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sábado, 30 de março de 2019

A fonte que ajuda você a lembrar o que leu e a mensagem que você nunca deve esquecer



De São Paulo, SP

Um psicólogo, um designer e um economista comportamental entram em um laboratório. O que acontece quando eles saem?

Não, não é uma daquelas piadas que começam assim, onde só mudam os personagens e sempre terminam em gargalhadas.

Porém, o final também é divertido, além de instrutivo e instigante!

A reunião dessa equipe multifuncional aconteceu no Instituto Real de Tecnologia de Melbourne (RMIT University), uma universidade da Austrália.

O resultado foi o desenvolvimento de um tipo de letra que faz você lembrar mais aquilo que lê.

O nome que eles deram para a fonte foi:


Essa nova fonte foi cientificamente desenhada para ser difícil de ler, as letras se inclinam para a esquerda e falta grandes nacos de cada uma.

Usando princípios de psicologia e técnicas de desenho tipográfico, a fonte cria uma condição neurológica conhecida por “dificuldade desejável”.

Dificuldade desejável é a obstrução de um processo de aprendizado, que para ser concluído requer um considerável, mas desejável, nível de esforço.

Consequentemente, melhora (no caso da Sans Forgetica) a retenção e a recordação da informação.

Diferentemente das fontes convencionais, o visual distinto da Sans Forgetica leva os leitores a se deterem por um período maior em cada palavra.

Isso fornece ao cérebro mais tempo para se engajar, permitindo um processamento cognitivo mais profundo da informação, o que aumenta a retenção das mensagens.

Segundo Stephen Banham, Professor de Tipografia da RMIT e um tipógrafo de renome mundial, que liderou o desenho da Sans Forgetica:

“... esse tipo de letra prega uma pequena peça na mente, que fica confusa e tenta instantaneamente resolver o problema, a mente procura tornar mais claro as formas, os círculos, as diagonais etc. Isso diminui a velocidade de processamento da leitura no nosso cérebro e força você a pensar sobre aquilo que está lendo".

Esse esforço adicional é um boom para a memória. O benefício desse esforço que fazemos à mais é o mesmo que resulta do conceito da dificuldade desejável.

Por isso que aprendemos melhor quando escrevemos e falamos ativamente, do que quando apenas lemos ou ouvimos de forma passiva.      

As fontes que são familiares são fáceis de ler, mas igualmente fáceis de esquecer. A Sans Forgetica não é fácil, mas também não é tão difícil. Fica no meio do caminho, se por um lado é legível, por outro nos faz pensar duas vezes para extrair a informação. 

“A Sans Forgetica fica no ponto ideal onde foi acrescentada dificuldade apenas o suficiente para criar aquela retenção na memória” — comenta Janneke Blijlevens do Laboratório de Negócios Comportamentais da RMIT.

A fonte foi testada com cerca de 400 estudantes da universidade e o nível de retenção atingiu 57%, ultrapassando o nível de retenção de outras fontes como Arial que chegou em torno de 50%. 

Benefício à parte, os criadores da nova fonte não recomendam que você exagere, alertando que tudo que você conseguirá se tentar escrever um romance com a Sans Forgetica, provavelmente, será uma enorme enxaqueca.

A nova fonte é eficaz porque é difícil de ler e difícil porque não é familiar — melhor usar com moderação, apenas para ressaltar trechos importantes do texto, ao invés de usar no conjunto integral do trabalho.  

Através desse link, você pode baixar a nova fonte e usar gratuitamente nos seus próprios projetos: https://www.sansforgetica.rmit/

Com a ajuda da Sans Forgetica deixo aqui minha maior mensagem para todos vocês:



Grande abraço,
Eder.


Fonte: Adaptado do artigo “The Font That Helps You Remember”, escrito por Sam Brinson

Crédito de Imagem: www.sambrinson.com/sans-forgetica/

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Um robô com inteligência artificial é feito para ser inteligente, não para ser humano - Poupe para a aposentadoria com a inteligência de um robô.




 De São Paulo, SP.

Se quiser passar no “Teste de Turing” um robô falando com você do outro lado do celular, precisa te convencer de que ele é uma pessoa de carne e osso.

Para isso, o robô precisa responder a uma série de perguntas, como diria o Presidente, sem fraquejar. Brincadeirinha! O robô falando com você não pode deixar você perceber que está conversando com uma máquina.

“Um computador merece ser chamado de inteligente se puder enganar um humano fazendo-o acreditar que é humano” — Alan Turing

Mas afinal, convencer uma pessoa numa situação dessas prova o quê? Inteligência? Na verdade, não. O que o teste mostra para nós é que um computador pode se passar por uma pessoa. É um teste para o computador fingir que é humano.

Passar num teste assim pode não ser grande coisa. Isso porque as pessoas, frequentemente, não são lá tão inteligentes. Tendemos a cometer erros de julgamento, somos tendenciosos, tomamos decisões irracionais e somos passíveis de manipulação.

Na realidade, nossos erros e vieses de julgamento em diversas situações, são até previsíveis, como nos ensina Dan Ariely em seu magnifico livro “Previsivelmente Irracional”. No livro Ariely mostra que cometemos erros de maneira incrivelmente repetitiva.

A natureza humana evoluiu para sobreviver e procriar, não para ser lógica e racional. Muitas de nossas decisões são baseadas em emoção e intuição e não o resultado de cuidadosas análises embasadas pela racionalidade. A maioria de nossas decisões são adotadas pelo cérebro em nível subconsciente, conforme amplamente comprovam os estudos de Neurociência.

Prova disso é que muitas pessoas não poupam para a aposentadoria, o que seria para lá de lógico, racional e inteligente todo mundo fazer né!

Isso não significa que o genial Alan Turing estivesse errado. 

Apesar de nossa tendência a cometer erros, somos considerados a espécie mais inteligente do planeta – pelo menos, até agora. Portanto, se pudermos ser convencidos de que uma máquina é uma pessoa, claro que deveríamos dizer que ela é inteligente.

No entanto, ser inteligente é ser mais do que as pessoas são. Alguns de nossos comportamentos são inteligentes, outros não. Determinados comportamentos, por mais inteligentes que sejam, nós nunca adotamos.

Os computadores podem fazer uma série de cálculos inteligentes e tomar decisões de modo que nós nunca havíamos pensado antes. Deveríamos desconsiderar esse tipo de inteligência só porque nunca seria considerada humana?
Teste de Inteligência versus Teste de Humanidade

Qualquer coisa querendo se passar por uma pessoa precisaria falhar de acordo com os mesmos erros de comportamento que os humanos cometem.

Uma máquina que não comete os mesmos erros que uma pessoa, falhará no teste de humanidade. Já uma máquina que erra igual a uma pessoa, estará se tornando burra ou nivelando sua inteligência com a “inteligência” humana.
Nenhuma dessas opções é interessante.
Inteligência Artificial nível-humano 
 
Se um computador for tão inteligente quanto uma pessoa, então cometerá os mesmos erros que nós cometemos. Mas ué! Isso (errar) não é exatamente o que um robô com IA - inteligência artificial não deveria fazer?

IA é essa grande inovação em função do seu potencial de melhorar aquilo que os humanos são, em particular, superar nossas fraquezas e deficiências. Para ser justo, a IA já é melhor do que nós em muitas áreas.

Os assistentes de voz encontrados no mercado, raramente cometerão erros de gramática nem, provavelmente, farão cálculos matemáticos errados. As pessoas sim, cometem erros desse tipo.

Inteligência não se resume a dominar uma habilidade, envolve o domínio de muitas habilidades.

A IA está lentamente elevando seu nível em direção a inteligência humana. Para se passar por uma pessoa a IA precisaria, simultaneamente, melhorar e piorar, se tornar mais esperta e mais estúpida.

Como saberemos quando ela tiver nos alcançado?
IA nível-mega inteligente

Uma IA que propositalmente forçasse sua burrice seria preocupante por motivos não tão óbvios. Você ficaria impressionado ou se sentiria manipulado por um algoritmo que conseguisse te convencer de que é humano?

O próprio Turing estabeleceu que um computador seria inteligente quando conseguisse nos enganar fazendo a gente pensar que é humano. Claro, saberíamos que por trás daquela fachada computacional haveria muito mais domínio de informações e processamento de dados do que nosso cérebro seria capaz de processar.

Mas não seria um insulto interagir com uma máquina mais inteligente do que nós que apesar disso, ficasse tentando nos imitar e insistindo em nossos erros? Não seria esquisito saber que poderia ter uma inteligência muito melhor que a nossa, corrigir nossos erros e que mesmo assim só estaria querendo andar, falar e agir como nós? 

O homem sempre construiu ferramentas e meios para superar suas deficiências. Carro para andar mais rápido, avião para chegar mais longe, martelo para imprimir força concentrada, óculos para enxergar direito e por aí vai.

O propósito da IA é ser mais inteligente do que nós e não ser um humano melhor do que nós. Então, o que queremos de uma máquina é a maior inteligência possível.
A “mente” de um robô

Os robôs em suas mais variadas formas e finalidades terão uma “mente” – se é que podemos chamar a IA assim – diferente da nossa. Não vamos querer uma IA que fique com raiva ou que tenha ciúmes. Também não havemos de querer uma IA que possa ser convencida de que a terra é plana (essa é a parte da idiotice) ou que algumas pessoas são melhores do que outras.

Ou seja, vamos querer separar a natureza humana e pegar apenas a parte que consideramos boa para, então, achar uma maneira de programar isso num computador.

Ainda assim, o funcionamento dessa mente robótica feita da parte boa seria imensamente diferente da nossa. A IA será capaz de reter, de uma única vez, muito mais coisas na mente do que nós somos. Não esquecerá como esquecemos. Será capaz de pensar em 3-4 ou mais dimensões. Conseguirá pensar em milhões de coisas ao mesmo tempo.

Seria um esforço inútil tentar forçar um sistema único desses a pensar e se comportar da maneira que as pessoas agem. Mal comparando, seria como tentar rodar o MacOS Mojave num PC que roda Windows. Como o hardware não foi desenvolvido para aquele sistema operacional seria necessário um esforço muito maior para funcionar.

Ou seja, se você está tentando desenvolver humanidade em um computador, você estaria tentando rodar um sistema operacional baseado em biologia químico-orgânica em uma máquina feita de chips, circuitos e componentes eletrônicos que funcionam de forma específica.

A IA deverá ser imbuída de alguns elementos humanos. Seria bom falar as mesmas línguas que nós falamos, para que a forma de interagirmos e nos comunicarmos com ela nos seja familiar.

Também deverá ter determinadas emoções (ou algo que funcione como uma emoção) para ajudar a nos direcionar para o caminho certo e de forma amigável ao ser humano, com comportamentos e cognição – empatia, por exemplo.

Ainda, a IA pode ser programada para mostrar certas emoções que ajudam na nossa interação e relacionamento com terceiros ou que nos fazem sentir confortáveis. Isso, claro, sem que a IA sinta ou experimente essas emoções da mesma maneira que um ser humano o faz.

Os algoritmos da IA também podem ser desenhados para ler as emoções das pessoas e responder de forma apropriada. Nenhuma dessas programações, no entanto, fará a AI assumir a condição humana.

Um algoritmo que tenha medo da sua própria morte, que consiga odiar alguém ou alguma coisa ou que fique aborrecido quando estiver perdendo um jogo, provavelmente não funcionará muito bem.

Vamos ter que achar e selecionar com equilíbrio suficiente os elementos emocionais entre humanidade e “roboticidade”. Conforme bem definido por Patrick Lin – Diretor de Ética + Grupo de Ciências Emergentes da Cal Poly (California Polytechnic State University): “Quando dizemos que os robôs têm emoções, não significa que eles fiquem alegres ou tristes ou passem por estados mentais. Significa que eles apresentam comportamentos que nós humanos interpretamos dessa ou daquela forma”.  
IA artística

Ao acharmos um meio de fazer a IA ter seu próprio "eu" e trabalhar junto conosco, ao invés de tentar simular a mente e o comportamento humanos, estaremos ajudando a reservar determinadas áreas para os humanos – arte é um bom exemplo.

Sem o espectro completo de emoções que as pessoas possuem, conseguiria a IA criar arte e música verdadeiramente tocantes?

As artes plásticas costumam provocar reações emocionais. Sabemos que muitos dos grandes trabalhos artísticos foram produzidos a partir de sentimentos negativos como decepções amorosas, saudade e tristeza.
Sim, já existe arte desenvolvida por IA que conseguiu produzir alguns resultados interessantes que poderiam se passar por criações humanas. A despeito disso, a arte produzida por IA depende de:
1.    Definição de regras: Antes da IA criar qualquer coisa que possamos apreciar, os engenheiros humanos precisam estabelecer os limites ou definir as regras do campo de criação – restringindo o programa a certo estilo em música, por exemplo.
2.    Aprendizado com os melhores: a IA é treinada a partir de exemplos de arte produzida por outras pessoas – acaba, assim, com um conceito homogeneizado de arte. A IA foi capaz de criar novos trabalhos seguindo o estilo de pintores famosos e criou músicas que soam como os Beatles, ou seja, a IA fica presa aos limites desses artistas.   
Nós também fazemos dessa forma, claro – estudamos música e praticamos instrumentos copiando nossos ídolos. 
Mas não paramos aí. Simplesmente seguir as regras e copiar os maiores artistas não garantirá que você fará músicas que as pessoas vão querer ouvir. Com imitações baratas você provavelmente vai apenas diluir o mercado de um estilo já suficientemente explorado por outros artistas.
A chave para uma boa arte é desenvolver algo a mais, levar a um lugar novo, elevar a um nível inesperado ou nunca atingido antes e fazer isso de uma forma que provoque uma resposta emocional, conforme a intenção do artista.
Será que conseguimos que a IA crie seu próprio estilo que não seja simplesmente uma réplica de outro artista? 
Conseguiríamos que criasse um estilo que não seja apenas uma “média” de tudo que aprendeu? Será que conseguimos – e essa é a grande questão – fazer a IA criar um estilo de arte que mesmo desconhecido nos sensibilize, algo que provoque emoção nas pessoas, não aleatoriamente, mas intencionalmente?   
De modo a criar algo ao mesmo tempo bom e novo a IA teria que saber quando e como quebrar as regras. Você pode programar uma escala musical e como se mover entre os acordes, mas será que conseguiria ensinar como quebrar essas regras e se afastar dessas estruturas quando o contexto emocional da música demandar – e fazer isso da forma esteticamente mais prazerosa?
Sem uma mente semelhante à de uma pessoa, sem a habilidade de associar o espectro completo de emoções ou de sentir por si mesmo a música e a arte da maneira que nós sentimos, as chances da IA nos levar às lágrimas através da música são praticamente impossíveis. Iria precisar constantemente de um julgamento humano para nos dizer: “Ei, essa música é legal!”, porque simplesmente não seria capaz de julgar por si mesmo.
Separados seguiremos

Se a arte ficará livre da automação graças a complexa interação entre regras, criatividade e emoções, então talvez outras áreas possam ficar também.
Campos que requerem certos níveis de inteligência emocional e habilidades relacionadas à condição humana podem permanecer empreendimentos largamente humanos.
Música, arte, cinema, literatura, esportes, ilustração e muitos outras atividades ligadas à criação, requerem a distorção da psique humana de um modo que apenas outro ser humano possa apreciar ou prever.
Não deveria ser assim mesmo? Deixemos os computadores lidarem com dados e processamento, deixemos que eles conduzam análises mais detalhadas e melhorem nosso processo decisório que é apoiado somente na lógica. Mas deixemos as pessoas lidem com o subjetivo e com os mundos interiores de outras pessoas.  
Olhando para o futuro, na medida em que os computadores aumentem seu poder e inteligência, a IA provavelmente vai criar arte capaz de nos tocar. Vai desenvolver coisas novas. 
Com nossa ajuda, poderá entender, mesmo que não seja capaz de sentir, a forma que reagimos emocionalmente. Saberá, mesmo que não consiga vivenciar por si só, como e quando usar determinadas emoções da mesma forma que nós fazemos.
Mas deveríamos almejar isso? Eu não quero ser convencido de que um computador superinteligente é uma pessoa. Eu não quero algo que é capaz de solucionar problemas complexos, desperdiçando tempo tentando agir como um cérebro. Deixemos que fale como o Spock, deixemos me convencer que é esperto, deixemos se exibir resolvendo problemas que eu nunca conseguiria resolver.       
Deixemos a condição humana, a volatilidade emocional e com ela a arte, para nós, humanos.
“... parece que dar a IA a compreensão da condição humana seria apenas mais uma forma de nos tornar obsoletos – e nesse processo, renunciar a qualidade final que nos diferencia das máquinas e nos torna humanos” (Singularity Hub).
Poupe para a aposentadoria com sua inteligência humana, porque a IA não vai precisar disso!
Abraço, com calor humano,
Eder.

Fonte: Adaptado do artigo “All Too Human—Why Passing the Turing Test is a Bad Idea “, escrito por Sam Brinson. 
Crédito de Imagem: Photo: NA Films/ Film4/ Universal Pictures

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Ninguém é tão cego quanto aquele que enxerga, mas não consegue ver - Poupe para a aposentadoria e enxergue seu futuro!





De São Paulo, SP.


Há mais de 10 anos dicionários de língua inglesa como o Merriam-Webster e o Oxford Dictionary of English, mantem a tradição de eleger a “palavra do ano”.

Associações ligadas às línguas e à escrita cultivam tradições semelhantes mundo afora.

Obviamente, estava na hora de surgir uma iniciativa equivalente no campo dos números. Foi assim que, em 2017, pela primeira vez em sua história, a Real Sociedade Estatística da Grã-Bretanha convidou seus membros e o público em geral para elegerem sua estatística favorita.

A “estatística do ano”, a que recebeu mais votos, foi uma que indicava a percentagem de terra no Reino Unido, ocupada por áreas densamente povoadas.

Essas áreas, também conhecidas pelo termo “fábricas urbanas contínuas”, são aquelas ocupadas por prédios, casas e construções.

Mesmo que você nunca tenha visitado o Reino Unido, nem jamais tenha ouvido falar desse tipo de estatística, tente dar um chute sobre essa percentagem.

Se quiser algo mais próximo, tente chutar o percentual do território brasileiro ocupado por áreas urbanizadas (as respostas poderão ser encontradas mais abaixo nesse artigo). 

Chutes não tão “calibrados” 

O que causou surpresa na estatística do ano vencedora, na eleição do Reino Unido (e provavelmente foi o que a fez ser mais votada), foi ser tão diferente daquilo que a maioria das pessoas imaginava sobre o assunto.

As pessoas podem ser totalmente ignorantes a respeito da altura da maior montanha de Marte, da extensão do Rio Nilo ou da produção diária de petróleo cru, a menos que tenham um interesse especifico nesses assuntos.

Porém, esperava-se que as pessoas que vivem no Reino Unido fossem capazes de adivinhar a resposta correta com razoável assertividade. Talvez com um fator de diferença máxima de 2 ou 3 vezes entre suas opiniões e a resposta certa. O mesmo provavelmente se aplicaria aqui no Brasil e em outros países.

Os chutes calibrados são uma combinação intrigante de fatos e crenças e de certo modo, são uma mistura entre nossos dois modos de pensar tão bem descritos por Daniel Kahneman em seu “best seller“ (Rápido e Devagar – Duas Formas de Pensar).

O modo rápido e impulsivo de pensar, o Sistema 1 do cérebro, explora nossos sentimentos e impressões e o modo devagar e lógico, o Sistema 2, ganha tempo para pensar racionalmente e considerar todos os fatores.

Algumas vezes não raciocinamos muito e o processo de adivinhar (o famoso “chute calibrado”) resulta do Sistema 1 que é dominado por heurística e crenças, sem nos darmos conta de que é isso que está acontecendo. 


Nota: Heurística = processos cognitivos empregados em decisões não racionais, definidas como estratégias que ignoram parte da informação com o objetivo de tornar a escolha mais fácil e rápida.


No caso da estatística acima, o chute foi influenciado pelo fato de 83% das pessoas no Reino Unido viverem em aglomerados urbanos. Para piorar, muitos que não vivem nas cidades, trabalham nelas. Muito parecido com o que acontece no Brasil. Ou seja, áreas construídas são marcantes em nossa experiência, assim como na deles.

Até visitamos o interior ou ocasionalmente percebemos quão pequeninas são as cidades vistas do alto, quando viajamos de avião. Ficamos surpresos com aqueles pontinhos em que se resumem as cidades e a imensidão de espaço vazio entre uma e outra.

Mesmo assim, a imagem prevalente em nossas mentes é dominada por tijolos, concreto, estradas e edifícios e isso “calibra” nosso chute mais do que qualquer raciocínio lógico.

Kahneman chama isso de “Tudo que existe é o que você vê” (em inglês: WYSIATI – What You See Is All There Is). Reflete nossa tendência a sermos influenciados mais fortemente pelo que sabemos e está ligado aos diversos vieses cognitivos descritos a seguir. 

Disponibilidade heurística: o atalho mental que ativa os conceitos trazidos mais facilmente às nossas mentes. Por exemplo, quando pensamos sobre um cisne, a maioria das pessoas imagina um cisne branco, simplesmente porque essa é a única cor de cisne que quase todo mundo vê. 

Negligência do cenário básico: faz muitos acreditarem na força da fé para curar doenças ou outras intervenções que não tem nenhuma base científica. Quando não sabemos qual a chance de que uma determinada condição melhore sem qualquer intervenção humana, é tentador acreditar que tal melhoria é resultado de reza brava, milagre, ação santificada ou da mão divina. 

Viés de confirmação: reforça o efeito - “Tudo que existe é o que você vê”, porque nos faz ver (e até procurar) o que acreditamos ser a resposta correta. 

Viés do excesso de confiança: faz com que nos tornemos excessivamente confiantes de que o que enxergamos é tudo que existe.

Por falar nisso, a percentagem da área densamente construída no Reino Unido é de 0,13%, o equivalente a 320 km2. No Brasil a área urbanizada é de meros 0,63% de todo o território do país. Seu chute chegou perto? 

Percepções Perigosas 

O efeito que nos faz errar nas avaliações não está limitado somente àquilo que enxergamos fisicamente. Esse efeito pode ser estendido facilmente para “Tudo que existe é aquilo que acreditamos existir”.

A empresa de pesquisas IPSOS MORI conduz regularmente um estudo chamado “Perigos da Percepção”. O estudo entrevista pessoas de diversos países buscando entender suas percepções sobre determinados parâmetros sociais, como a incidência de gravidez na adolescência ou crença em céu e inferno.

Na versão de 2017 desse estudo, os entrevistados tinham que dizer em qual país acreditavam haver maior consumo de álcool. A Rússia surgiu no topo da lista (quando na verdade está apenas na sétima posição).

O resultado não tem nada a ver com os russos bêbados, com uma garrafa de vodca na mão, que vemos na TV comemorando o sucesso (até aqui) na Copa do Mundo, mas sim porque nos baseamos numa informação que simplesmente não é verificada.

Meros 4% dos respondentes colocam o verdadeiro campeão de consumo de álcool (a Bélgica) nas três primeiras posições. Até mesmo na Bélgica, apenas 5% dos respondentes adivinharam habitar o país mais “bebum” do mundo.

Os estudos dos “Perigos da Percepção” estão cheios desse tipo espetacular de erro de percepção. As figuras abaixo mostram alguns exemplos intrigantes de chute nos quais as pessoas erram por margens consideráveis, muitas vezes maiores do que uma ordem de magnitude.

Nota de atenção: Os exemplos acima foram selecionados para sustentar os argumentos do artigo. “O que você vê não é tudo que existe!”


Em resumo 

Fazer uma estimativa ou dar um chute calibrado, ainda que nos pareça um processo bem embasado, nem sempre representa a resposta mais racional possível, porque não dispomos de todos os fatos relevantes toda vez que tomamos uma decisão e nossa capacidade de raciocínio é limitada.

“Tudo que existe é o que você vê”, envolve muito menos raciocínio e muito mais conclusões apressadas. Nós superestimamos a relevância daquela fração de informação que temos disponível e a usamos para generalizar. Fazemos isso imbuídos da maior convicção.

No exemplo da percentagem de terra ocupada no Brasil, não é que a gente desconheça as vastas áreas de espaço desocupado entre São Paulo e Manaus. É que passamos nossas vidas nas cidades, entre construções de prédios e casas e isso nos contamina.

A natureza perniciosa do “Tudo que existe é o que você vê” é precisamente o fato de não raciocinarmos. Uma antiga história ilustra bem como pulamos apressadamente para conclusões: 

Um pai e um filho sofrem um terrível acidente e o pai morre. O filho é levado correndo para um hospital. Quando está prestes a ser operado, o cirurgião exclama: “Não posso operar - esse garoto é meu filho!” 

Como pode isso?

Da mesma forma que assumimos que todos os cisnes são brancos porque é isso que mais vemos, nós tendemos a pensar que os cirurgiões são todos homens, porque a maioria dos cirurgiões que conhecemos ou ouvimos falar são do sexo masculino. Você, por um momento, imaginou que o cirurgião pudesse ser a mãe do menino?

“Tudo que existe é o que você vê” distorce inconscientemente nossa percepção e reforça nossos estereótipos.

Claro que nunca conseguimos ver tudo e sempre vai existir um monte de coisas que estão fora do nosso campo de visão, coisas de que não lembramos ou coisas que contrariam nosso conhecimento.

O que podemos fazer é sempre nos lembrar de que temos uma perspectiva limitada do mundo a nossa volta – especialmente quando nos sentirmos confiantes demais em nosso julgamento.

Se tivermos ciência do nosso viés cognitivo do “Tudo que existe é o que nós vemos”, então já estaremos enxergando um pouco mais.

Poupe para a aposentadoria, seu futuro está além daquilo que você consegue enxergar hoje! “Nem tudo que existe é o que nós vemos”.

Grande abraço,

Eder.




Fonte: Adaptado do artigo “All there is” escrito por Koen Smets

Crédito de Imagem: Adobe Stock

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Adultos de meia-idade cometem menos erros ao tomarem decisões financeiras do que os mais jovens e os mais velhos




 
De São Paulo, SP.
 
Muitos dos mais influentes tomadores de decisões financeiras em nossa sociedade, seja no mundo dos negócios ou na política, estão na meia-idade. A idade média dos CEO e CFO das 500 maiores corporações em todo o mundo, medidas pela receita (Fortune 500), está na faixa dos 55 anos.
 
A pesquisa “Chief Executive Study”, da Strategy&, revela que no Brasil a idade média dos CEO ao assumirem o cargo está em torno de 52 anos. Historicamente, a idade em que são nomeados o Presidente do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional, salvo raras exceções, também gira em torno dos 50 anos.
 
Será que existe alguma espécie de pico da razão e do raciocínio financeiro por volta dos cinquenta? Estudos recentes nas áreas de economia, psicologia e neurociência sugerem que, sim, pode haver.
 
Ao analisar os erros financeiros cometidos em diversas situações envolvendo crédito ao consumidor, como por exemplo, pagamentos de saldo do cartão abaixo do ideal, juros no financiamento de carros e imóveis, decisões sobre taxas de administração etc., uma pesquisa conduzida por Agarwal, Driscoll, Gabaix, & Laibson em 2009 identificou a idade média em torno da qual os erros são minimizados: 53,3 anos (com desvio padrão de 4,3 anos).
 
Ou seja, é na meia idade que os indivíduos tomam as decisões financeiras mais eficazes, resultando em baixas taxas de administração, juros menores em operações de crédito e também em empréstimos.
 
A explicação para isso se baseia em um trabalho clássico publicado em 1967 por Horn & Cattell que analisou os efeitos da psicologia do envelhecimento sobre a inteligência fluída e a inteligência cristalizada.
 
Inteligência fluída é a performance que temos ao desempenhar tarefas novas e pode ser medida ao longo de várias dimensões (memória de trabalho, visão espacial, raciocínio, velocidade de processamento cognitivo). A inteligência fluída apresenta um claro padrão etário sugerindo um declínio de um percentil por ano a partir dos 20 anos de idade.
 
Por outro lado, os declínios em nossa inteligência fluída relacionados à idade são parcialmente compensados pelo aumento na inteligência cristalizada, também chamada de experiência ou conhecimento, que cresce com o tempo.
 
Os autores do estudo de 1967 apresentaram um modelo mostrando como a performance na tomada de decisões financeiras é influenciada por mudanças divergentes que acontecem em nossa habilidade cognitiva ao longo da fase adulta.
 
Eles mostraram que tanto os tomadores de decisão mais novos como os mais velhos cometem erros, por razões diferentes. Os mais jovens são cognitivamente robustos, porém, inexperientes. Os mais velhos se baseiam na experiência de vida, no entanto, são limitados em suas habilidades cognitivas fluidas.
 
O pico acontece na meia idade, um ponto ótimo em que os indivíduos ainda não sofreram grande declínio na capacidade de aprender coisas novas e ao mesmo tempo possuem décadas de experiência de vida.
 
Em outras palavras, nossa performance cognitiva melhora entre a juventude e a meia idade até atingir o ápice e começar, então, um declínio constante. Consequentemente, adultos de meia idade podem estar no ponto ótimo para tomada de decisões financeiras numa espécie de curva em “U” invertido, que combina os dois efeitos advindos da idade.
 
Jovens tendem a ter baixos níveis de inteligência cristalizada, mas altos graus de inteligência fluída, enquanto tomadores de empréstimo mais velhos tendem a ter níveis elevados de inteligência cristalizada, mas inteligência fluída relativamente reduzida.

Isso explica um pouco a diferença entre as escolhas intertemporais de adultos e jovens quando se aborda a previdência.
 
Nas decisões que dependem de experiência acumulada ao longo da vida, há evidências de que adultos mais velhos preservam ou até melhoram a tomada de decisões financeiras (Li, Baldassi, Johnson, & Weber, 2012). A literatura de estudos do comportamento revela que adultos mais velhos frequentemente estão mais propensos a esperar por períodos curtos para obter montantes maiores de dinheiro do que receber montantes menores de forma imediata (Löckenhoff, 2011). 
 
Um estudo recente de neurociência mostrou que diminui com a idade a forte atividade na região do cérebro chamada de “ventrum striatum” de jovens adultos expostos a recompensas imediatas. Nos adultos mais velhos o nível de atividade dessa região do cérebro é o mesmo, esteja uma recompensa disponível agora ou mais tarde (Eppinger, Nystrom, & Cohen, 2012; Samanez-Larkin et al., 2011a).
 
É como se as pessoas mais velhas soubessem que receber R$ 50 daqui a duas semanas é tão bom quanto seria receber hoje. Os jovens de vinte e poucos anos apenas não tiveram a oportunidade de experimentar o efeito que décadas de taxas de juros pode ter sobre um investimento e assim valorizar a recompensa da espera.
 
Planos de previdência funcionam como o exemplo acima, ou seja, o desafio é convencer jovens impacientes a decidir poupar para a aposentadoria como o fazem os mais velhos. Uma série de experiências fascinantes conduzidas com apoio do Laboratório de Realidade Virtual da Universidade de Stanford está fazendo exatamente isso, aumentando a conexão de pessoas mais jovens com seu futuro eu. Ver um avatar do seu eu envelhecido (através de realidade virtual), reduz o desconto temporal aumentando a poupança para a aposentadoria ainda no começo da vida.
 
A combinação do foco econômico-financeiro tradicional nas decisões do dia-a-dia, com estudos de psicologia e neurociência sobre o funcionamento do cérebro e nosso comportamento, têm levado ao surgimento de um campo de pesquisa verdadeiramente multidisciplinar no estudo do processo de decisão durante a vida.
 
Apesar dos progressos recentes serem bastante promissores, esta ainda é uma área que está engatinhando. A integração das diversas abordagens no estudo da tomada de decisões tem um tremendo potencial para causar impacto científico e social.
 
Se formos bem sucedidos, o conhecimento adquirido com esse tipo de pesquisa poderá ser usado numa escala maior para elaboração de políticas públicas e em escala individual para ajudar as pessoas de qualquer idade a tomarem melhores decisões, contribuindo para melhorar o bem estar de todas as pessoas ao longo de suas vidas.
 
Ah, já ia esquecendo, você pode brincar comigo por causa da minha “meia idade”, mas se eu fosse você, ao invés disso, eu aproveitaria a oportunidade para me perguntar o que fazer com seu plano de aposentadoria. Eu estou no ponto ótimo para te ajudar.
 
 
Abraço forte,
Eder.


Fonte: Adaptado dos artigos “Financial Decision Making and the Aging Brain”, de autoria de Gregory R. Samanaez-Larkin e “What is The Age of Reason?”,  escrito por David Laibson, John C. Driscoll, Sumit Agarwal e Xavier Gabai

Crédito de Imagem: CartoonStock

 
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