quinta-feira, 4 de setembro de 2025

A MATEMÁTICA QUE TODOS USAM SEM SABER

 


De Sāo Paulo, SP.


Quando a gente pensa em matemática, o que vem na cabeça?

📐 Fórmulas complicadas.

📊 Provas de colégio.

😩 E aquela frase clássica: “para quer estudar isso, nunca vai servir pra nada na vida real”.

Pois é, adivinha?

A matemática está em todo lugar.

E muitas vezes salvando o seu dia ou te dando prazer, sem você nem perceber.


Crianças tagarelas no ensino fundamental

Certo dia no final dos anos 1700 em uma escola de Brunswick, cidade do centro-norte da Alemanha localizada no estado da Baixa Saxônia, os alunos do ensino fundamental estavam falando alto demais e fazendo a maior algazarra durante a aula.

Então, para silenciar as crianças, o professor escreveu um problema no quadro negro e pediu que os alunos resolvessem.

O professor pediu que as crianças somassem todos os números de 1 a 100, imaginando que levaria um bom tempo para elas resolverem o problema, retomando assim o controle da classe.

Mas depois de uns poucos minutos, o pequeno Gauss voltou novamente a tagarelar alegremente com os colegas. O professor, então, perguntou por que Gauss estava falando e este respondeu que já havia resolvido o problema.

Enquanto todos os demais alunos da classe estavam somando os números um a um, Gauss fez algo incomum. Ele percebeu que sempre encontrava 101 se somasse um número na esquerda da sequência com um número da direita.

Por exemplo: 1+100; 2+99; 3+98 ... 50+51, sempre dava 101. Como havia 50 pares de números, Gauss multiplicou 50 x 101 e chegou no resultado certo: 5.050.

O alemão Johann Carl Friedrich Gauss, que viveu entre 1777 e 1855, se tornou mais tarde um dos grandes gênios da matemática.

Genial.

O que parecia uma tarefa impossível virou um cálculo elegante.

Hoje, essa lógica de achar padrões escondidos está por trás de aplicativos que otimizam rotas de entrega, de algoritmos que fazem investimentos e até da música que você ouve no streaming.

Gauss era um gênio e sua forma de pensar ajuda a entender muito sobre o pensamento matemático. O pensamento matemático em si, pode ser aprendido, genialidade é outro departamento.

Carl Friedrich Gauss (1777-1855

Guinness, cerveja e estatística 🍺

Corta para a Irlanda do início do final do século XIX.

A cervejaria Guinness queria melhorar a qualidade da bebida, mas como testar ingredientes sem desperdiçar barris inteiros do precioso produto?

Credito de Imagem: www.diageobaracademy.com

Em 1899, a cervejaria Guiness contratou William Sealy Gosset, recém graduado em Oxford com um título que combinava química e matemática.

Ele foi contratado por seus conhecimentos em química, afinal de contas, o que um matemático acrescentaria em uma cervejaria, não é verdade?

Só que a contribuição mais importante de Gosset para a empresa foi usando sua formação matemática, que revolucionou a indústria cervejeira.

Quando o malte moído era preparado para fermentação, uma determinada quantidade de levedura era meticulosamente medida e usada. Leveduras são seres vivos e eram mantidas vivas em recipientes específicos com meio líquido onde se multiplicavam.

Os técnicos pegavam uma amostra do meio líquido e contavam a quantidade de leveduras para saber quanto adicionar à cerveja em fabricação. Tinha que ser uma medida muito controlada, porque poucas leveduras produziriam uma fermentação incompleta; muitas, deixariam a cerveja amarga.

Gosset se questionou o quão exata era aquela medida que os técnicos faziam naquele processo crucial para fabricação da cerveja. Ele fez uma série de medições, analisou os resultados e determinou que a contagem de células de levedura por unidade de volume poderia ser modelada com uma distribuição probabilistica conhecida como Distribuição de Poisson.

Com isso, Gosset foi capaz de criar e implementar regras e métodos de medição que levaram a taxas de concentração de células de leveduras mais exatas do que eram feitas anteriormente.

Usando os métodos matemáticos de Gosset, a cervejaria Guiness passou a fabricar um produto com melhor qualidade e muito mais consistente.

Gosset convenceu seus empregadores a lhe concederem o afastamento de um ano para que ele pudesse estudar com Karl Pearson.

Como a empresa proibia que funcionários publicassem qualquer coisa relacionada ao tema “cerveja”, Gosset adotou academicamente o pseudônimo de “Student”.

Todo estudante de estatística conhece o famoso “Teste t de Student”.

Por trás daquela “cerva” que você bebe com seus amigos nos bares, lá está a matemática e você nem sabia.


Tanques de guerra e números de série

Agora, um salto para a Segunda Guerra Mundial.

Credito de Imagem: www.quatrorodas.abril.com.br

Em tempos de guerra, um dos objetivos chave da inteligência militar é determinar o poder de força do inimigo. Por isso, na II Guerra Mundial, os aliados queriam estimar a quantidade dos temidos tanques Panzer que os alemães tinham.

Espionagem? Nem sempre funcionava. A soluçāo veio da matemática.

Para estimar quantos tanques a Alemanha produzia por mês os matemáticos se voltaram para… os números de série das peças capturadas.

Comparando os intervalos, chegaram a estimativas incrivelmente precisas da produção alemã de tanques de guerra.

Mais exatas até do que os relatórios de inteligência da época.

De acordo com as estimativas convencionais da inteligência dos Aliados, os alemães estariam produzindo em torno de 1.400 tanques por mês entre junho de 1940 e setembro de 1942.

Os cálculos estatísticos baseados nos números de série dos tanques capturados, indicou a quantidade como sendo 246 por mês. Após a guerra, registros alemães capturados mostraram que a quantidade real era de 245.

Estimativas para alguns meses específicos são mostradas na tabela abaixo.

Fonte de dados: Wikipídia

Todos veem, mas poucos enxergam

Credito de Imagem: Credito de Imagem: www.sofrep.com/fightersweep/

Um dos problemas mais notáveis que a matemática ajudou a resolver, foi o reforço de blindagem nos bombardeiros americanos enviados para as campanhas sobre a Europa durante a II Guerra.

O desafio era aumentar as chances de sobrevivência dos aviões, sem comprometer seu alcance de voo nem sua capacidade de manobra.

Diante da impossibilidade de cobrir os aviões inteiros com pesadas placas blindadas, era preciso priorizar os locais de colocação das placas. A abordagem adotada pelo foi olhar os bombardeiros B-29 que retornavam das missões de ataque e identificar os locais mais atingidos pelos tiros inimigos.

O pessoal observou que partes da fuselagem - o corpo principal do avião - e das asas tinham praticamente duas vezes mais furos de bala (pontos vermelhos na figura abaixo) do que a plataforma dos motores, da cauda e o nariz dos aviões.

Portanto, foi tomada uma decisão simples: aplicar mais reforço na fuselagem, afinal, era onde a tripulação ficava de modo que fazia mais sentido aplicar proteção extra ali.

No entanto, uma recomendaçāo diferente foi feita por Abraham Wald - um PhD em Matemática pela Universidade da Áustria que integrava o Statistical Research Group – um grupo de pesquisas que aplicava conhecimentos de matemática e estatística para ajudar os americanos a solucionar diversos problemas relacionados a guerra.

Wald indicou que a abordagem sugerida estaria completamente errada. Ao invés disso, ele recomendou que o reforço na blindagem deveria ser feito em todos os locais onde não havia buracos de bala (círculos em azul na figura acima).

Por quê? Porque os únicos aviões analisados foram aqueles que sobreviveram aos ataques e retornaram às bases compondo, portanto, uma amostra exatamente oposta àquilo que o conjunto de dados mostrava a respeito do problema.

Os aviões não estavam retornando com furos de bala nos motores e na cauda porque esses eram abatidos pelos danos nesses locais e caiam no campo de batalha.

Senhores, vocês precisam colocar reforços nas partes onde não há buracos, porque é onde estavam os buracos nos aviões que não voltaram – disse Wald.

Por sorte, a mente matemática de Abraham Wald foi capaz de enxergar além dos dados disponíveis e entender o contexto completo da situação, salvando milhares de vidas nesse processo.


TECONTEI? Por que tudo isso importa pra você

Do planejamento da sua aposentadoria 🍀 ao copo de chope bem tirado 🍻, da sua liberdade até o preço do Uber que você pega no fim do dia 🚗 — a matemática está lá.

É a arte de transformar problemas complicados em soluções simples. O motor invisível que move o mundo.

Então, da próxima vez que alguém soltar um:

“isso é só matemática”,

… responda sem medo:

Só? Nāo! Isso é absolutamente tudo!


Grande abraço,

Eder.


Opiniões: Todas minhas| Fontes: Artigos de minha autoria publicados no Blog do Eder

Disclaimer: Esse artigo foi escrito com uso de IA, baseado em prompts do autor e informações das fontes citadas.


quarta-feira, 3 de setembro de 2025

CRYPTOECONOMIA: NOVA ERA, NOVOS BENCHMARKS, NOVA POUPANÇA DE LONGO PRAZO




De Sāo Paulo, SP.


Se você acha que investir em previdência complementar ainda é sinônimo de NTN-B, CDB de bancão, fundos multimercados de gestores manjados e planos de contribuiçāo definida que rendem pouco, prepare-se: o jogo mudou.

A era da cryptoeconomia chegou e com ela surgiram novos instrumentos de poupança de longo prazo que podem competir — e até substituir — os atuais fundos de pensão, caso esses continuem parados no tempo e sem poder investir em ativos digitais.

Por que precisamos de novos benchmarks?

Em qualquer mercado, precisamos de “réguas de comparação”, os famosos benchmarks. São eles que dizem se um investimento está indo bem ou mal em relação ao mercado.

Nos fundos de pensão tradicionais, o parâmetro costuma ser o CDI, o IPCA ou o Ibovespa. Mas e no universo crypto? Usar o CDI para medir crypto é como medir corrida de Fórmula 1 com uma ampulheta — não faz sentido, nenhum.

Se a poupança do futuro vai incluir ativos digitais, precisamos de benchmarks próprios desse novo ecossistema. É aqui que entram os índices de mercado crypto.


Índices da CoinDesk: novos termômetros

A CoinDesk, referência mundial em informações sobre o setor de cryptoativos (ativos digitiais), desenvolveu alguns dos principais índices que hoje servem como “réguas” para aferiçāo dos investimentos no mercado crypto.

CoinDesk 20 Index (CD20)

  • Pensa nele como o “Ibovespa das cryptos”, o CD20 captura 80% do mercado de ativos digitais.

  • Reúne os 20 ativos digitais mais importantes e líquidos do mercado (nada de memecoins, nem cryptomoedas sem volume).

  • Serve como base para criação de produtos financeiros, ETFs e fundos que buscam refletir os principais mercados de crypto.

  • Lançado em 12/01/2024 com valor base 1.000.

  • Frequência de atualizaçāo: calculado e publicado uma vez a cada 5 segundos.

  • Lamina do CD20: aqui


Composiçāo do Índice - Credito de Imagem: Coindesk

CoinDesk 80 Index (CD80)

  • É como abrir o leque além do CD20: inclui as 80 cryptomoedas mais líquidas que não fazem parte do CD20.

  • Ajuda a dar uma visāo mais ampla do mercado, sem deixar ninguém preso só às moedas gigantes.

CoinDesk Market Index (CMI)

  • É o mais abrangente dos índices da Coindesk: representa praticamente todo o mercado crypto (menos as stablecoins).

  • Ainda pode ser dividido em subíndices por setor: DeFi, contratos inteligentes, cultura e entretenimento.

  • Para quem olha o longo prazo, dá uma visāo completa do ecossistema.


Credito de Imagem: Grupo Voitto

Outros índices que também importam

Além dos índices da CoinDesk, existem outros benchmarks reconhecidos globalmente:

  • S&P Cryptocurrency Indices – a mesma S&P que criou o S&P500 agora tem índices para Bitcoin, Ethereum e um índice amplo de cryptomoedas.

  • Bitwise 10 Large Cap – acompanha as 10 maiores cryptomoedas por valor de mercado.

  • CMC Crypto 200 – concentra o foco nas 200 maiores moedas, usado como referência do mercado global.

  • DeFi Pulse Index – especializado em tokens de finanças descentralizadas.


O que isso tem a ver com fundos de pensão?

Tudo a ver!

Os fundos de pensão foram criados para dar segurança financeira de longo prazo. 

Mas se continuarem limitados ao conforto e limitaçāo de rentabilidade dos títulos públicos, A investimentos em renda fixa, vão perder relevância para soluções digitais que oferecem diversificação, liquidez e até participação em setores inteiros de uma nova economia que nāo só já chegou, mas começa a ultrapassar a anterior.

Imagina um jovem de 25 anos decidindo onde guardar o dinheiro para a aposentadoria dele:

  • De um lado, um fundo de pensāo tradicional, que investe 70% em títulos do governo e promete rendimento limitado e tímido quando comparado aos ativos digitais; e

  • Do outro, uma aplicação simples que replica o CoinDesk 20, oferecendo exposição às 20 principais cryptomoedas, com possibilidade de ganhos muito mais aderentes à economia digital.

Se os fundos de pensāo não abraçarem esses benchmarks, logo, nāo criarem novos perfis de investimentos com ativos digitais, vão perder a corrida pela confiança da próxima geração de poupadores - aliás, já estāo perdendo.


Conclusão

Estamos entrando numa era em que poupança para o futuro não é mais sinônimo de aplicações financeiras tradicionais.

A cryptoeconomia trouxe novos termômetros (CoinDesk 20, 80, CMI e outros) que permitem acompanhar, comparar e investir nesse universo incrível das novas classes de ativos digitais, com a mesma seriedade e profissionalismo dos tradicionais índices de bolsa, renda fixa, imoveis e outros.

A pergunta que fica é:

  • Os fundos de pensão vão esperar o bonde passar e virar dinossauros financeiros?

  • Ou vão assumir a dianteira e oferecer aos seus participantes o que eles realmente querem — segurança no futuro, mas com os motores da nova economia?

Se depender da velocidade com que as coisas acontecem na era digital, a segunda opção precisa acontecer rapidamente.

Porque, em tempos de cryptoeconomia, quem demora a se mover e “dorme de touca” … fica para trás logo na primeira curva.

Grande abraço,

Eder.


Opiniões: Todas minhas | Fontes: COINDESK20, COINDESK80 e CMI.

Disclaimer 1: Esse artigo foi escrito com uso de IA, baseado em prompts do autor e informações das fontes citadas.

Disclaimer 2: Não deveria ser preciso dizer isso, mas receio ter que deixar explicito: esse texto não é aconselhamento financeiro, não é orientação de investimentos, não recomenda a compra de nenhum ativo real ou digital, nem de valores mobiliários, nem de coisa nenhuma. Aja com prudência.


segunda-feira, 1 de setembro de 2025

APOSTAS, INVESTIMENTOS E HIPOCRISIA: SE VOCÊ ESTIVER DE TERNO OU DE BERMUDA, O JOGO É DIFERENTE!



De Sāo Paulo, SP.


Se você for na XP, uma corretora de valores, você pode apostar em ações. Pode fazer quantas apostas quiser.

Você pode apostar em fundos de índices - por exemplo o BBOV11, um ETF que reflete a rentabilidade do IBOVESPA - e manter suas cotas como investimento para sempre.

Se quiser mais adrenalina, você pode comprar todo dia de manhã um monte de ações no mercado futuro e vendê-las à tarde.

Se fizer um monte de apostas no mercado de ações, você ganhará em algumas e perderá em outras: até as firmas profissionais de trading com histórico muito bom, ganham só em cerca de 53% das apostas.

Você pode se considerar feliz se ganhar em 51% das apostas.

Se você entrar no site da Betano ou da BetNacional, você pode apostar em esportes. Pode fazer quantas apostas quiser numa ampla gama de esportes. Além do futebol é possível apostar em tênis, vôlei e numa serie de outras modalidades.

Se fizer um monte de apostas, ganhará algumas e perderá outras. Se fizer 1.000 apostas por ano, probabilisticamente, ganhará em umas 510 (51%) e perderá nas outras 490.

A tributação no Brasil permite que 100% das perdas sejam compensadas com os ganhos, tanto nas apostas feitas em ações, como nas bets.

Nos EUA a tributação mudou recentemente e agora só permite a compensação de 90% das perdas com os ganhos no mercado de apostas. No mercado de ações, continua sendo possível compensar 100% das perdas.

Tanto lá como aqui, o governo desencoraja os jogos de azar (gambling e bets), mas nāo desencoraja o investimento em ações, nem as apostas feitas no mercado futuro de ações. Desencoraja apenas os jogos de azar normais.

Essa é uma distinção sutil.

“Mercados preditivos”: complicando a coisa ainda mais

Mercados preditivos (do inglês prediction markets) são plataformas online onde as pessoas podem “apostar” em eventos futuros.

Os eventos podem envolver eleições, mercados financeiros (por exemplo, se o IBOVESPA fechará acima de um nível específico até o final do ano), esportes (por exemplo, se um time de futebol específico vencerá o campeonato Brasileiro) ou até mesmo cultura (por exemplo, se um filme específico ganhará o Oscar de melhor filme). Basta envolver perguntas binárias, de "sim ou não", que serão resolvidas até uma data específica

Os mercados preditivos operam com um tipo de instrumento financeiro chamado “contrato de evento”, vinculado ao resultado de um evento futuro.

Um bom exemplo são as eleições presidenciais.

Os contratos futuros podem ser estruturados para pagar R$ 1 se o resultado previsto se materializar e R$ 0 (zero) caso ele não ocorra.

Se um contrato futuro, declarando que o candidato X será o presidente, é negociado a 70 centavos, isso significa que, de acordo com o mercado, há 70% de chances do candidato X ganhar as eleições.

Se o contrato do candidato Y for negociado a 30 centavos, o mercado coloca suas chances em 30%.

Se o contrato que você comprou prever corretamente o resultado final, você receberá R$ 1 por esse contrato. Se o resultado for o contrário, você não ganha nada.

Conforme o tempo passa e mais e mais pessoas compram os contratos, os preços variam de acordo com as condições do mercado e as informações combinadas mantidas pelos participantes do mercado.

Não! Peraí, desculpe! Errado!

Os mercados preditivos oferecem um mercado de previsões onde você pode prever qual time vencerá uma partida esportiva.

Se você prever corretamente, ganha dinheiro, se você prever incorretamente, você perde dinheiro.

Portanto, você não "aposta em esportes e outras coisas”, você "prevê resultados por dinheiro".

Completamente diferente!

O resultado se torna previsível com o passar do tempo.

Como o pagamento depende da previsão precisa do resultado de um evento, as pessoas vão se esforçar mais para chegar à conclusão mais precisa.

À medida que um número maior de pessoas faz mais pesquisas de mercado para chegar à conclusão mais provável, o resultado previsto será mais favorável para um lado.

Se você apostar em cara ou coroa, a probabilidade de resultado será sempre igual: 50% cara, 50% coroa. Não há condições de mercados externos que influenciem o resultado. A sorte desempenha um papel fundamental. A esse tipo de aposta chamamos jogo de azar.

Mas os mercados preditivos dependem da sabedoria coletiva mantida por um grupo de pessoas sobre a probabilidade de um evento futuro se concretizar.

Em sua essência, aposta-se na probabilidade de resultados específicos em determinadas situações, tipo eleições, vendas de uma empresa, flutuação de preços de commodities, o vencedor do Nobel de economia, o próximo CEO da Petrobras, o valor do Bitcoin e até mudanças no clima.

Portanto, um montão de “apostas”, algumas delas em esporte.

O valor de uma aposta refletirá, na maioria dos casos, a probabilidade de um resultado se materializar. Os mercados preditivos tornam o resultado desse evento futuro, negociável.

Diferenças desconcertantes


Credito de Imagem: Joédson Alves/Agência Brasil)


Nos EUA o site de mercados preditivos Kalshi, está registrado como uma “bolsa de futuros” sob a CFTC - Commodity Futures Trading Commission.

Portanto, tecnicamente, não é um site de apostas (bets) online e sim uma parte do mercado financeiro que transaciona “futuro de commodities”. Consideravelmente melhor.

A diferença é importante por razões legais e tributarias.

De forma um tanto contraintuitiva, perdas podem ser úteis para investidores e uma parcela específica do setor financeiro se dedica a encontrar novos tipos de perdas fiscais.

Mercados preditivos como o Kalshi permitem isso! Imagine o seguinte:

1. Você é um investidor sofisticado, investe em ações de longo prazo e tem um alto patrimônio líquido, então, você gostaria de otimizar seus impostos, aproveitando estrategicamente perdas fiscais.

2. Você também gosta de apostar em futebol, não porque seja viciado em apostas, mas porque é rico e futebol é divertido. Você perde mais do que ganha, mas se diverte e pode pagar.

3. Se você apostar recreativamente em futebol no Kalshi, isso é bom para seu portfolio de ações.

Temos, então, uma situação onde uma plataforma de mercados preditivos como o Kalshi) oferece “apostas esportivas” (na verdade previsões de resultados) que competem com casas de apostas, mas essas legalmente não são consideradas "jogos de azar"

Uma situação extremamente, extremamente estranha: faça suas apostas esportivas em uma bolsa de futuros (nos EUA regulamentada pela CFTC) porque isso oferece vantagens fiscais.

Essa, provavelmente, não é uma situação pretendida pelos sistemas fiscais ou regulatórios financeiros dos EUA nem no Brasil, mas aqui estamos nós.

Há algo de cínico nisso em simplesmente não considerar que isso tenha a ver com jogos de azar.

Ninguém tem culpa pelo fato dos modernos mercados financeiros para o investidor de varejo terem se tornado lugares divertidos para se jogar e as pessoas estarem aderindo a isso.

A hipocrisia da coisa toda


Credito de Imagem: www.depositphoto.com


A economia e os mercados financeiros viraram memes, então, todo mundo quer curtir o momento.

A Robinhood - uma grande corretora americana de açōes e crypto - quer vender para investidores do varejo, ações de empresas Ltda. e de capital fechado, mesmo sabendo que essas empresas não divulgam seus balanços.

O CEO da Robinhood, Vlad Tenev, argumentou recentemente que:

“A SpaceX não é mais arriscada do que muitas outras coisas em que você pode investir seu dinheiro”

Temos que admitir que ele nāo está errado. O público em geral, pode comprar um monte de coisa especulativa, seja nos mercados de ações (tipo opções com prazo de “zero dias”!) ou nos mercados de cryptomoedas (memecoins) ou fazendo apostas esportivas em bets e mercados preditivos.

Vlad, da Robinhood, tem razão. Reconheceu uma oportunidade de servir melhor seus clientes, já que os interesses deles convergem entre mercados financeiros, notícias, esportes e entretenimento.

A teoria de que os mercados financeiros investem na economia real, em atividades que fazem a economia girar e que apostas em esportes representam investimentos de soma-zero – está ultrapassada.

Basta olhar para os 70% dos mais de R$2 trilhōes do patrimônio dos planos de previdência complementar corporativos e individuais brasileiros investidos em títulos públicos federais.

A ligação entre mercados financeiros e atividade econômica real sempre foi indireta e imperfeita. Muitas atividades dos mercados financeiros sempre foram irracionais e especulativas e a cada dia que passa se mostram crescentemente nāo-essenciais.

Tudo se resume a apostas esportivas. Apostar em esporte é um esporte, apostar em política é esporte, apostar em ações é exporte, apostar em crypto é exporte.

Democratizar os investimentos não significa dar às pessoas maneias mais fáceis de investir em um crescimento econômico mais amplo ou financiar novas ideias de negócios. Significa deixar que elas façam as apostas que querem fazer.

A maneira moderna de jogar (apostar) é atraves dos mercados financeiros. Como as pessoas gostam de apostar em esportes, entāo, a maneira moderna de apostar nos esportes é através dos mercados financeiros.

Claro, tudo com bastante educação financeira para que haja consciência dos riscos envolvidos e para explicar a um entregador de IFood, porque ele deve evitar apostar em bets, mas a pessoa que comprou comida para viagem e mora num prédio de luxo pode continuar apostando nos mercados futuros de ações ...

Moral da história: se é para arriscar, que pelo menos a gente saiba onde está colocando a ficha — e não se iluda achando que “investimento” é sempre coisa de gente séria e “aposta” é só passatempo irresponsável.

Grande abraço,

Eder.


Opiniões: Todas minhas. Fontes: “Gambling?”, escrito por Matt Levine | “O que são mercados preditivos e como eles podem te ajudar a resolver seus problemas”, escrito por Chrisjan Pauw | “Prediction Markets: What They Are, How They Work and Risks”, escrito por Sam Taube.


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