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sábado, 23 de março de 2019

As consequências da telepatia e minha mensagem telepática a todos: Poupem para a aposentadoria






De São Paulo, SP.

Estou indo para o Rio de Janeiro pela Dutra como tenho feito regularmente ao longo dos últimos 26 anos. Minha esposa está lá e estou indo buscá-la

Subitamente, ao desviar de um animal na pista, sou envolvido em um acidente. Meu carro está virado, as rodas para cima, escondido sob a vegetação do barranco ao lado da estrada. É tarde da noite e os poucos carros que passam pela estrada não são capazes de me enxergar.  

Os serviços de emergência da NovaDutra captaram meu pedido de socorro e estão enviando ajuda, ainda que em meio ao meu estado de pânico, eu apenas tenha pensado nisso, pois além de estar sem bateria meu celular está perdido em algum lugar do carro.

Tem mais, ouço uma voz de fundo em minha mente dizendo para eu permanecer calmo, mas estranhamente não é a minha própria voz. É a voz da operadora do serviço de emergência.
Que diabos aconteceu? Telepatia. Nosso futuro pode ser assim? Pode! Se a comunicação cérebro-a-cérebro for desenvolvida.
Comunicação cérebro-a-cérebro
Numa realidade que é hoje apenas ficção científica, nano dispositivos digitais posicionados em nossos cérebros, transformariam os impulsos elétricos dos nossos neurônios em sinais, que seriam transmitidos para outras pessoas ou dispositivos.

Assim, nossos pensamentos, ideias e imaginações poderiam ser experimentados por mais alguém além de nós mesmos.    

Já existem tecnologias sendo desenvolvidas com objetivo de tornar possível a comunicação entre duas pessoas, simplesmente pelos pensamentos.

Essas novas tecnologias, ainda rudimentares, estão nos estágios iniciais de desenvolvimento. Estamos muito longe de transmitir frases completas apenas por pensamento, o que dirá transmitir uma conversa inteira na velocidade que falamos.

A tecnologia atual precisará ser miniaturizada, se tornar mais seguras e muito mai robusta, para que a telepatia se torne uma realidade.   

Além disso, precisaremos descobrir o que cada sinal do cérebro está dizendo – pode ser totalmente diferente de um cérebro para outro.

Sim, como todos sabemos, a tecnologia pode avançar muito rápido e existe um bando de empreendedores com muita grana já bancando essa ideia, dentre eles, Elon Musk e sua empresa NeuraLink.

Então, vamos imaginar que um dia a telepatia se torne realidade no nosso cotidiano. Como essa inovação na comunicação alteraria nossa vida da maneira que a conhecemos?

1. Inovação

Um dos pontos de inflexão na evolução humana foi a linguagem. A força por trás da inovação é a capacidade de partilhar as ideias — quanto mais as pessoas disseminam seu conhecimento, mais outras pessoas são capazes de aumentar e fazer esse conhecimento evoluir. No dia que pudermos pensar de forma coletiva, com todos conectados em uma rede gigante de mentes conjugadas, a velocidade com que a informação poderá ser criada, criticada e espalhada aumentará exponencialmente.

2. Coordenação

Atividades em equipe deverão se tornar mais estratégicas e coordenadas. No mundo militar, por exemplo, grandes contingentes de tropas dispersas poderão permanecer em contato, seguir ordens e compartilhar as notícias de forma instantânea entre todos. Da mesma forma, serviços de emergência serão capazes de responder a situações e coordenar esforços de modo mais eficaz.

No mundo dos esportes, os times que forem capazes de se comunicar em silêncio, transmitindo mensagens claras para as mentes de todos, conseguirão jogar melhor e seguir suas táticas de jogo. A vantagem é que o barulho da multidão de expectadores e a distância entre os jogadores não atrapalharão.

3. Silêncio

Começamos pintando as paredes das cavernas e progredimos lentamente para escrever, falar e hoje nos comunicamos pela Internet. Porém, ainda somos limitados por nossos dedos, conexões de WiFi, tamanhos de tela e duração de baterias. Se conseguirmos reduzir essas limitações a ponto de nos comunicarmos pelo pensamento, o que acontecerá com a linguagem? Continuaremos a usar nossas vozes quando estivermos face a face? Ou simplesmente recostaremos e pensaremos para frente e para trás? Fazer o ar passar pelos nossos pulmões, garganta e lábios requer um esforço e tanto.  Porque desperdiçar essa energia toda se podemos obter melhor resultado por meio dos pensamentos?

4. Internet das coisas

Enquanto nos preocupamos com comunicação cérebro-a-cérebro, a comunicação computador-a-computador está avançando. A comunicação, então, vai convergir para cérebro-a-computador. Isso significa que um dia você poderá ter conversas com a Siri no conforto da sua própria mente. Na medida em que a Inteligência Artificial por trás dessas assistentes de voz se tornar mais inteligente, acharemos a conversa com elas extremamente informativas e até educativas.

Nossa comunicação irá além da conversa telepática envolvendo uma assistente com acesso à Internet. 

Um dia sua mente será capaz de se comunicar com seu carro, sua TV, seu rádio relógio, com o termostato do seu ar-condicionado e até com o sistema de alarme da sua residência. Um dia sua mente poderá estar falando com sua casa ou pedindo para seu carro abrir a porta em um dia de chuva.  

5. Privacidade

Todos temos pensamentos que nunca deveriam ser expostos à luz do dia. Mas e se tais pensamentos se tornarem algo como os atuais e-mails, como garantir que não estarão sendo monitorados? Na área de segurança pública poderia ser benéfico, sendo mais fácil identificar psicopatas e terroristas através de seus pensamentos, mas quais de nós se sentiria confortável com esse tipo de vigilância?

6. Hackers

Ao invés de simplesmente espionar o que pensamos, poderiam potenciais hackers de mente usar essa tecnologia para infiltrar em nossos cérebros informações perigosas ou maliciosas? Seríamos mais facilmente convencidos por algo que surgiu como um pensamento, permitindo que fôssemos manipulados por terceiros? Indo mais além, poderia o dispositivo em nossos cérebros ser hackeado para permitir a transmissão não apenas da nossa linguagem? E se um dano real pudesse ocorrer, como apagar certas conexões ou deixar partes do cérebro offline?

7. Desconectar

Estamos disponíveis para comunicação na maior parte do tempo. A tecnologia tenderá a exacerbar isso. Claro, precisaremos ter a opção de “desconectar” ou ficar “offline" - não vamos querer que o pensamento de outras pessoas se meta em nossa mente durante uma noite de bom sono. Se manter nossa mente conectada pode nos trazer benefícios, vamos querer ficar o máximo possível “online”.

Durante uma emergência, esse link imediato e direto com alguém que possa nos ajudar será uma ferramenta valiosa. E se você não estiver a fim de falar com ninguém? Vai ter uma secretária eletrônica ou uma caixa de entrada (“inbox”)? Você não vai poder esquecer sua cabeça em algum lugar da mesma forma que esquece hoje um celular ou um laptop. O dispositivo em seu cérebro vai estar lá o tempo todo. Quando alguém estiver tentando entrar em contato com seu pensamento e não estiver conseguindo, vai concluir que você não quer falar ou que algo pode estar errado.

8. Quem?

De que forma saberemos que outra pessoa está se comunicando conosco? Se o sinal for muito parecido com nossa própria voz interior, poderíamos ficar confusos? Quando falamos nós ouvimos nossa própria voz, mas há uma distinção clara entre aquilo que estamos vocalizando e a voz dos outros que estamos ouvindo. A comunicação cérebro-a-cérebro vai envolver as duas partes enviando e recebendo sinais baseados nos mesmos impulsos neurais. O engajamento em uma conversa vai demandar a diferenciação entre nosso monólogo interior e o monólogo interior do nosso interlocutor ou interlocutores.

… e tem muito mais coisas a se pensar.

Provavelmente esse tipo de comunicação vai envolver muito mais do que transmitir apenas linguagem. E se for possível partilharmos experiências sensoriais como visão, audição, paladar e até emoções, conhecimento e outros conceitos abstratos?  

As possibilidades são infinitas e o mesmo são as repercussões. Na medida em que a tecnologia se aproxima do cérebro, da mente e daquele subjetivo conceito do “nosso eu”, mais cuidadosos teremos que ter.

Nesse ponto tenho que dizer que qualquer mente que cruzasse meu caminho, receberia minha mensagem telepática mais forte: poupe para a aposentadoria e seja feliz no futuro!

Grande abraço,
Éder.

Fonte: Adaptado do artigo “The Consequences of Telepathy”, escrito por Sam Brinson.
Crédito de Imagem: Andrew Rich via Getty Images

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Um robô com inteligência artificial é feito para ser inteligente, não para ser humano - Poupe para a aposentadoria com a inteligência de um robô.




 De São Paulo, SP.

Se quiser passar no “Teste de Turing” um robô falando com você do outro lado do celular, precisa te convencer de que ele é uma pessoa de carne e osso.

Para isso, o robô precisa responder a uma série de perguntas, como diria o Presidente, sem fraquejar. Brincadeirinha! O robô falando com você não pode deixar você perceber que está conversando com uma máquina.

“Um computador merece ser chamado de inteligente se puder enganar um humano fazendo-o acreditar que é humano” — Alan Turing

Mas afinal, convencer uma pessoa numa situação dessas prova o quê? Inteligência? Na verdade, não. O que o teste mostra para nós é que um computador pode se passar por uma pessoa. É um teste para o computador fingir que é humano.

Passar num teste assim pode não ser grande coisa. Isso porque as pessoas, frequentemente, não são lá tão inteligentes. Tendemos a cometer erros de julgamento, somos tendenciosos, tomamos decisões irracionais e somos passíveis de manipulação.

Na realidade, nossos erros e vieses de julgamento em diversas situações, são até previsíveis, como nos ensina Dan Ariely em seu magnifico livro “Previsivelmente Irracional”. No livro Ariely mostra que cometemos erros de maneira incrivelmente repetitiva.

A natureza humana evoluiu para sobreviver e procriar, não para ser lógica e racional. Muitas de nossas decisões são baseadas em emoção e intuição e não o resultado de cuidadosas análises embasadas pela racionalidade. A maioria de nossas decisões são adotadas pelo cérebro em nível subconsciente, conforme amplamente comprovam os estudos de Neurociência.

Prova disso é que muitas pessoas não poupam para a aposentadoria, o que seria para lá de lógico, racional e inteligente todo mundo fazer né!

Isso não significa que o genial Alan Turing estivesse errado. 

Apesar de nossa tendência a cometer erros, somos considerados a espécie mais inteligente do planeta – pelo menos, até agora. Portanto, se pudermos ser convencidos de que uma máquina é uma pessoa, claro que deveríamos dizer que ela é inteligente.

No entanto, ser inteligente é ser mais do que as pessoas são. Alguns de nossos comportamentos são inteligentes, outros não. Determinados comportamentos, por mais inteligentes que sejam, nós nunca adotamos.

Os computadores podem fazer uma série de cálculos inteligentes e tomar decisões de modo que nós nunca havíamos pensado antes. Deveríamos desconsiderar esse tipo de inteligência só porque nunca seria considerada humana?
Teste de Inteligência versus Teste de Humanidade

Qualquer coisa querendo se passar por uma pessoa precisaria falhar de acordo com os mesmos erros de comportamento que os humanos cometem.

Uma máquina que não comete os mesmos erros que uma pessoa, falhará no teste de humanidade. Já uma máquina que erra igual a uma pessoa, estará se tornando burra ou nivelando sua inteligência com a “inteligência” humana.
Nenhuma dessas opções é interessante.
Inteligência Artificial nível-humano 
 
Se um computador for tão inteligente quanto uma pessoa, então cometerá os mesmos erros que nós cometemos. Mas ué! Isso (errar) não é exatamente o que um robô com IA - inteligência artificial não deveria fazer?

IA é essa grande inovação em função do seu potencial de melhorar aquilo que os humanos são, em particular, superar nossas fraquezas e deficiências. Para ser justo, a IA já é melhor do que nós em muitas áreas.

Os assistentes de voz encontrados no mercado, raramente cometerão erros de gramática nem, provavelmente, farão cálculos matemáticos errados. As pessoas sim, cometem erros desse tipo.

Inteligência não se resume a dominar uma habilidade, envolve o domínio de muitas habilidades.

A IA está lentamente elevando seu nível em direção a inteligência humana. Para se passar por uma pessoa a IA precisaria, simultaneamente, melhorar e piorar, se tornar mais esperta e mais estúpida.

Como saberemos quando ela tiver nos alcançado?
IA nível-mega inteligente

Uma IA que propositalmente forçasse sua burrice seria preocupante por motivos não tão óbvios. Você ficaria impressionado ou se sentiria manipulado por um algoritmo que conseguisse te convencer de que é humano?

O próprio Turing estabeleceu que um computador seria inteligente quando conseguisse nos enganar fazendo a gente pensar que é humano. Claro, saberíamos que por trás daquela fachada computacional haveria muito mais domínio de informações e processamento de dados do que nosso cérebro seria capaz de processar.

Mas não seria um insulto interagir com uma máquina mais inteligente do que nós que apesar disso, ficasse tentando nos imitar e insistindo em nossos erros? Não seria esquisito saber que poderia ter uma inteligência muito melhor que a nossa, corrigir nossos erros e que mesmo assim só estaria querendo andar, falar e agir como nós? 

O homem sempre construiu ferramentas e meios para superar suas deficiências. Carro para andar mais rápido, avião para chegar mais longe, martelo para imprimir força concentrada, óculos para enxergar direito e por aí vai.

O propósito da IA é ser mais inteligente do que nós e não ser um humano melhor do que nós. Então, o que queremos de uma máquina é a maior inteligência possível.
A “mente” de um robô

Os robôs em suas mais variadas formas e finalidades terão uma “mente” – se é que podemos chamar a IA assim – diferente da nossa. Não vamos querer uma IA que fique com raiva ou que tenha ciúmes. Também não havemos de querer uma IA que possa ser convencida de que a terra é plana (essa é a parte da idiotice) ou que algumas pessoas são melhores do que outras.

Ou seja, vamos querer separar a natureza humana e pegar apenas a parte que consideramos boa para, então, achar uma maneira de programar isso num computador.

Ainda assim, o funcionamento dessa mente robótica feita da parte boa seria imensamente diferente da nossa. A IA será capaz de reter, de uma única vez, muito mais coisas na mente do que nós somos. Não esquecerá como esquecemos. Será capaz de pensar em 3-4 ou mais dimensões. Conseguirá pensar em milhões de coisas ao mesmo tempo.

Seria um esforço inútil tentar forçar um sistema único desses a pensar e se comportar da maneira que as pessoas agem. Mal comparando, seria como tentar rodar o MacOS Mojave num PC que roda Windows. Como o hardware não foi desenvolvido para aquele sistema operacional seria necessário um esforço muito maior para funcionar.

Ou seja, se você está tentando desenvolver humanidade em um computador, você estaria tentando rodar um sistema operacional baseado em biologia químico-orgânica em uma máquina feita de chips, circuitos e componentes eletrônicos que funcionam de forma específica.

A IA deverá ser imbuída de alguns elementos humanos. Seria bom falar as mesmas línguas que nós falamos, para que a forma de interagirmos e nos comunicarmos com ela nos seja familiar.

Também deverá ter determinadas emoções (ou algo que funcione como uma emoção) para ajudar a nos direcionar para o caminho certo e de forma amigável ao ser humano, com comportamentos e cognição – empatia, por exemplo.

Ainda, a IA pode ser programada para mostrar certas emoções que ajudam na nossa interação e relacionamento com terceiros ou que nos fazem sentir confortáveis. Isso, claro, sem que a IA sinta ou experimente essas emoções da mesma maneira que um ser humano o faz.

Os algoritmos da IA também podem ser desenhados para ler as emoções das pessoas e responder de forma apropriada. Nenhuma dessas programações, no entanto, fará a AI assumir a condição humana.

Um algoritmo que tenha medo da sua própria morte, que consiga odiar alguém ou alguma coisa ou que fique aborrecido quando estiver perdendo um jogo, provavelmente não funcionará muito bem.

Vamos ter que achar e selecionar com equilíbrio suficiente os elementos emocionais entre humanidade e “roboticidade”. Conforme bem definido por Patrick Lin – Diretor de Ética + Grupo de Ciências Emergentes da Cal Poly (California Polytechnic State University): “Quando dizemos que os robôs têm emoções, não significa que eles fiquem alegres ou tristes ou passem por estados mentais. Significa que eles apresentam comportamentos que nós humanos interpretamos dessa ou daquela forma”.  
IA artística

Ao acharmos um meio de fazer a IA ter seu próprio "eu" e trabalhar junto conosco, ao invés de tentar simular a mente e o comportamento humanos, estaremos ajudando a reservar determinadas áreas para os humanos – arte é um bom exemplo.

Sem o espectro completo de emoções que as pessoas possuem, conseguiria a IA criar arte e música verdadeiramente tocantes?

As artes plásticas costumam provocar reações emocionais. Sabemos que muitos dos grandes trabalhos artísticos foram produzidos a partir de sentimentos negativos como decepções amorosas, saudade e tristeza.
Sim, já existe arte desenvolvida por IA que conseguiu produzir alguns resultados interessantes que poderiam se passar por criações humanas. A despeito disso, a arte produzida por IA depende de:
1.    Definição de regras: Antes da IA criar qualquer coisa que possamos apreciar, os engenheiros humanos precisam estabelecer os limites ou definir as regras do campo de criação – restringindo o programa a certo estilo em música, por exemplo.
2.    Aprendizado com os melhores: a IA é treinada a partir de exemplos de arte produzida por outras pessoas – acaba, assim, com um conceito homogeneizado de arte. A IA foi capaz de criar novos trabalhos seguindo o estilo de pintores famosos e criou músicas que soam como os Beatles, ou seja, a IA fica presa aos limites desses artistas.   
Nós também fazemos dessa forma, claro – estudamos música e praticamos instrumentos copiando nossos ídolos. 
Mas não paramos aí. Simplesmente seguir as regras e copiar os maiores artistas não garantirá que você fará músicas que as pessoas vão querer ouvir. Com imitações baratas você provavelmente vai apenas diluir o mercado de um estilo já suficientemente explorado por outros artistas.
A chave para uma boa arte é desenvolver algo a mais, levar a um lugar novo, elevar a um nível inesperado ou nunca atingido antes e fazer isso de uma forma que provoque uma resposta emocional, conforme a intenção do artista.
Será que conseguimos que a IA crie seu próprio estilo que não seja simplesmente uma réplica de outro artista? 
Conseguiríamos que criasse um estilo que não seja apenas uma “média” de tudo que aprendeu? Será que conseguimos – e essa é a grande questão – fazer a IA criar um estilo de arte que mesmo desconhecido nos sensibilize, algo que provoque emoção nas pessoas, não aleatoriamente, mas intencionalmente?   
De modo a criar algo ao mesmo tempo bom e novo a IA teria que saber quando e como quebrar as regras. Você pode programar uma escala musical e como se mover entre os acordes, mas será que conseguiria ensinar como quebrar essas regras e se afastar dessas estruturas quando o contexto emocional da música demandar – e fazer isso da forma esteticamente mais prazerosa?
Sem uma mente semelhante à de uma pessoa, sem a habilidade de associar o espectro completo de emoções ou de sentir por si mesmo a música e a arte da maneira que nós sentimos, as chances da IA nos levar às lágrimas através da música são praticamente impossíveis. Iria precisar constantemente de um julgamento humano para nos dizer: “Ei, essa música é legal!”, porque simplesmente não seria capaz de julgar por si mesmo.
Separados seguiremos

Se a arte ficará livre da automação graças a complexa interação entre regras, criatividade e emoções, então talvez outras áreas possam ficar também.
Campos que requerem certos níveis de inteligência emocional e habilidades relacionadas à condição humana podem permanecer empreendimentos largamente humanos.
Música, arte, cinema, literatura, esportes, ilustração e muitos outras atividades ligadas à criação, requerem a distorção da psique humana de um modo que apenas outro ser humano possa apreciar ou prever.
Não deveria ser assim mesmo? Deixemos os computadores lidarem com dados e processamento, deixemos que eles conduzam análises mais detalhadas e melhorem nosso processo decisório que é apoiado somente na lógica. Mas deixemos as pessoas lidem com o subjetivo e com os mundos interiores de outras pessoas.  
Olhando para o futuro, na medida em que os computadores aumentem seu poder e inteligência, a IA provavelmente vai criar arte capaz de nos tocar. Vai desenvolver coisas novas. 
Com nossa ajuda, poderá entender, mesmo que não seja capaz de sentir, a forma que reagimos emocionalmente. Saberá, mesmo que não consiga vivenciar por si só, como e quando usar determinadas emoções da mesma forma que nós fazemos.
Mas deveríamos almejar isso? Eu não quero ser convencido de que um computador superinteligente é uma pessoa. Eu não quero algo que é capaz de solucionar problemas complexos, desperdiçando tempo tentando agir como um cérebro. Deixemos que fale como o Spock, deixemos me convencer que é esperto, deixemos se exibir resolvendo problemas que eu nunca conseguiria resolver.       
Deixemos a condição humana, a volatilidade emocional e com ela a arte, para nós, humanos.
“... parece que dar a IA a compreensão da condição humana seria apenas mais uma forma de nos tornar obsoletos – e nesse processo, renunciar a qualidade final que nos diferencia das máquinas e nos torna humanos” (Singularity Hub).
Poupe para a aposentadoria com sua inteligência humana, porque a IA não vai precisar disso!
Abraço, com calor humano,
Eder.

Fonte: Adaptado do artigo “All Too Human—Why Passing the Turing Test is a Bad Idea “, escrito por Sam Brinson. 
Crédito de Imagem: Photo: NA Films/ Film4/ Universal Pictures

terça-feira, 3 de julho de 2018

Conselhos dos Fundos de Pensão - Melhorem a Governança antes que “eles” cheguem!




De São Paulo, SP.

“Durante os últimos dois ou três séculos, sempre houve esse receio de que as máquinas tomariam conta de tudo. Dessa vez, pode ser verdade”.

A frase é de Yuval Noah Hariri e foi dita durante um debate promovido na edição desse ano do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.

Todo dia são publicadas notícias sobre o impacto da internet das coisas, da automação e da IA - Inteligência Artificial sobre os setores de seguros, financeiro, prestação de serviços, manufatura e outros.

Pouco se tem falado sobre como as tecnologias da “Quarta Revolução Industrial”, que eu prefiro chamar de a “Primeira Revolução das Máquinas”, vão interferir sobre os altos escalões na hierarquia das empresas e fundos de pensão.

Devido ao rápido desenvolvimento tecnológico, ao longo dos próximos anos a IA vai começar a entrar mais fortemente nos conselhos das empresas e porque não, também dos fundos de pensão.
Não vão substituir o papel dos conselheiros, num primeiro momento, mas sim melhorar o processo decisório. Será interessante presenciar a automação e a inteligência artificial se tornando mais dominante e passando a tomar algumas decisões nos conselhos.

Há apenas quatro anos, em 2014, um fundo de capital de risco de Hong Kong chamado Deep Knowledge Ventures (DKV), nomeou para seu conselho de administração um algoritmo chamado Vital (acrônimo para: Validating Investiment Tool for Advancing Life Sciences).

Vital foi nomeado com direito a voto, podendo opinar se o fundo deveria ou não investir em determinada companhia, como faria qualquer outro membro – humano – do conselho.

A habilidade que permitiu a Vital fazer parte do conselho foi sua capacidade de automatizar o processo de due diligence e usar conjuntos históricos de dados para detectar tendências que não são óbvias para os humanos que analisam informações de alto nível e grandes quantidades de dados.

Vital ajudou a aprovar investimentos em empresas como Insilico Medicine e Pathway Pharmaceuticals. No entanto, Vital não votava em todas as decisões do board. Até porque, pelas leis societárias de Hong Kong, Vital não podia ser legalmente considerado um conselheiro.

Vital não tomava decisões em nome do conselho, mas tinha alguma influência sobre o que estava acontecendo. Era tratado por seus colegas (humanos), como membro do conselho com status de observador.

Seja como for, Vital foi amplamente reconhecido como o primeiro conselheiro corporativo criado pela inteligência artificial, isso é algo fascinante.
Faz-nos pensar se a IA pode transformar a próxima geração de conselheiros de empresas e fundos de pensão.

Nossa primeira reação é ver isso como exagerado, inverossímil mesmo. Ocupar uma cadeira em um conselho, normalmente, requer discernimento na tomada de decisões e visão de negócios que só podem ser adquiridos ao longo de décadas de experiência no setor.

No entanto, se pararmos para pensar melhor, vamos perceber que o papel da IA nesse caso seria exatamente ajudar os conselheiros a tomarem melhores decisões.

Fazer os membros dos conselhos enxergarem as questões com outras perspectivas, certamente seria algo valioso para a tomada de decisões.

O custo de decisões ruins é muito alto e a história recente está repleta de exemplos de decisões desastrosas de conselhos, e de investimentos equivocados de fundos de pensão.

As transformações no ambiente de negócios estão ocorrendo num ritmo humanamente (ipsi literis) difícil de acompanhar.

O IBOVESPA foi lançado em 1968 e naquela época 27 ações faziam parte do índice. Quarenta anos depois, a carteira do IBOVEPA é composta por 64 papeis e apenas três nunca deixaram o índice – Vale, Souza Cruz e AMBEV.

Algumas empresas deixaram de existir, como a montadora de automóveis Willys do Brasil, a Refinaria de Petróleo União e a Casa Anglo – antigo Mappin. Nos EUA estima-se que 50% das 500 maiores empresas listadas pela Revista Fortune deixarão o ranking até 2027.

Sabe-se que ainda são bastante elevados os índices de fracasso no lançamento de novos produtos, em tentativas de fusão e aquisições de empresas e estratégias de transformação digital.

A responsabilidade por fracassos nas empresas e pelas perdas nos investimentos dos fundos de pensão recai exclusivamente nos ombros dos conselhos e dos gestores dessas organizações.

Em 2015 uma pesquisa da McKinsey mostrou que 16% dos conselheiros não compreendiam plenamente as mudanças na dinâmica de seus setores de atuação e o impacto que novas tecnologias poderiam causar em seus negócios.

Vamos combinar: você consegue dizer, nesse exato momento, qual será a transformação nos próximos 3 a 5 anos pelas quais passarão os planos de aposentadoria que seu fundo de pensão administra?

Então, parece fazer sentido incorporar a IA nas práticas de governança corporativa e nas estratégias das empresas e dos fundos de pensão.

Numa entrevista recente, Mark van Rijmenam – fundador e CEO da Datafloq.com – comentou que a IA tem melhor capacidade de entender o contexto e o ambiente de uma organização. Ao invés de se basear em uma quantidade limitada de fontes de dados, formará um quadro mais amplo e preciso sobre os fatores críticos de mudança nos cenários, influenciando as decisões.

O objetivo não é o de automatizar ou substituir qualquer processo de decisão, mas sim o de melhorar as decisões e torna-las menos emocionais e mais baseadas em fatos. A inteligência artificial não vai substituir o julgamento, a intuição e experiência dos conselheiros em uma decisão, mas vai dar suporte mais robusto como uma ferramenta analítica inteligente. 

Ainda existem enormes desafios com os quais a IA não é capaz de lidar. Assédio, igualdade de gênero e ética - que muda com o tempo - envolvem questões filosóficas que mesmo nós, humanos, continuamos a debater até hoje. Sem falar que a IA é baseada em lógica, não em ética.

Por outro lado, segundo Mark van Rijmenam, já estamos vendo IA criando sua própria linguagem e desenvolvendo sua própria IA. O que pode levar a uma IA impossível para os humanos compreenderem. Isso, diz ele, precisamos evitar.

Os benefícios que podem ser obtidos pelo uso da IA nos boards de empresas e fundos de pensão parecem ser significativos. Se isso pode ajudar a tomarmos melhores decisões, porque não?

Estamos longe do dia em que teremos “organizações autônomas descentralizadas”, totalmente geridas por códigos e algoritmos.

Até lá, fico com a frase do Hariri quando menciona a preocupação que devemos ter com a chegada mais forte da IA ao nosso dia-a-dia:

“Nós não temos que proteger os empregos, nós temos que proteger as pessoas”.

É isso aí!

Abraço,
Eder.


Fonte: Adaptado dos artigos “The role of AI and machine learning in the boardroom”, escrito por Henry Eliot e “Will AI Board Members Run the Companies of the Future?” publicado na Brink.

Crédito de imagem:  https://media.shellypalmer.com

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