De Sāo Paulo, SP.
Começamos esta série fazendo uma pergunta meio insolente para atuários tradicionais do setor de previdência complementar corporativa e seguros:
Fundos de pensão também morrem?
Entāo, criamos uma tábua atuarial experimental e em seguida aplicamos o primeiro screening a 18 entidades fechadas de previdencia complementar.
Nesse último artigo fechando a série, demos o passo mais trabalhoso:
Colocamos na base do estudo os 239 fundos de pensāo da segmentação das EFPC publicada pela PREVIC para 2027; e
Começamos a reconstruir a história dos fundos que deixaram de existir desde a publicaçāo da Lei Complementar 109/2001.
Foi justamente aí que apareceu a conclusão mais importante de toda essa série de artigos. Eu poderia publicar hoje uma tabela com 239 nomes de fundos de pensāo e um número ao lado de cada um deles, com duas casas decimais e aparência científica.
Não vou, porque isso poderia parecer um estudo atuarial, mas ainda não seria atuária séria de verdade.
O universo dos 239 fundos de pensāo está montado
A Portaria PREVIC nº 661/2026 classifica, para fins de fiscalizaçāo em 2027, as 239 EFPC habilitadas, sendo 9 na categoria S1, 72 na S2, 89 na S3 e 69 na S4.
A classificação da PREVIC utiliza porte e cinco componentes de complexidade, com pesos próprios definidos.
Esse universo já está incorporado à PF-BRA_2026. Cada entidade agora possui uma linha na base-mestre e será ligada, ao longo da reconstrução, à:
Observações históricas da evolçāo do patrimônio;
População e suas características demográficas;
Maturidade no pagamento de beneficios vs recolhimento de contribuiçōes,
Custos de administraçāo e gestāo finaneira;
Patrocinadoras e tendências nos respectivos segmentos econômicos;
Tipos de plano; e
Eventos estruturais.
É uma mudança importante. A PF-BRA deixa de ser uma seleção de candidatos e passa a ser uma projeçāo populacional.
Começamos a “ouvir os mortos”
O Cadastro de EFPC da PREVIC é especialmente valioso, porque registra data e motivo do encerramento das atividades dos fundos de pensāo que “morreram”.
Ele mostra, por exemplo, EFPC encerradas por:
Iniciativa própria;
Incorporação com outra EFPC; e
Liquidação, pura e simples.
Essa distinção muda tudo.
Uma incorporação foi o evento que nos levou a estudar a morte dos fundos de pensāo. Liquidação é uma outra espécie de morte e deve ser tratada como competing risk. Encerramento de atividades ‘por iniciativa da EFPC’, exige investigação adicional: pode até decorrer de consolidação, mas não podemos presumir isso.
Na primeira reconstrução já aparecem FACEPI e FAPA encerradas por incorporação; Rocheprev, Mercaprev, Bristol-Myers, Previleaf, PrevPisa e outras, encerradas por iniciativa da EFPC e casos como CEPLUS e PARSE encerrados por liquidação. A PF-BRA não deve misturar essas histórias.
Primeira descoberta: ainda nāo temos pesos empíricos
Isso parece frustrante, mas na verdade, é um avanço.
Os pesos da PF-BRA Experimental eram hipóteses — 15% para escala; 20% para custo administrativo … — para substituí-los por pesos observados, precisamos saber como eram essas entidades antes de serem consolidadas.
Não basta conhecer ‘quem morreu’. Precisamos conhecer idade, patrimônio, população, fluxo, custos, patrocinadores e planos em cada ano em que esteve o fundo de pensāo esteve exposto ao risco.
Em linguagem atuarial: precisamos construir os denominadores, não apenas contar os óbitos.
Por que nāo se pode apenas comparar 2001 com 2006?
Porque fundos também nascem.
Comparar a quantidade de EFPC em 2001 com a quantidade atual mistura encerramentos, novas entidades, fusões, incorporações e mudanças cadastrais.
Seria equivalente a tentar construir uma tábua de mortalidade humana comparando a população do Brasil em dois censos sem conhecer nascimentos, mortes e migrações.
A unidade correta é EFPC-ano e cada entidade contribui com exposição enquanto está viva e independente.
A PF-BRA real será um modelo de sobrevivência
A especificação agora está fechada.
O modelo principal será uma sobrevivência em tempo discreto, usando dados anuais e covariáveis defasadas. Em paralelo, testaremos Cox com covariáveis dependentes do tempo e modelos de competing risks.
Os pesos serão consequência dos coeficientes que melhor explicarem os eventos fora da amostra. Por exemplo:
Se patrimônio não explicar nada, seu peso cairá.
Se custo administrativo dominar a previsão, seu peso crescerá.
Se a queda de participantes ativos for a variável decisiva, a PF-BRA terá de admitir que nossa intuição inicial estava incompleta.
É assim que a pesquisa deve funcionar:
Os dados têm direito de contrariar a tese.
O que vai entrar no modelo?
Escala patrimonial e populacional;
Proporção entre assistidos e ativos;
Benefícios pagos versus contribuições recolhidas;
Evolução da população;
Despesa administrativa por participante e sobre ativos;
Número e concentração de patrocinadores;
Quantidade e modalidade dos planos;
Contingências;
Fluxo previdenciário;
Setor econômico; e
Operações estruturais.
Há uma cautela importante: não usaremos a classificação S1-S4 como se ela existisse desde 2001. Essa segmentação começou recentemente.
Sempre que possível, reconstruiremos seus componentes originais. Isso evita um dos erros mais comuns em modelos preditivos:
Trazer informação do futuro para o presente, como se o futuro fosse repetiçāo do passado.
Treinamento, prova e teste - como se fosse um modelo de IA
A proposta é treinar o modelo com dados de 2001-2018, calibrar com dados de 2019-2022 e deixar 2023-2026 intocado para o teste final.
Depois perguntaremos:
Entre os fundos de pensāo que o modelo classificou como mais expostos, quantos realmente sofreram consolidação?
E entre aqueles classificados como sobreviventes, quantos permaneceram independentes (atuando isoladamente)?
Não basta acertar ranking. A probabilidade precisa ser calibrada. Se dissermos 20%, aproximadamente um em cada cinco casos semelhantes precisa efetivamente apresentar o evento no horizonte correspondente.
Quando teremos q1, q3, q5 e q10?
Quando merecermos tê-los.
q1 será a probabilidade condicional de perder independência no próximo ano;
q3, q5 e q10 serão probabilidades acumuladas nos respectivos horizontes de tempo, derivadas da curva de sobrevivência.
Até a reconstrução histórica estar pronta, as colunas permanecem deliberadamente vazias na base. Acho isso muito mais poderoso do que preencher células com números bonitos que não foram estimados.
Uma tábua que pode ser replicada - e criticada
Também separei a metodologia em um documento próprio, quem tiver interesse me peça por DM (mensagem direta).
A ideia é que qualquer pesquisador, entidade, consultoria ou universidade possa reproduzir o processo, questionar a classificação dos eventos, testar outras covariáveis e chegar a resultados diferentes.
Se a PF-BRA depender de acreditar em quem a criou, ela fracassou. Uma tábua de mortalidade de fundos de pensāo precisa depender de dados, regras públicas e capacidade de reprodução independente.
O que mudou entre o primeiro e o quarto artigo
No primeiro, olhávamos para pequenos fundos de pensāo e perguntávamos quem poderia ser consolidado.
No segundo, maginamos a criaçāo de uma tábua atuarial comrigor tecnico.
No terceiro, criamos um score experimental.
Nesse quarto artigo fechando a serie, descobrimos algo mais importante:
Para transformar a brincadeira inicial em ciência, precisamos estar dispostos a abandonar o próprio PFM score que criamos inicialmente.
A PF-BRA_2026 v0.3 já contém as 239 EFPC, o registro inicial de eventos históricos, o mapa das fontes e a especificação do modelo atuarial.
Mas ainda não vende uma certeza que não possui.
Fechando a série por aqui
Fundos de pensão trabalham com horizontes de décadas. Seria estranho criar uma ferramenta sobre a sobrevivência dessas instituições com a pressa de algumas horas.
A pergunta original continua de pé:
Qual é a expectativa de vida institucional de um fundo de pensão?
Só que, agora, sabemos como responder.
Precisamos acompanhar cada EFPC ao longo do tempo, medir sua exposição ao risco de morte, observar o evento, separar consolidação de outras formas de encerramento de fundos de pensāo e deixar o modelo descobrir quais características realmente antecipam a perda de independência.
Quando isso estiver feito, a PF-BRA deixará de ser uma metáfora atuarial analítica e passará, efetivamente, a ser uma tábua atuarial.
A liçāo mais valiosa desse processo todo nāo é o que ele nos ensina sobre quem vai desaparecer. O maior valor desse processo é entender porque alguns fundos pequenos conseguem sobreviver por décadas — enquanto outros, muito maiores, descobrem que já não conseguem existir sozinhos.
Nota final
A PF-BRA_2026 não mede solvência, competência, governança ou qualidade de um fundo de pensāo (EFPC). Seu único evento de interesse é a perda de independência institucional que leva à consolidação (morte da entidade).
Nenhuma entidade deve ser interpretada como estando em negociação ou em risco de encerramento de atividades apenas por sua segmentação ou por um score experimental como os modelados pela PF-BRA_2026.
Grande abraço,
Eder.
Opiniōes: Todas minhas | Fontes e referências: abaixo.
Disclaimer: Esse artigo foi escrito com uso de IA, baseado em prompts do autor, em sua profunda experiencia profissional e nas informações das fontes citadas.
Fontes e Referencias
PREVIC — Segmentação das EFPC para 2027
https://www.gov.br/previc/pt-br/noticias/previc-atualiza-segmentacao-das-entidades-fechadas-de-previdencia-complementar-para-2027
Cadastro EFPC 2025-12
https://www.gov.br/previc/pt-br/previdencia-complementar-fechada/cadastro-dirigentes/2025/cadastro-efpc-2025-12/view
RGPC
https://www.gov.br/previdencia/pt-br/assuntos/previdencia-complementar/rgpc/relatorio-gerencial-de-previdencia-complementar/
PREVIC — Transferência de Gerenciamento
https://www.gov.br/previc/pt-br/licenciamento-e-habilitacao/entidades-planos-e-patrocinadores/transferencia-de-gereciamento




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