiencia profissional e nas informações das fontes citadas.


quinta-feira, 11 de junho de 2026

DESACUMULAÇĀO: O QUE A PREVIC E O GOVERNO DEVERIAM FAZER - PARTE 2


 

De Sāo Paulo SP.

Essa é a segunda parte de um artigo sobre desacumulaçāo. Para entender melhor esse artigo, leia a primeira parte intitulada: Desacumulaçāo: O Que os Fundos de Pensāo Brasileiros Podem Fazer.


O grupo de trabalho criado pela PREVIC tem uma oportunidade rara: não apenas discutir “sustentabilidade atuarial” dos planos CD/CV, mas redefinir o papel dos fundos de pensão na vida dos participantes aposentados.

O que a PREVIC e o governo deveriam fazer?

Passo # 1 - Politica de Desacumulaçāo

O primeiro passo seria reconhecer, em norma, que todo plano CD ou CV deveria ter uma política de desacumulação.

Da mesma forma que hoje se exige que os fundos de pensāo tenham :

  • uma política de investimentos,

  • demonstrações de resultados atuariais,

  • relatórios semestrais de controles internos; e

  • regras de governança …

… deveria haver uma política formal explicando como o plano ajuda o participante a transformar seu saldo de conta acumulado em renda mensal.

Essa política deveria responder a perguntas básicas, tipo:

  • Quais opções de renda mensal são oferecidas?

  • Como o plano trata risco de longevidade?

  • Como comunica risco de esgotamento do saldo?

  • Como revisa a renda mensal ao longo do tempo?

  • Como permite saques e resgates extraordinários?

  • Como protege participantes com baixo engajamento?

  • Como acompanha a adequação das rendas sendo pagas?

  • Como mede se a renda paga aos assistido é sustentável?

Passo # 2 - Opçāo de Renda Automática

Credito de Imagem: www.azulseguros.com.br

O segundo passo seria permitir e incentivar soluções-padrão de desacumulação.

Não basta o regulamento do plano CD / CV listar dez alternativas de recebimento da renda e transferir a responsabilidade integral da escolha para o participante.

A norma deveria autorizar que os planos ofereçam uma “trilha-padrāo”, uma recomendaçāo, uma alternativa default de recebimento da renda, com opção de saída, para participantes que não queiram ou não consigam tomar decisões complexas sozinhos.

Aqui é preciso cuidado.

Uma opçāo default de desacumulação não pode ser tão automático quanto a adesāo aumtomática que leva o participante a aderir ao plano e comecar a fase de acumulação.

Na fase de contribuição, colocar o participante em um perfil de investimento padrão costuma ser reversível. Na aposentadoria, algumas decisões podem ser difíceis ou impossíveis de desfazer.

Por isso, a regulação deveria prever salvaguardas:

  • consentimento claro do participante;

  • comunicação simples;

  • período de reflexão, com possibilidade de reversāo da escolha;

  • possibilidade de opt-out;

  • revisão periódica; e

  • mecanismos de reclamação.

Passo # 3 - Moldura Regulatória

O terceiro passo seria criar uma “moldura regulatória” para a introduçāo da aposentadoria guiada nos fundos de pensāo.

A PREVIC poderia estabelecer que as EFPCs, i.e. os fundos de pensāo, especialmente as que administram planos CD/CV relevantes, disponibilizem aos participantes jornadas estruturadas de recebimento da renda de aposentadoria, com:

  • apps de simulaçāo da renda mensal;

  • segmentação por perfil de renda;

  • alertas de risco, incsive de termino da renda;

  • revisão periódica da renda sendo recebida; e

  • orientação sobre cada alternativa de renda existente.

Essa moldura regulatória não deveria engessar os produtos.

Pelo contrário, deveria definir princípios mínimos e deixar espaço para o surgimento de inovação. O regulador não precisa dizer qual é a taxa de retirada mensal ideal, nem desenhar o produto linha por linha.

Precisa exigir que o fundo de pensāo explique, teste, monitore e comunique a solução adotada aos participantes.

Credito de Imagem: www.mercadolivre.com.br

Passo # 4 - Comunicaçāo como Dever Fiduciário

O quarto passo seria tratar a comunicação como uma obrigação fiduciária, não como peça de marketing.

Quanto se trata de desacumulação, a forma como a informação é apresentada muda decisões. Se o participante vê primeiro a opção de saque único, pode sacar tudo.

Se vê primeiro uma simulação de renda mensal sustentável, pode pensar como alguém preocupado com o término do dinheiro de aposentadoria.

Se recebe um extrato cheio de termos técnicos atuariais, desiste. Se ouve uma pergunta simples — “você quer que esse dinheiro dure por 20, 25 ou 30 anos?” — talvez comece a entender o problema.

A PREVIC deveria exigir testes da efetividade da comunicação com os participantes. A linguagem é simples? O participante está entendendo? Há simulações em reais? Alertas sobre o efeito da inflação na renda sendo paga? Projeções que mostrem cenários bons, medianos e ruins?

Não basta divulgar o saldo acumulado, é preciso traduzir o saldo remanescente em renda mensal provável.

Passo # 5 - Estimular Produtos Hibridos

O quinto passo seria estimular a criaçāo de produtos. Os planos CD brasileiros ficaram presos em uma falsa escolha:

  • renda vitalícia atuarial com pouca ou nenhuma flexibilidade; ou

  • renda financeira, com risco total para o participante.

Entre esses dois extremos existe um mundo de possibilidades:

  • renda temporária,

  • renda recalculada,

  • renda com reserva de liquidez,

  • renda com proteção nas idades avançadas,

  • renda por faixas etária,

  • renda combinada com seguro de longevidade;

  • renda com diluiçāo de risco coletivo

Existe uma gama enorme de formas de pagamento programado e de soluções que misturam investimento, liquidez e proteção.

A regulação deveria permitir que os planos ofereçam combinações de todas as formas.

Uma parte do saldo poderia financiar a renda mensal, outra parte poderia permanecer investida, outra poderia ser reservada só para emergências, outra poderia comprar proteção contra longevidade extrema.

Passo # 6 - Incentivar a Inovaçāo

O sexto passo seria criar incentivos prudenciais para inovação responsável.

A PREVIC poderia criar um ambiente regulatório experimental - tipo um sandbox - para produtos de desacumulação, com testes pilotos supervisionados, métricas de acompanhamento, limites de escala para implantaçāo inicial e avaliação de resultados.

Fundos de pensāo maiores, multipatrocinados, planos instituídos e entidades com estrutura técnica robusta poderiam testar modelos, compartilhar aprendizados e criar padrões para o setor.

Passo # 7 - Implantar Métricas

Credito de Imagem: www.mercadolivre.com.br

O sétimo passo seria exigir métricas de aferiçāo de resultado na fase de recebimento das rendas mensais pagas pelos planos CD.

Hoje o setor mede:

  • rentabilidade;

  • solvência;

  • risco de todo tipo;

  • despesa administrativa; e

  • aderência de hipóteses atuariais.

Nāo mede a experiência real do aposentado em um plano CD, nāo sabe quantos assistidos:

  • Tem a renda reduzida drasticamente logo nos primeiros anos?

  • Sacam dinheiro demais do saldo acumulado no início da aposentadoria?

  • Deixam saldo parado no plano por medo de gastar?

  • Ficam sem orientação, perdidos, durante a fase de desacumulaçāo?

  • Entendem a opçāo que escolheram?

Os fundos de pensāo nāo medem, nāo acompanham, nāo sabem dizer quantos anos duram as rendas pagas por seus planos CD.

Sem medir isso, o setor continuará fingindo que o problema não existe.

Passo # 8 - Incentivar Rendas Mutualistas

O nono passo seria rever o tratamento regulatório da renda vitalícia nos planos CD/CV. Muitos fundos evitam oferecer renda vitalícia por medo de risco atuarial, judicialização ou desequilíbrio futuro.

Resultado, o participante fica com o risco integral.

A PREVIC poderia criar regras mais claras para rendas vitalícias mutualistas, rendas coletivas com ajuste atuarial, mecanismos de compartilhamento de risco e modelos em que o benefício não seja promessa rígida, mas renda ajustável dentro de parâmetros previamente comunicados.

Isso já acontece, em grande medida, através do que eu costumo rotular de “Renda Denorex”, paga por fundos de pensāo públicos como o Funpresp-Exe, Funpresp-Jud e outros:

Renda Denorex: parece uma renda financeira, mas nāo é - na verdade, é uma renda vitalicia travestida de renda nāo atuarial.

Passo # 9 -

O nono passo seria colocar o participante no centro da regulação.

Parece óbvio, mas não é.

Grande parte da regulação previdenciária brasileira ainda olha para plano, entidade, patrocinador, balanço, meta atuarial, custeio e fiscalização.

Tudo isso importa, claro, mas, em planos CD, o verdadeiro teste de sucesso é outro:

O participante conseguiu transformar sua poupança acumulado em seguranca financeira ao longo de toda sua aposentadoria, incusive, nos anos finais?

Se a resposta for não, o plano pode estar tecnicamente regular, mas socialmente é um fracasso.

Um problema que nāo é só atuarial, é estrutural

A criação do grupo de trabalho da PREVIC é muito bem-vinda, mas será insuficiente se o debate ficar preso à velha linguagem da “sustentabilidade atuarial”.

Nos planos CD e CV, o desafio não é só garantir que os compromissos sejam compatíveis com os recursos. Até porque nāo há compromisso definido no pagamento dos benefício.

O desafio é evitar que o participante acumule $$$ por décadas, chegue à fase de aposentadoria e descubra que recebeu do sistema apenas um saldo de conta, embrulhado num simulador ruim e numa coleção de possibilidades para escolher a renda, que ele não está preparado para fazer.

O Reino Unido está dizendo algo que o Brasil deveria ouvir:

Os fundos de pensão precisam ajudar o participante a transformar poupança em renda, contribuiçāo da vida toda em segurnça finaneira nas idades mais avançadas

  • Não basta acumular contribuiçāo alucinadamente;

  • Não basta entregar só a rentabilidade dos títulos publicos;

  • Não basta mandar extrato mostrando o saldo crescer;

  • Não basta ressaltar a importancia da “educação financeira”.

Como se tudo isso fosse incenso em missa de sétimo dia.

A fase de desacumulação exige produtos, governança, comunicação, tecnologia, regulação e responsabilidade fiduciária.

Se os fundos de pensão brasileiros quiserem continuar relevantes no mundo dos planos CD, precisarão parar de pensar apenas como administradores de reservas tecnicas e começar a atuar como arquitetos de rendas de aposentadoria que entregam segurança financeira de verdade.

Se o governo quiser realmente proteger os participantes da falta de dinheiro na velhice, deveria usar o grupo de trabalho da PREVIC para abrir uma nova agenda regulatória.

É o que tenho para hoje - e já é muito!

Grande abraço,

Eder.


Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “Guided retirement likely to rely on ‘partial information’ about savers - PPI”, escrito por Callum Conway.

Disclaimer: Esse artigo foi escrito com uso de IA, baseado em prompts do autor, em sua profunda experiencia profissional e nas informações das fontes citadas.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Cuidados na Portabilidade

Hora no Mundo?

--------------------------------------------------------------------------

Direitos autorais das informações deste blog

Licença Creative Commons
A obra Blog do Eder de Eder Carvalhaes da Costa e Silva foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
Com base na obra disponível em nkl2.blogspot.com.
Podem estar disponíveis permissões adicionais ao âmbito desta licença em http://nkl2.blogspot.com/.

Autorizações


As informações publicadas nesse blog estão acessíveis a qualquer usuário, mas não podem ser copiadas, baixadas ou reutilizadas para uso comercial. O uso, reprodução, modificação, distribuição, transmissão, exibição ou mera referência às informações aqui apresentadas para uso não-comercial, porém, sem a devida remissão à fonte e ao autor são proibidos e sujeitas as penalidades legais cabíveis. Autorizações para distribuição dessas informações poderão ser obtidas através de mensagem enviada para "eder@nkl2.com.br".



Código de Conduta

Com relação aos artigos (posts) do blog:
1. O espaço do blog é um espaço aberto a diálogos honestos
2. Artigos poderão ser corrigidos e a correção será marcada de maneira explícita
3. Não se discutirão finanças empresariais, segredos industriais, condições contratuais com parceiros, clientes ou fornecedores
4. Toda informação proveniente de terceiros será fornecida sem infração de direitos autorais e citando as fontes
5. Artigos e respostas deverão ser escritos de maneira respeitosa e cordial

Com relação aos comentários:
1. Comentários serão revisados depois de publicados - moderação a posteriori - no mais curto prazo possível
2. Conflitos de interese devem ser explicitados
3. Comentários devem ser escritos de maneira respeitosa e cordial. Não serão aceitos comentários que sejam spam, não apropriados ao contexto da dicussão, difamatórios, obscenos ou com qualquer violação dos termos de uso do blog
4. Críticas construtivas são bem vindas.




KISSMETRICS

 
Licença Creative Commons
This work is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil License.