De Sāo Paulo, SP.
O sistema de fundos de pensāo, no Brasil e no mundo, está passando por uma espécie de “rouba-monte”
Os fundos de pensāo maiores perceberam que podem ganhar escala incorporando a administração de planos e fundos menores.
Um fundo transfere seu plano para o outro, que passa a administrar maior patrimônio e mais quantidade de participantes, teoricamente, diluindo seus custos fixos.
Faz sentido.
O problema é apostar nessa estratégia de eficiência operacional, como estratégia de sobrevivência de todo o sistema de previdencia complementar corporativa.
Consolidar fundos de pensão não cria, necessariamente, novos participantes. Em grande parte, apenas muda os mesmos participantes que já existem, de endereço.
É como rearrumar as cadeiras no deck do Titanic.
As cadeiras ficam mais organizadas, tudo bonitinho, enquanto o navio continua navegando na mesma direção, com um iceberg à frente.
O rouba-monte tem data para terminar
Os números oficiais de Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC) no Brasil mostram que:
Em 2006, existiam 370 EFPC no país;
Em 2016 eram 307 EFPC;
Em 2025 restavam 265.
A tendência é bastante clara.
Os fundos maiores disputam os planos dos menores porque conseguem oferecer escala, estruturas administrativas mais robustas e custos unitários potencialmente menores.
Essa lógica não é exclusivamente brasileira.
No Reino Unido, por exemplo, o número de planos ocupacionais (previdencia complementar corporativa) do modelo CD e híbrido, excluindo os muito pequenos, caiu de 920 em 2024 para 790 em 2025 — redução de 15% em apenas um ano.
O próprio regulador britânico The Pensions Regulator, estuda os ganhos decorrentes da escala e da consolidação.
Só que existe um detalhe quase óbvio:
O estoque de fundos para consolidar é finito.
Depois que o Fundo A incorpora o B, o C e o D, esses três deixam de existir. É um mercado no qual cada negócio realizado, reduz o tamanho do mercado
Portanto, consolidação pode aumentar escala, mas dificilmente constitui uma estratégia permanente de crescimento no tempo.
Estamos consolidando o passado
Há um outro problema com a consolidaçāo, ainda mais importante.
Transferir participantes de um fundo pequeno para um grande não os torna mais jovens.
Aqui surge o maior de todos os desafios, um problema estrutural da previdência complementar fechada brasileira.
Em 2025, os fundos de pensão receberam aproximadamente R$ 65 bilhões em contribuições e pagaram R$ 104 bilhões em benefícios previdenciários. (Serviços e Informações do Brasil)
Para cada R$ 1 entrando nos planos de previdencia complementar corporativos em contribuições, cerca de R$ 1,60 estavam saindo em benefícios.
Isso não significa que o sistema está insolvente — são conceitos completamente diferentes — mas revela algo importante sobre o estágio de maturidade do sistema.
Estamos administrando uma gigantesca máquina de pagamento de benefícios construída principalmente para atender as gerações anteriores.
Em outras palavras, consolidar dois fundos de pensāo maduros não produz um fundo de pensāo jovem, produz apenas um fundo maduro ainda maior.
O curioso fenômeno dos jovens atuais
Os jovens não desistiram de poupar para o futuro, eles começaram a fazer isso mais cedo do que todas as geraçōes anteriores.
Pesquisa da Transamerica encontrou uma idade mediana extraordinariamente baixa para o início da poupança previdenciária dos jovens de hoje:
A Geração Z começa a poupar aos 19 anos, contra …
… aproximadamente 25 anos entre Millennials …
… cerca de 30 entre integrantes da Geração X; e
35 entre os Baby Boomers, em levantamentos anteriores.
Entre os jovens da Gen Z que participam de planos 401(k), a contribuição mediana chegou a 20% da remuneração naquele levantamento. (Default)
Pesquisas mais recentes continuam apontando na mesma direção.
Em 2025, a Transamerica encontrou 76% dos trabalhadores da Gen Z poupando para aposentadoria, dentro ou fora do ambiente de trabalho começando, em media, aos 20 anos de idade.
A Vanguard estima que Gen Z e Millennials podem chegar à aposentadoria em condições melhores do que gerações anteriores justamente pela combinação de início mais cedo e melhores mecanismos de acumulação. (Vanguard)
Ou seja, os fundos de pensāo nāo estāo diagnosticando o problema certo:
Não existe uma geração que não quer poupar. Existe uma geração que não quer poupar dentro das estruturas que construímos no século passado.
O problema é levar a previdência até o jovem
Dados do Raio X do Investidor Brasileiro 2025, da ANBIMA/Datafolha, mostram que os brasileiros entre 16 e 29 anos possuem comportamento de investimento diferente das gerações anteriores:
Usam menos a tradicional caderneta de poupança,
Diversificam mais; e
Buscam informações sobre investimento e poupança, predominantemente, em canais digitais.
Apenas 13% investiam na poupança tradicional, contra 27% entre integrantes da Geraçāo X e Baby Boomers. (InfoMoney)
Percebe-se uma transformação ainda mais profunda acontecendo. Para Gen Z e Millennials:
A vida financeira está deixando de acontecer dentro de uma instituição, ela acontece dentro de aplicativos.
Pesquisa da Deloitte publicada em 2026 mostra que esses jovens apresentam maior propensão a trocar de banco e utilizam diferentes aplicativos para pagamentos, investimentos, orçamento e outras necessidades financeiras.
Quase 70% dos Millennials e integrantes da Gen Z pesquisados já haviam autorizado bancos a compartilhar seus dados com outros provedores financeiros. (Deloitte)
Isso muda completamente a discussão sobre previdência complementar.
O futuro não está em convencer alguém a entrar em uma instituição aos 25 anos, contribuir mensalmente durante 40 anos e somente reencontrar aquele dinheiro aos 65 anos de idade.
É preciso desvincular previdência de trabalho
Durante todo o Século XX fizemos uma associação quase automática:
Emprego → salário → contribuição → aposentadoria.
Só que o trabalho mudou.
Carreiras são descontínuas, pessoas trabalham simultaneamente para várias empresas, criadores de conteúdo, freelancers, motoristas de aplicativos, empreendedores e profissionais independentes transitam entre diferentes fontes de renda, inconstante e nāo previsiel.
Tentar resolver essa nova realidade simplesmente trazendo trabalhadores de aplicativos e pessoas de baixa renda para dentro do modelo de previdencia complementar corporativa existente, não vai resolver o problema estrutural.
Da mesma forma, tornar a previdência complementar compulsória, pode aumentar estatisticamente o número de participantes.
Tudo isso, porém, nāo muda o desafio estrutural do sistema resumido numa pergunta:
Por que a poupança de longo prazo precisa continuar vinculada ao trabalho e ao emprego?
… e se a previdência estivesse vinculada ao consumo?
Imagine:
Comprar um cafezinho por R$ 12 e automaticamente R$ 0,12 serem destinados à sua poupança de longo prazo;
Abastecer o carro: R$ 200 para o posto e + R$ 2 para seu futuro;
Comprar uma passagem aérea: cashback automaticamente investido;
Receber pagamento por um trabalho no aplicativo: pequena parcela direcionada instantaneamente para sua reserva;
Pagar uma conta, fazer uma transferência, usar cartão, fazer um PIX.
Cada pequena transação financeira cotidiana geraria uma micropoupança
Não seria necessário lembrar de “fazer previdência”, a previdência estaria embutida na nossa vida cotidiana.
Aqui entram inteligência artificial, tokenização, ativos digitais, smart contracts e outras tecnologias capazes de reduzir a fraçōes de um centavo o custo de processar pequenas transações.
A unidade econômica da previdência deixaria de ser - exclusivamente - uma contribuição mensal fixa, descontada de um salário mensal na folha de pagamentos.
Passaria a ser cada transação financeira realizada ao longo do dia, todos os dias da vida.
Quanto tempo resta para o “rouba-monte”?
É impossível estabelecer uma data precisa … mas, podemos fazer um exercício.
O Brasil possuía 370 EFPC em 2006 e chegou a 265 em 2025. Ao mesmo tempo, a pressão por escala aumentou e o movimento internacional aponta na mesma direção.
Minha aposta?
Estratégias de consolidaçāo tem entre cinco e dez anos.
Por volta de 2031–2036, boa parte das EFPC (fundos de pensāo) menores, economicamente atraentes para consolidação, terāo sido incorporadas, transferido seus planos ou encontrado outro arranjo.
Não significa que não existirão mais consolidações.
Significa que consolidação deixará progressivamente de ser uma avenida suficientemente larga para sustentar o sistema de fundos de pensāo.
Em alguns mercados / países desenvolvidos esse momento poderá chegar antes. Em outros, um pouco depois.
Sistemas como Reino Unido, Holanda e Austrália estão bem avançados no processo de concentração. Mas a matemática é inexorável:
Não é possível consolidar infinitamente um número finito de entidades.
O futuro nāo se parecerá com o passado
Começa aqui uma especulação interessante.
O grande fundo de pensão de 2040 não será uma instituição que administra, simplesmente, planos de aposentadoria.
Será uma plataforma dinâmica de poupança e de gastos ao longo da vida.
Uma infraestrutura capaz de receber dinheiro de qualquer origem e a qualquer tempo — emprego, trabalho independente, consumo, herança, renda de investimentos, micropoupanças automáticas, transferencias financerias.
O participante poderá manter diferentes “cofres” financeiros, voltados para:
Emergência;
Projetos de curto prazo;
Educação;
Compra de moradia;
Projetos de médio prazo;
Gastos com saúde;
Longevidade e aposentadoria.
Uma inteligência artificial vai ajustar, continuamente, quanto deve ir para cada objetivo, conforme renda, idade, patrimônio, comportamento de consumo e expectativa de vida / longevidade.
O veiculo de poupança, a instituição de investimento, o fundo de pensāo, deixará de perguntar:
“Como atrair mais participantes para nossos planos?”
E passará a perguntar:
“Como nos tornamos a infraestrutura financeira que acompanhará as pessoas durante toda a vida?”
É uma mudança de modelo de negócio.
Consolidar é meio, nāo o fim em si
Não há nada errado com consolidação.
Fundos pequenos, economicamente inviáveis, devem mesmo buscar escala para sobreviver, devem compartilhar estruturas, transferir planos e reduzir custos administrativos, isso é absolutamente racional.
O problema, o erro, está em confundir melhorar eficiência com crescer.
Mover participantes de um lugar para outro melhora a eficiência do sistema, aumenta o Tamanho das entidades isoladamente, não aumenta o tamanho do sistema.
Enquanto os fundos de pensāo disputam entre si quem ficará com os participantes existentes, uma geração inteira de “participantes” está aprendendo a poupar, investir e organizar sua vida financeira … em outro ecossistema de poupança.
No Titanic, o problema nunca foi a posição das cadeiras no passadiço. O problema era perceber o iceberg a tempo de mudar a direção do navio.
Grande abraço,
Eder.
Opiniōes: Todas minhas.
Disclaimer: Esse artigo foi escrito com uso de IA, baseado em prompts do autor, em sua profunda experiencia profissional e nas informações das fontes citadas.





Nenhum comentário:
Postar um comentário