De Sāo Paulo, SP.
Algumas semanas atrás Vitalik Buterin - esse ai de cima - disse algo que passou batido, sem registro na mídia fora do círculo de programadores e desenvolvedores de crypto.
Vitalik Buterin, para os nāo iniciados, é o programador de origem Russo-Canadense co-fundador da rede de blockchain Ethereum.
A declaração de Vitalik vai direto ao ponto, do que está errado, na forma como as cryptomoedas e ativos digitais são discutidos
Um dos aspectos mais subestimados da falta de confiança nos ativos digitais, argumentou ele, é quantas pessoas realmente conseguem entender um protocolo, um projeto no blockchain, de ponta a ponta.
Se apenas um grupo restrito de experts consegue explicar como um sistema funciona, a confiança não desaparece — ela simplesmente se recentraliza em torno dos experts.
Essa fala deveria ter sido manchete. Em vez disso, passou despercebida, porque não se encaixa na maneira como a mídia tradicional prefere falar sobre cryptomoedas e ativos digitais.
Reguladores da previdência complementar
A maioria dos tecnocratas do governo ainda trata o setor de ativos digitais como um mero indicador de preços ou um ativo volátil em relação aos ativos tradicionais.
O Bitcoin tem alta volatilidade.
Cryptomoedas são muito arriscadas.
Os órgãos reguladores estão furiosos com as criticas e já pediram até minha cabeça em mais de uma ocasiāo (muito democráticos, rsrsrsrs).
O que raramente é abordado por eles é como esses sistemas, blockchains, cryptomoedas e ativos digitais, realmente funcionam — e por que alguns são fundamentalmente diferentes de outros.
Esse silêncio importa, porque a complexidade é a linha divisória. O Ethereum, segundo o próprio Vitalik, tornou-se poderoso, mas difícil de compreender completamente.
Embora a resiliência da rede seja inegável — ela não apresentou falhas desde sua criação — sua crescente complexidade gera uma nova forma de dependência da confiança.
Se você não consegue entender o sistema de forma realista, está confiando que outra pessoa o faça. Reguladores evitam essa conversa porque ela exige precisão.
Precisão força explicações. E explicações expõem diferenças que são inconvenientes de resumir em uma decisão. Como a de proibir fundos de pensāo de investir genericamente em ativos digitais, mas incentivar investimentos em ativos específicos de interesse do governo (infraestrutura e financiamento da produçāo agrícola).
Bancos, gestores de ativos tradicionais e reguladores
Esse mesmo padrão pode ser observado nas orientações de grandes investidores institucionais.
O Bank of America agora sugere que os investidores podem alocar até 4% do portfólio em “cryptomoedas”. Isso por si só seria impensável há alguns anos, mas observe a escolha das palavras.
Sem nomes de ativos digitais. Sem distinção entre Bitcoin, Ethereum, Solana, XRP ou qualquer outra coisa. Apenas “cryptomoedas”.
Essa ambiguidade não é neutra — é enganosa.
Dentro das instituições financeiras, bancos e gestores de ativos tradicionais, as diferenças entre os ativos digitais são bem compreendidas.
O Bitcoin funciona como garantia digital. O Ethereum opera como infraestrutura de liquidação financeira. As Stablecoins sāo cryptomoedas atreladas à moedas fiduciárias (dólar, euro) que costumam ter volatilidade menor. Outras redes servem a propósitos completamente diferentes, com perfis de risco totalmente distintos.
No entanto, publicamente, tudo é simplificado em uma única palavra, como se todos os ativos on-chain (ativos digitais, no blockchain) se comportassem da mesma maneira.
Por quê? Porque mencionar detalhes específicos exige justificativa.
Dizer “cryptomoedas” dá flexibilidade aos bancos. Dizer “Bitcoin”, “Ethereum” ou “Tether” os obriga a explicar por que esses ativos merecem capital.
Isso suscita perguntas adicionais. Exige clareza. E clareza é algo que tanto bancos, como reguladores e a mídia, ainda hesitam em oferecer
Proibir investimentos de fundos de pensāo em “ativos digitais” dá flexibilidade aos reguladores. Coloca todos na mesma classificação de risco, volatilidade e utilidade.
A frustração de Vitalik — ele a expressa com cautela, como sempre — reside justamente nessa lacuna.
A falta de confiança não pode coexistir com a vagueza deliberada. Não se pode alegar maturidade enquanto se evita os detalhes técnicos e não se consegue construir uma adesão informada, se as instituições mais influentes se recusam a nomear o que de fato estão endossando e os reguladores o que estāo proibindo.
Se cryptomoedas e ativos digitais deixaram de ser um nicho, então a conversa precisa evoluir.
A mídia precisa ir além das narrativas focadas apenas em preços.
Os bancos precisam parar de se esconder atrás de termos genéricos.
Os reguladores tem que explicar tecnicamente as razōes da proibição de todos os ativos digitais.
As pessoas merecem explicações que tratem os ativos digitais como infraestrutura e não como abstrações.
A falta de confiança dos bancos não se resume apenas à tecnologia, assim como a proibição dos reguladores nāo está exclusivamente na volatilidade dos ativos digitais.
Trata-se de compreensão.
Enquanto isso não fizer parte do debate público, enquanto os dirigentes dos fundos de pensāo continuarem sem questionar os reguladores, continuaremos confundindo exposição a risco com compreensão.
Quem perde sāo os participantes, os profissionais e o sistema de fundos de pensāo.
Grande abraço,
Eder.
Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “The Problem With “Crypto,” According to Vitalik (And Why Banks Keep Dodging the Question)”, escrito por Chip Mahoney.


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