De Sāo Paulo, SP.
Varias iniciativas estão surgindo agora nos EUA, Itália e Alemanha e existe uma coincidência interessante, uma ideia que defendo há anos:
“Parar de pensar a previdência como algo que se inicia quando a pessoa consegue o primeiro emprego” — está começando a aparecer como política pública em vários países.
Há muitos anos venho refletindo sobre um conceito bastante simples:
Por que a previdência tem que começar só quando começamos a trabalhar? Por que a poupança para a velhice continua atrelada ao trabalho?
Parece uma discussāo meio estranha, afinal, uma criança não trabalha, não recebe salário e muito menos está preocupada com aposentadoria.
Justamente por isso.
Nossos sistemas previdenciários foram construídos em torno do emprego. A pessoa começa a trabalhar, passa a contribuir para a Previdência Social e, eventualmente, adere a um plano de previdência complementar.
Ei pessoal, o mundo mudou!
Vivemos cada vez mais;
Acrescentamos décadas à expectativa de vida; e
Estamos desesperadamente discutindo como financiar esses anos adicionais.
Aumentamos indefinidamente a idade de aposentadoria num processo que trata apenas a consequência, sem tocar na causa do problema.
Mudamos regras de benefícios, elevamos contribuições, reduzimos benefícios. refazemos cálculos atuariais, mas toda essa discussão olha para um único lado da vida
E se olhássemos para o outro lado?
Olhando para o lado errado o tempo todo
Imagine a vida financeira como uma linha do tempo:
Nascimento → 25 anos (começa a trabalhar) → 65 anos (se aposenta) → 90 anos (fim)
A longevidade esticou brutalmente essa linha do lado direito. O sujeito, que antes precisava financiar 10, 15 anos de período de aposentadoria, precisa financiar hoje 25, 30, 35 anos.
Só que continuamos deixando praticamente intactos os primeiros 20 ou 25 anos de vida ao nascer, do lado esquerdo da linha do tempo.
Uma criança nasce hoje e, salvo a iniciativa individual de pais ou avós, poderá passar duas décadas ou mais sem acumular um único centavo especificamente para sua aposentadoria.
É um gigantesco desperdício de tempo.
Quando falamos de investimentos de longo prazo, tempo é patrimônio. Ou seja, R$ 1 investido aos cinco anos de idade não é financeiramente equivalente a R$ 1 investido aos 50.
O dinheiro é o mesmo. O tempo que acompanha aquele dinheiro não é.
Tio Sam acaba de colocar essa ideia em pratica
Em julho passado, começaram a funcionar nos EUA as chamadas Trump Accounts, previstas na Section 530A do código tributário americano.
Independentemente da simpatia ou antipatia pelo nome — a ideia é muito mais interessante do que a política em torno dela.
São contas individuais de aposentadoria, no estilo CD, criadas para menores de 18 anos. Para crianças americanas elegíveis nascidas entre 2025 e 2028, o Tesouro americano deposita US$ 1.000 (uns R$ 5.000) como capital inicial.
As contribuições começaram a ser permitidas em 4 de julho de 2026.
Durante a fase de crescimento da criança, há um limite anual de US$ 5.000 para determinadas contribuições para essa conta, além de categorias de aportes que recebem tratamento específico.
O conceito por trás disso é poderoso:
A criança começa sua vida já com uma conta de investimento de longo prazo.
Não aos 25 anos de idade, não quando conseguir o primeiro emprego, não quando o RH da primeira empresa fizer uma apresentação sobre o plano de previdência complementar, mas … ao nascer.
A Italia passa a olhar na mesma direçāo
Agora mesmo em am agosto, o governo italiano revelou que estuda criar um fundo previdenciário para cada criança, desde o nascimento.
A proposta prevê um pequeno aporte inicial do governo, que posteriormente poderia receber contribuições dos pais, familiares e mais tarde, do próprio beneficiário.
Segundo a ministra do trabalho italiana, Marina Calderone, o projeto está sendo analisado como uma forma de colocar a previdência em funcionamento desde o início da vida. A proposta conta também com apoio do INPS, o Instituto Nacional de Previdência Social italiano.
A Itália não está sozinha.
A Alemanha aprovou, também agora no mês de agosto, um projeto chamado Frühstart-Rente, algo como “Pensão de Início Precoce”.
O modelo prevê aportes públicos mensais de €$ 10,00 em contas de investimento destinadas à aposentadoria de crianças e jovens entre 6 e 17 anos, permitindo também contribuições voluntárias das famílias.
Estados Unidos, Alemanha, Itália, estamos assistindo ao começo de uma mudança muito maior na maneira como pensamos previdência.
Poupar para a velhice deveria estar dissociado do crachá
Esse é um assunto sobre o qual venho provocando o setor há bastante tempo. Nosso modelo previdenciário nasceu em um mundo no qual a vida era organizada ao redor do trabalho:
Você nascia;
Estudava;
Entrava numa empresa;
Construía uma carreira;
Contribuía durante 30 ou 40 anos;
Se aposentava; e
Morria alguns anos depois.
Essa sequência está sendo desmontada.
Carreiras são descontínuas;
Pessoas passam períodos trabalhando por conta própria;
Mudam constantemente de empregador;
Trabalham para plataformas de Internet;
Criam empresas;
Tornam-se freelancers;
Trabalham no Brasil para empresas localizadas do outro lado do planeta.
… e num futuro nāo tāo distante, teremos cada vez mais renda produzida com participação de máquinas e Inteligência Artificial.
Por que, então, o nascimento de nossa poupança previdenciária continua dependendo do nascimento de nossa relação de emprego?
Os 25 anos que jogamos fora
Façamos uma conta apenas ilustrativa.
Imagine que uma criança receba somente R$ 100 por mês desde o nascimento - quando a receita federal brasileira a obriga a tirar um CPF, de olho nos impostos, nāo no futuro da crianca.
Considere uma rentabilidade real de 5% ao ano.
Aos 25 anos, a criança teria acumulado aproximadamente R$ 59 mil em dinheiro de hoje. Agora, vem a parte interessante.
Suponha que esse jovem nunca mais colocasse um único real nessa reserva. Zero. Apenas deixasse aqueles cerca de R$ 59 mil investidos até os 65 anos, mantendo os mesmos 5% de retorno real a cada ano.
Chegaria lá com algo próximo de R$ 415 mil em valores de hoje. Tudo originado por modestos R$ 100 mensais, depositados somente durante os primeiros 25 anos de vida.
É claro que isso é apenas uma simulação matemática. Rentabilidade não é constante, existem custos, impostos, riscos e inúmeras outras variáveis, mas o princípio permanece o mesmo.
O maior ativo previdenciário de uma criança não é dinheiro, é tempo e estamos desperdiçando esse ativo.
Uma ideia que lancei dois anos atrás
Em fevereiro de 2024 escrevi aqui mesmo sobre a criação da Conta POUPE — Poupança para Educação.
Minha provocação naquela época era ampliar o conceito tradicional de previdência complementar e permitir que fundos de pensão administrassem contas constituídas pelos pais em benefício dos filhos, inspiradas nos Planos 529 americanos.
A ideia incluía algo particularmente importante: permitir que o saldo remanescente fosse posteriormente transferido para a previdência do próprio beneficiário.
Ou seja, começaríamos a construir patrimônio muito antes do primeiro emprego.
Mais recentemente, ao discutir marcas e crescimento dos fundos de pensão, voltei ao mesmo ponto por outro caminho:
Se realmente pretendem conquistar pessoas físicas, os fundos de pensāo deveriam estar presentes nos grandes acontecimentos da vida financeira das famílias.
Hora de juntar essas ideias.
Se todo brasileiro nascesse com uma conta de previdencia?
Imagine algo simples.
Ao nascer e receber seu CPF (obrigatório), cada brasileiro teria automaticamente criada em seu nome uma Conta de Previdenciária Individual.
Ela poderia começar com um pequeno aporte do governo. Não precisa ser uma fortuna, digamos R$ 500 ou R$ 1.000.
Talvez valores maiores para crianças de famílias de baixa renda.
Pais poderiam contribuir, avós poderiam contribuir, padrinhos poderiam contribuir, tios poderiam contribuir, empresas poderiam contribuir.
Programas sociais poderiam direcionar pequenos valores dos impostos. Estados e municípios poderiam criar incentivos.
Quando o jovem começasse a trabalhar, a conta simplesmente continuaria existindo.
O emprego entraria na previdência da pessoa, a pessoa não precisaria entrar na previdência do emprego.
Essa inversão parece pequena, mas mudaria radicalmente a arquitetura do sistema de previdencia social e complementar. A conta acompanharia o indivíduo do nascimento à morte:
Empregos passariam;
Empresas passariam;
Bicos passariam;
Profissões desapareceriam;
Novas formas de trabalho surgiriam.
A conta de previdencia permaneceria.
Uma consequência ainda mais importante
Esse novo modelo mudaria a relação psicológica das pessoas com a previdência e poupança de longo prazo.
Hoje estamos tentando convencer um jovem de 25 anos a começar a pensar em alguma coisa que acontecerá aos 65.
Boa sorte!
Uma criança que cresce sabendo que possui patrimônio investido em seu nome, provavelmente desenvolverá uma relação diferente com dinheiro, poupança, investimento e propriedade.
A previdência deixaria de aparecer repentinamente numa palestra do RH aos 25 anos e passaria a fazer parte da arquitetura financeira da vida, desde o seu começo.
Não seria apenas uma conta de poupança. Seria também educação financeira incorporada ao próprio sistema.
Os juros compostos adoram crianças
Celebramos cada novo avanço da medicina que acrescenta anos às nossas vidas e, imediatamente depois, os atuários aparecem dizendo: “Temos um problema.”
Vivemos demais …;
Precisamos de mais dinheiro;
Precisamos trabalhar mais;
Precisamos contribuir mais;
Precisamos nos aposentar mais tarde.
Mas existe outra possibilidade.
Se acrescentamos 20 ou 30 anos na ponta final, nas idades mais avançadas da vida, deveríamos aproveitar melhor os 20 ou 25 anos que continuamos desperdiçando na ponta inicial.
Os juros compostos têm uma característica maravilhosa: eles adoram crianças.
Quanto mais cedo você entrega dinheiro para eles, mais tempo eles têm para trabalhar. Os Estados Unidos começaram. A Alemanha está avançando. A Itália está estudando.
Enquanto isso, no Brasil, continuamos discutindo como convencer alguém a aderir a um plano de previdência depois de entrar numa empresa.
Daqui a alguns anos, nossos políticos vāo descobrir que:
A maior inovação previdenciária deste século não foi aumentar a idade de aposentadoria;
Foi algo muito mais simples;
Foi diminuir a idade de entrada para zero;
Previdência do nascimento à morte, literalmente.
Grande abraço,
Eder.
Opiniōes: Todas minhas | Fontes: “Trump Accounts”, website do governo dos EUA; e “Itália estuda fundo de pensão para crianças desde o nascimento”, publicado no Investidor Institucional.
Disclaimer: Esse artigo foi escrito com uso de IA, baseado em prompts do autor, em sua profunda experiencia profissional e nas informações das fontes citadas.




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