
De Sāo Paulo, SP.
O desafio da previdência complementar, desde que os fundos de pensāo surgiram no inicio do século passado, tem sido ensinar as pessoas a fazer uma coisa:
Acumular, juntar, poupar mais, contribuir sistematicamente, investir melhor, fazer o dinheiro crescer.
O problema é que, quando finalmente chega a aposentadoria, quando a pessoa entra na fase de “desacumulaçāo”, de gastar a poupança que acumulou, o jogo muda completamente.
A pergunta deixa de ser “quanto consegui juntar?” e passa a ser “quanto posso gastar, mensalmente sem cometer uma irresponsabilidade financeira comigo mesmo?”.
Uma pesquisa recente da Corebridge Financial, nos EUA, mostra o tamanho desse desconforto:
Só 28% dos pré-aposentados e aposentados entrevistados dizem se sentir confortáveis com a ideia de ver suas economias diminuírem para bancar despesas na aposentadoria;
70% dizem ser muito importante que o patrimônio acumulado não encolha. Ou seja: a pessoa passou a vida inteira juntando dinheiro para usar na aposentadoria, mas quando a aposentadoria chega, usar o dinheiro parece quase um pecado;
O dado mais revelador: 38% dos aposentados disseram que gastaram menos do que gostariam, porque queriam preservar o tamanho do patrimônio.
Isso não é planejamento previdenciário. É medo, travestido de prudência.
Curiosamente, esse comportamento não parece ser explicado pelo desejo de deixar herança. A maioria das pessoas simplesmente não tem uma meta específica de quanto deixar para os filhos de herança.
O que existe é o medo de se encontrar vivo depois que o dinheiro que guardaram para a fase final da vida simplesmente acabar.
Esse é o drama humano central, que vem sendo fomentado nos ultimos 50 anos pelo único plano de previdencia complementar que os fundos de pensāo continuam oferecendo para quem quer poupar: planos de contribuição definida (CD).
Na fase de acumulação, o participante sabe mais ou menos o que fazer:
poupar todo mês o máximo que o orçamento permitir,
escolher o perfil de investimentos mais adequado,
acompanhar o saldo na medida que vai crescendo,
torcer para a rentabilidade ser boa.
Na fase de desacumulação, ele precisa tomar decisões muito mais difíceis:
quanto sacar mensalemente?
com que reajuste para compensar a inflaçāo?
em qual sequência?
assumindo qual risco de mercado no investimento do saldo acumulado?
qual risco de longevidade, por quanto tempo a mais deverá viver?
qual o risco de precisar gastar mais com saúde?
Os fundos de pensāo tratam seus participantes assim:
“Parabéns, você juntou dinheiro. Agora resolva sozinho o problema mais difícil da sua vida financeira”.
Isso precisa mudar!
O Reino Unido já percebeu isso com clareza. O debate sobre “guided retirement solutions” (ver esses artigos que publiquei semana passada: aqui e aqui) parte justamente da constatação de que os aposentados não precisam apenas de produtos.
Os aposentados precisam de caminhos, precisam de soluções-padrão, de orientação, de simulações permanentes, de comunicação simples e de desenho de produtos e soluçōes institucionais que transformem saldo acumulado em renda segura.
O aposentado não quer uma aula de estatística atuarial. Ele quer saber se pode trocar os moveis da sala, ajudar o neto, viajar de vez em quando e ainda assim, dormir tranquilo.
No Brasil, o desafio é silencioso. Dados oficiais mostram que a previdência complementar já paga mais de R$ 100 bilhões por ano em benefícios, sendo a maior parte no segmento fechado, fundos de pensāo.
Só que boa parte desses pagamentos ainda vem de planos de benefício definido (BD), que carregam uma lógica mais antiga: a renda pinga mensalmente, como um salário que nunca acaba.
Nos planos CD e CV, que dominam a cena da previdencia complementar no mundo todo, fica com o participante toda a responsabilidade sobre decisões que a maioria das pessoas não está preparada para tomar sozinha.
A inferência para o Brasil é preocupante. Se em um mercado mais maduro, com maior oferta de produtos, mais tradição de suporte ao participante e maior orientação previdenciária, 38% dos aposentados já reduzem gastos por medo de consumir o próprio saldo, é razoável imaginar que, entre brasileiros em planos CD, esse percentual seja igual ou maior.
Pode não apareça nas estatísticas, porque aqui o problema costuma ser tratado como “escolha individual”, mas o nome correto é outro:
Na previdência complementar brasileira, a arquitetura de produtos e soluçōes de desacumulação é inexistente, falta (por culpa do governo que nada faz sobre isso) um mercado de anuidades e seguradoras simplesmente nāo cumprem seu papel econômico de intermediários de risco (que venham as seguradoras estrangeiras).
O Brasil precisa parar de tratar a data da aposentadoria como uma linha de chegada. Ela é, na verdade, uma nova etapa de gestão de renda futura, risco e comportamento.
Os fundos de pensão deveriam oferecer, no mínimo, trilhas de retirada, rendas programadas inteligentes, opções de renda vitalícia diferida (a partir dos 70, 80 anos), simulaçōes ilustrativas, alertas de esgotamento do saldo remanescente e acompanhamento periódico do aposentado.
Não basta entregar um extrato periódico, é preciso entregar confiança.
Falamos muito, na previdência complementar, em longo prazo. Mas o longo prazo, para o aposentado, chega todo mês na forma de boleto, remédio, supermercado, plano de saúde, gastos familiares e vontade de viver um pouco melhor.
Acumular foi só a primeira metade da história, a segunda metade é ajudar o participante a usar o dinheiro com segurança, dignidade e com prazer.
Uma previdência complementar que ensina a poupar, mas não ensina a gastar, entrega apenas meia aposentadoria.
A pesquisa da Corebridge ouviu 2.210 adultos de 45 a 79 anos com ao menos US$ 100 mil em ativos investíveis, descobriu que
Meros 28% se sentem confortáveis em reduzir o patrimônio para pagar seus gastos durante a fase de aposentadoria,
70% consideram muito importante preservar o saldo,
38% gastaram menos do que gostariam para manter o patrimônio, e
Só 29% dos pré-aposentados com 55 anos ou mais têm um plano de retiradas.
No Brasil os benefícios pagos pela previdência complementar chegaram a R$ 103 bilhões no acumulado em 12 meses até junho/2025 (fonte: RGPC 2ºSem./2025).
O problema: nas EFPC os planos BD respondem por 68% dos pagamentos, enquanto CDs e CVs somam pagametos de aposentadoria da pequena parcela restante.
Um estudo do Ipea sobre previdência complementar no Brasil afirma que a oferta de produtos vitalícios é escassa e pouco estimulada, e propõe renda vitalícia para idade avançada como alternativa para proteger contra risco de longevidade.
O que falta? Uma combinação de produtos e soluçōes financeiras mais complexas.
Grande abraço,
Eder.
Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “Lack of withdrawal strategies forces 38% of retirees to cut back on spending”, escrito por Alan Goforth.
Disclaimer: Esse artigo foi escrito com uso de IA, baseado em prompts do autor, em sua profunda experiencia profissional e nas informações das fontes citadas.
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