sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

A CERCA DE CHESTERTON E A IDADE DE APOSENTADORIA NA PREVIDÊNCIA

 


De Sāo Paulo, SP.


Havia um pequeno vilarejo circundado por uma cerca de madeira bem alta, que estava lá há muito, muuuuito tempo.

Certo dia um viajante entrou na taberna e perguntou aos locais a razão da cerca estar ali, bloqueando a bela vista da paisagem dos campos ao redor.

Todos deram de ombros, ninguém sabia explicar, a cerca sempre esteve ali e todo ano as pessoas trabalhavam para consertá-la e mantê-la de pé.

O viajante sorri e diz:

“Se ninguém sabe porque a cerca existe, certamente vocês nāo precisam mais dela. Deveriam retirá-la e passar a ter uma vista melhor, o que atrairá mais viajantes e comércio para a região, melhorado a vida de todos no vilarejo”.

Os aldeões concordam. Na manhā seguinte, a cerca em volta do vilarejo é desmantelada. A vista é espetacular e todos se perguntam porque demoraram tanto tempo para fazer o que parecia tāo óbvio.

Mas ... naquela noite, enquanto todos dormiam, um grupo de lobos entra no vilarejo e devasta o estoque de mantimentos, armazenado para alimentar os aldeões por meses.

Acontece que a cerca, afinal, estava lá por uma razão.

Um escritor inglês, chamado G.K. Chesterton, descreveu esse fenômeno:

Existem certas leis ou instituições que, para simplificar, vamos dizer que funcionam como cercas ou portões em uma estrada. De tempos em tempos, surgem reformistas que dizem: “Nāo vejo utilidade nisso, vamos remover e tirar da frente”. Ao que um outro tipo mais inteligente de reformista, fará bem em responder: “Se você nāo vê utilidade nisso, certamente nāo deixarei você remover. Vá dar uma volta e pensar. Quando voltar e puder me dizer que enxerga uma utilidade nisso, eu poderei permitir que você a remova.

O fenômeno que ficou conhecido como “A Cerca de Chesterton” fornece uma grande lição:

Nunca remova uma cerca, sem antes saber por que ela está lá.

 

GILBERT KEITH CHESTERTON (1874-1936) - Credito de Imagem: Amazon.com


Na pressa em reformar os sistemas de previdência social, empurrando indefinidamente a idade mínima de aposentadoria para frente, seria importante – antes – entender: Por que, afinal, existe uma idade de aposentadoria?

Se o sistema original de previdência definiu uma idade de aposentadoria, é porque há um sentido para isso. Se mudarmos essa idade sem entender a razão original para ela ter sido definida, poderemos acabar expostos aos lobos que rondam o vilarejo do outro lado da cerca.

A maioria das discussões em torno da postergação da idade de aposentadoria da previdência social foca no financiamento do sistema, orçamento e contas públicas.

Está faltando uma reflexão profunda sobre os impactos sociais drásticos de postergar a aposentadoria para 65, 70, 75 anos, num mundo em que alguém com 55 anos já nāo consegue mais um emprego e falta para muitos, saúde para trabalhar até idades mais elevadas.

Um lembrete de que, embora a regra do sistema tradicional de previdência social - que definiu a idade de aposentadoria em 55, 60 anos - possa nāo fechar as contas públicas hoje, isso nāo significa que se deva ignorar completamente seu propósito original.

As cercas moldam nossa realidade e definem os resultados que sāo obtidos. É mais fácil subtrair do que somar.

Derrubar uma cerca velha é mais fácil do que construir uma nova.

Antes de “derrubar a cerca” da idade de aposentadoria da previdência social, os legisladores e a sociedade deveriam fazer uma pausa e se perguntar:

Por que isso estava aqui, em primeiro lugar? Qual era a sua origem?

A questão aqui não é que todas as cercas devam permanecer para sempre no lugar. Algumas realmente já cumpriram seu propósito, mas derrubá-las sem entender sua origem é perigoso.

​A verdadeira sabedoria reside em distinguir entre as cercas que ainda protegem e as cercas que simplesmente restringem. Antes de derrubar a cerca, certifique-se de conhecer os lobos que ela mantinha afastados.

No caso da previdência social, tenho pra mim que andam derrubando as cercas sem prestar atenção às reais consequências disso, no longo prazo, para as pessoas, para a economia e para a sociedade ...


Grande abraço,

Eder.


Opiniōes: Todas minhas | Fonte: Chesterton’s Fence: The Importance of the Origin, Sahil Bloom


O FUTURO DOS FUNDOS DE PENSÃO SOB A ÓTICA DE ALGUNS GRANDES PENSADORES


 


De Sāo Paulo, SP.


Vivemos um momento em que os fundos de pensão brasileiros precisam repensar sua razão de existir, seus modelos de investimento, sua governança e — principalmente — sua capacidade de enxergar o futuro antes que ele aconteça.

Para isso, nada melhor do que ouvir quem, séculos antes de existir ALM, Resoluçāo CNPC número 55 ou ERB, já entendia profundamente a natureza humana.

Peguei uma serie de pensamentos e conectei com provocações práticas sobre o futuro dos fundos de pensão, mantendo a leveza e a sofisticação que nossos leitores tanto gostam.

Virou uma intersecçāo entre uma boa conversa no Bar Luiz e uma plenária no congresso anual da ABRAPP.

A seguir - no melhor estilo TECONTEI? - estāo reunidos vários pensamentos de grandes mentes e o que eles ensinam a quem está construindo o futuro da previdência complementar.


Mark Mason

Lição #1:

As pessoas não ficam esgotadas por fazerem demais. Elas ficam esgotadas por fazerem de menos, aquilo que realmente importa.

Fundos de pensāo não perdem tempo por excesso de trabalho, mas por excesso de rotina irrelevante. O que esgota conselhos é gastar energia com burocracia, deixando de lado inovação, criatividade, governança de verdade e visão estratégica. O futuro exige foco no que importa: a segurança financeira futura do participante.

Lição #2:

A única coisa pior que falhar em uma iniciativa importante é ser bem-sucedido em uma iniciativa que nāo tem a menor importância.

Acertar nas metas operacionais não compensa errar na estratégia de longo prazo. Fundos de pensāo podem ser “bem-sucedidos” investindo em títulos públicos nos planos BD, mas fracassar em seu dever fiduciário de garantir aposentadorias dignas em planos CD, num mundo em que se vive 100 anos.

Lição #3:

“Conselhos são como roupa. Experimente e se não servir, descarte e tente outra”,

Modelos e estruturas de governança não são dogmas. Revisar estatutos, desenhos de plano, políticas de investimentos, estruturas hierárquicas, é sinal de maturidade — não de instabilidade. A pior roupa é aquela que se usa só porque estava no armário.


John Glenn

Lição #4:

“Nos sentimentos mais realizados quando estamos envolvidos em algo muito maior do que nós mesmos”

O propósito dos fundos de pensāo é gigantesco: garantir futuro para milhões de pessoas. Conselheiros e diretores deveriam sentir essa responsabilidade no dia a dia. Propósito engaja mais que um bom emprego e um ótimo bônus.


Isaac Newton

“Deus criou tudo por meio de números, pesos e medidas”

Lição #5:

Indicadores de gestāo, métricas de risco e retorno, testes de aderência de hipoteses atuariais, projeções demográficas e estudos de cenário são o alicerce de decisões responsáveis. Intuição sem número, vira aposta.


Florence Nightingale

“Atribuo meu sucesso a isto: nunca dei, nem aceitei, desculpas”

Lição #6:

Transparência é não terceirizar culpa. Fundos de pensāo precisam abandonar a narrativa do tipo: “a regulamentaçāo não deixa”, “ninguém no mercado está fazendo”, “o participante não entende que há periodos de retorno ruim”. Excelência começa quando as desculpas acabam.


Daniel Kahneman e Steve Jobs

“Ninguém jamais tomou uma decisão baseada apenas em um número. É preciso uma história” (Kahneman)

“A pessoa mais poderosa do mundo é o contador de histórias. O contador de histórias define a visão, os valores e a agenda de toda uma geração que está por vir” (Jobs)

Lição #7:

A governança pode estar perfeita, as projeçōes matemáticas podem parecer exatas, mas sem narrativa ninguém se move. Conselhos precisam aprender a contar histórias sobre risco, longevidade, oportunidades e escolhas. Dados convencem; histórias transformam.


Ben Werdmuller

“Há coisas que nāo precisam de tanto dinheiro, precisam de tempo”,

Lição #8:

Nāo custa caro inovar em previdência complementar, o que custa caro é não inovar. Engajamento, cultura previdenciária, gestāo da poupança — tudo isso requer tempo, nāo adianta gastar milhōes sem inovar.


Katherine Barchetti

“Faça um cliente, não uma venda”

Lição #9:

Todo fundo de pensāo deveria tratar o participante como cliente — não como empregado de patrocinadora. Colocar alguém dentro do plano é a parte mais fácil (ainda mais com adesāo automática). Dificil é fazer a pessoa se engajar com a gestāo da sua poupança, para que poupe o necessário e nāo o mínimo.


Fernando Abreu

“A vida é feita de escolhas. Quando você dá um passo à frente, inevitavelmente, alguma coisa fica para trás”

Lição #10:

Migrar para uma nova política de investimentos, estudar a tecnologia dos ativos digitiais, reduzir a concentracaçāo em títulos publicos? Sempre haverá trade-offs. O medo de perder impede de ganhar.


Seth Godin

“Quando um grupo se reúne, é fácil produzir barulho, basta que algumas pessoas causem alvoroço para que o barulho aconteça. Mas o silêncio, exige que todos estejam em sintonia”,

Lição #11:

Conselheiros maduros, profissionais, escutam antes de falar e buscam consenso. O consenso real é silencioso: nasce do propósito, do preparo, da convergência de ideias e do respeito ao contraditorio — não de discursos longos e aquiescência irrestrita.


Warren Buffett

“Preço é o que você paga, valor é o que você leva”

Lição #12:

Taxa de administraçāo baixa não significa bom plano de previdência complementar. O que importa é o retorno líquido creditado no saldo de conta do seu plano, uma estratégia robusta, uma governança forte e a segurança de que sua poupanca nāo terminará antes de você. O “barato” pode custar muito caro lá na frente.


René Descartes

“Exceto pelos nossos próprios pensamentos, não há nada que esteja absolutamente em nosso controle”

Lição #13:

Mercado financeiro, política governamental, disrupturas tecnológicas, oscilaçāo dos juros, transformaçōes demográficas — tudo escapa ao nosso controle. Mas uma mentalidade do conselho voltada para sustentabilidade futura da organizaçāo, não. Um fundo de pensāo é, antes de tudo, o estado de espírito de seus conselheiros.


Johannes Kepler

“Eu prefiro a crítica mais ácida de um único homem inteligente do que a aprovação irrefletida das massas”

Lição #14:

Governança séria busca o contraditório, dá ouvido à visōes de mundo diferentes, nāo tem medo de errar, nāo se contenta em seguir a manada. O pior conselho é o que tem medo do discenso, de discordar, de mudar ...


Mark Twain

“Toda vez que você se encontrar do lado da maioria, é hora de parar e refletir”

Lição #15:

Se 80% do patrimônio estāo em títulos públicos, talvez esse seja justamente o problema, nāo a soluçāo. O futuro não nasce do conforto daquilo que deu certo no passado — nasce da coragem de se caminhar em direçāo a ele.


John Locke

“Sempre achei que as ações dos homens são os melhores intérpretes de seus pensamentos”

Lição #16:

Fundos de pensāo que falam em inovação, mas investem como se estivessem em 1980, quando nāo existiam planos CD no Brasil, não estão inovando coisa nenhuma. Governança se prova na prática.


Thomas Jefferson

“Prefiro estar exposto aos inconvenientes que acompanham o excesso de liberdade, do que aos que acompanham a falta dela”

Lição #17:

Regulamentaçāo é importante, mas excesso de amarras mata a capacidade de inovar. Fundos de pensāo precisam de espaço para testar, aprender, errar e evoluir. Paternalismo e medo dos ativos digitiais por parte daqueles que regulam a previdencia complementar, nāo se coadunam com uma gestāo de riscos livre e responsavel por parte das diretorias de investimentos. Nāo cabe ao governo fazer gestāo de riscos, cabe apenas colocar parametros de atuaçāo.


Michel de Montaigne

“A idade deixa mais marcas na mente do que no rosto”

Lição #18:

Fundos de pensāo antigos, com décadas de história, carregam hábitos ainda mais antigos e arraigados. Renovar as mentalidades é tão importante quanto renovar a gestāo das carteiras de investimentos.


O futuro dos fundos de pensão não será decidido apenas por numeros e planilhas, mas por coragem intelectual, abertura ao novo e capacidade de agir antes que o amanhã chegue e seja tarde demais.


Grande abraço,

Eder.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

QUATRO LIÇŌES PARA QUEM QUISER MUDAR O DESTINO DOS FUNDOS DE PENSĀO

 


De Sāo Paulo, SP.

Há cerca de 20 anos o autor David Foster Wallace fez o discurso de formatura para os graduandos em artes no Kenyon College, uma instituição de ensino superior sediada na cidade de Gambier, Ohio – EUA.

O discurso, intitulado The Water (A Água), ensina quatro lições para qualquer um que queira mudar seu destino e isso, logicamente, vale também para o futuro dos fundos de pensão, que hoje caminham ladeira abaixo.

Liçāo #1: A realidade está diante dos nossos olhos

O discurso começa como uma parábola:

Dois peixinhos nadavam quando cruzaram com um peixe mais velho, indo na direção oposta. O peixe mais velho acena, cumprimenta-os e diz: “Bom dia, rapazes. Como está a água?” Os dois peixinhos continuam nadando mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta: “Que diabos é água?”

As realidades mais importantes estão bem diante dos nossos olhos. Nossas crenças, nossas suposições, nossa compreensão, moldam toda nossa realidade, sem que sequer nos demos conta de que elas existem.

O segredo é estar consciente das verdades, diariamente. A vida é um jogo entre consciência e ação. Consciência para entender a importância das coisas e ação para transformá-las em algo concreto.

No entanto, consciência isoladamente nunca é suficiente, porque consciência é perecível. Você pode saber de algo em determinado momento, mas se não souber no momento certo, é impossível agir adequadamente.

Os fundos de pensão vêm se consolidando nāo porque precisam de escala, mas sim porque o motivo pelo qual foram criados mudaram e mudaram radicalmente.

A realidade está bem à vista: ilumine-a.

Liçāo #2: Deixe sua arrogância na porta

Credito de Imagem: Stock.Adobe


O discurso prossegue com uma segunda história, sobre uma discussão entre um ateu e um religioso, em um bar localizado na região selvagem do Alaska - EUA.

O ateu diz: “Olha, nāo é que eu nāo tenha motivos para acreditar em Deus. Nem que eu nunca tenha experimentado essa coisa de Deus e oraçōes. No mês passado, fiquei preso longe do acampamento naquela nevasca terrível, completamente perdido, sem enxergar nada, fazia 50 graus abaixo de zero. Então, caí de joelhos na neve e tentei clamar por Deus: “Ó Deus, se existe um Deus, estou perdido nesta nevasca e vou morrer se o Senhor não me ajudar”.

O religioso olha para o ateu com ar perplexo e fala: “Bem, então você deve acreditar agora, afinal, aqui está você, bem vivo”.

O ateu revira os olhos e conclui: “Não, cara, o que aconteceu foi que um casal de esquimós passou por ali e me mostrou o caminho de volta para o acampamento”.

Na historia da nevasca, o mesmo evento, duas interpretações radicalmente diferentes (a do ateu e a do religioso). Ambas expressas com total certeza e autoconfiança. O problema:

Certeza cega e mentalidade fechada equivalem a um aprisionamento no qual o prisioneiro nem sequer sabe que está preso.

A maioria das pessoas passa pela vida com a convicção absoluta de que está certa – a respeito de tudo. Política, futuro, os outros, quase nunca consideramos a possibilidade de estarmos errados sobre alguma coisa.

Foster Wallace faz algumas sugestões: Seja um pouquinho menos arrogante, tenha senso crítico sobre si mesmo e suas certezas. Uma grande percentagem das coisas sobre as quais costumamos ter certeza, na verdade, se revela totalmente errada e ilusória. Conforme disse o famoso escritor Mark Twain:

“Não é o que você não sabe que te mete em encrenca. É o que você tem certeza de que sabe, mas que simplesmente não é verdade”

Seja humilde. Pense naquilo que faria alguém acreditar exatamente no oposto daquilo em que você acredita?

Você acha que o caminho para os fundos de pensão é a consolidação, implantação de planos família? O que dizem aqueles que pensam diferente? Você já refletiu sobre outras possibilidades?

Deixe sua arrogância na porta.

Liçāo #3: Você é que escolhe o que pensar

Credito de Imagem: www.blackbeltinthinking.com


Cruzamos a vida com uma programação pré-instalada em no nosso cérebro, centrada em nós mesmos. Foster Wallace coloca da seguinte forma:

Nosso cérebro tem uma configuração padrão, intrínseca em nosso organismo desde o nascimento... temos a crença automática e inconsciente de que somos o centro do universo e que nossas necessidades e sentimentos imediatos são o que devem determinar as prioridades do mundo.

Essa programação padrāo (default) tem uma razão evolutiva, que é a sobrevivência, mas ela acaba moldando silenciosamente tudo em nossas experiencias diárias. Todos nós vemos e vivemos a vida sob essa lente.

Ele da o exemplo de um dia típico em que saímos cansados do trabalho, enfrentamos engarrafamento, transportes lotados, passamos num supermercado apinhado de gente e vamos para casa.

Nossa programação nos faz experimentar essa cena com frustração e chateação, mas tem uma alternativa:

Se você prestar atenção, perceberá que existem outras opções. Está, de fato, ao seu alcance vivenciar uma situação caótica, cansativa, estafante dessas, com uma visão focada na mesma força que criou o mundo, as estrelas e todas as coisas: amor, camaradagem, cuidado com o próximo.

Não que essa coisa mística seja necessariamente verdade. A única coisa que é verdade com “V” maiúsculo é que você decide como vai enxergar as situações que você enfrenta, que a vida coloca na sua frente.

Você não pode mudar a realidade, mas sempre pode escolher como interpretá-la e vivenciá-la. Você pode escolher a frustração ou a compaixão, o incômodo egocêntrico ou a gratidão.

Os profissionais que trabalham em fundos de pensão, podem enxergar esse momento histórico como uma época em que foram derrubados os pilares sobre os quais o setor foi construído. Mas podem, também, ver essa como a era em que os fundos de pensāo foram remodelados, para se transforarem em outra coisa.

Você é que escolher o que pensar!

Liçāo #4: Você é que escolhe o que adorar

A última lição do discurso é a mais impactante de todas:

Na verdade, não existe ateísmo. Não existe não adoração. Todos adoramos alguma coisa. A única escolha que temos é o que adorar...

Se você adora dinheiro e bens materiais, se é neles que você encontra o verdadeiro sentido da vida, então você nunca terá o suficiente, nunca se sentirá satisfeito...

Adore seu corpo, sua beleza e seu poder de atração sexual e você sempre se sentirá feio...

Adore o poder e você acabará se sentindo fraco e com medo, e precisará de cada vez mais poder sobre os outros para anestesiar seu próprio medo.

Adore seu intelecto, a ideia de ser visto como inteligente e você acabará se sentindo estúpido, uma fraude, sempre prestes a ser descoberto

Esta lição final, no fundo, tem tudo a ver com previdência complementar e de certa forma, representa o que poupar deveria representar para as pessoas. Essa liçā0 deveria servir de guia para a reinvenção dos fundos de pensão.

Quando você se entrega cegamente à adoração de padrões culturais — dinheiro, bens materiais, poder, status — você jamais se sentirá livre.

Quando você poupa para ter um futuro financeiramente mais seguro, a questão por trás daquilo que você está fazendo é o medo. O medo de ficar sem dinheiro no futuro. Quem poupa nāo fica milionário, mas também não fica totalmente sem dinheiro.

Previdência complementar não tem nada a ver com saber poupar, tem a ver com saber gastar ...

A verdadeira liberdade vem da escolha. Da capacidade de escolher o que você vai adorar. De escolher como você mede valor. De viver por escolha, não por acaso.

Na previdência complementar, a verdadeira segurança financeira futura não vem de quanto você conseguiu poupar, ela vem de como você decide gastar seu dinheiro enquanto ele está entrando e como vai gastá-lo depois que ele parar de entrar.

Você tem o direito de escolher o que adorar ou na previdência complementar, você é que decide como gastar.

Lembre-se: Isso é Água

Credito de Imagem: FreePick


O discurso de Foster Wallace termina com uma mensagem forte:

O verdadeiro valor de uma educação genuína... quase nada tem a ver com conhecimento, tem tudo a ver com a simples consciência das coisas. A consciência daquilo que é real e essencial, aquilo que fica oculto à vista de todos ao nosso redor - o tempo todo - e que precisamos nos lembrar constantemente:

Isto é água. Isto é água.

Reinventar os fundos de pensão é mais importante, mais relevante do que nunca, num mundo em que as incertezas aumentam a cada dia, em que a sensação de insegurança é constante e o futuro nos trás cada vez mais medo e ansiedade ao invés de nos incutir esperança e otimismo.

Mas, como sempre, nós é que estamos no controle de como será esse futuro e somos totalmente capazes de extrair tudo o que desejarmos desta vida.

A água está ótima para os fundos de pensão:

Vamos nadar?

Grande abraço,

Eder.


Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “The Speech That Changed How I See the World”, escrito por Sahil Bloom.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

DESACUMULAÇĀO NA PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR: PORQUE GASTAR DINHEIRO É MUITO MAIS DIFICIL DO QUE ECONOMIZAR




De Sāo Paulo, SP.

O complexo industrial da aposentadoria – fundos de pensão, seguradoras, governo, gestores de investimentos, planejadores financeiros, Banco Central com sua semana de educação financeira – tornaram a poupança uma cruzada moral.

O roteiro é:

Acumule agora, viva depois. O diferimento da satisfação que decorre de gastar, em prol da poupança para um futuro melhor.

Contribua para seu plano de previdência complementar com o máximo possível para ter incentivo fiscal, guarde cada centavo que puder ao longo da vida, até chegar a idade de aposentadoria. E essa idade chega.

Agora você tem 60, 65,70 anos. A poupança que você acumulou durante sua carreira é real e pode até parecer impressionante, no papel.

Mas esse é um momento para o qual ninguém te preparou, nenhum programa de educação financeira abordou o assunto, nenhum fundo de pensão te orientou, nenhum governo quis saber:

A mudança de mentalidade, a virada da chave de poupar para gastar.

O oposto incômodo — e quase vergonhoso — da acumulação, o ato que faz parecer que você está infringindo a lei, chama-se “desacumulação”.

Toda disciplina que você cultivou ao longo da vida, abrindo mão de um cafezinho, contribuindo para um plano de saúde individual, investindo como um monge, se torna um fardo psicológico.

A parte mais fácil é poupar

Economizar parece nobre porque foi incutido em nossa cultura. As pessoas encaram a frugalidade como uma distinção:

“Eu me sacrifiquei. Apertei o cinto. Não mexi nas minhas economias”.

Toda vez que você checa seu saldo de conta e vê os juros compostos fazendo-o aumentar, recebe uma carga de dopamina.

Porem, assim que começa sua aposentadoria, essa carga de dopamina muda de sinal. A utilização do saldo de conta que você acumulou por décadas, o faz sentir como um ladrão.

De repente, você é o vilão da sua própria história, consumindo a pilha de dinheiro que levou 40 anos para acumular. Os estudiosos da economia comportamental chamam isso de aversão a perda.

A dor que você sente ao ver o dinheiro sair da sua conta de previdência complementar é duas vezes maior do que o prazer de vê-la crescer. Na fase de desacumulação essa dor é recorrente, você a revive todo mês.

O sistema nāo foi construído para gastar

Credito de Imagem: www.vamosprosperar.com


O sentimento psicológico não é o único problema. O sistema de previdência complementar e os fundos de pensão em si mesmos, foram desenhados para acumulação, nāo para desacumulação.

Toda arquitetura de planos CD, de PGBLs, VGBLs, perfis de investimentos, foi pensada como uma armadilha para reter o capital, não para liberá-lo.

Veja por exemplo o regime tributário regressivo, quanto mais tempo você deixa o dinheiro intocado, menos imposto você paga. A penalidade para quem gasta muito cedo vem na forma de um tapa de 35% de alíquota de imposto.

Orientação no momento de receber a renda mensal, ajuda sobre a melhor forma de resgatar valores do saldo de conta acumulado durante a aposentadoria? Risível.

Ninguém fala da volatilidade dos juros, da inflação, do saldo decrescente, do impacto desses e outros fatores sobre sua renda mensal.

Os aposentados ficam com o pior dos dois mundos: de um lado um sistema que desencoraja os gastos e do outro um que estima a duração da renda com projeções tão frágeis que fazem a astrologia parecer ciência.

Os perigos do “e se?”

A desacumulação nāo é apenas um problema matemático, é uma máquina de criar ansiedade. Toda vez que você considera receber determinado montante do saldo de conta acumulado em um plano CD, é acometido por uma tempestade de “e se?”:

  • E se eu viver até os 100 anos?

  • E se o retorno dos investimentos cair esse mês?

  • E se a inflação desgarrar de novo?

  • E se meu cônjuge precisar de cuidados médicos?

  • E se reduzirem o benefício do INSS?

De repente, aquela viagem a Buenos Aires parece irresponsável. A reforma do banheiro pode ser imprudente. Até pagar um jantar de aniversario para seus filhos pode desencadear uma espiral de pânico.

Quando você está poupando as incertezas te levam a economizar mais, quando você está desacumulando, as incertezas te paralisam.

A armadilhada herança

Filhos, netos, bisnetos, você se preocupa com todo mundo então o roteiro padrão torna-se deixar um legado financeiro para eles, mesmo quando não era esse o seu plano.

Por isso vemos pessoas com 85 anos vivendo como mendigos enquanto seus planos de previdência complementar estão abarrotados de dinheiro. Mas a realidade é que:

Seus filhos prefeririam que você nāo se martirizasse. Eles querem que você viagem, aproveite a vida, viva. A menos que sejam mimados, se forem, pare de dar presentes para eles.

Dinheiro foi feito para ser gasto e durante a aposentadoria, gastar significa ser usado em experiências, conforto e momentos alegres. Nāo foi feito para ser guardado até o seu obituário.

Aposentadoria não é planilha e planejamento nāo é cura

Credito de Imagem: www.minhavida.com.br


Os fundos de pensão acham que a solução para a fase de desacumulação está em: simuladores de benefícios, projeções pelo método de Monte Carlo, perfis de investimentos conservadores.

Você passa décadas fazendo uma dieta financeira e de repente te convidam para um banquete. Você simplesmente nāo sabe o que deve comer. Uma ideia radical:

A aposentadoria não é uma equação baseada em matemática, é uma equação baseada em tempo!

Você nāo sabe quanto tempo tem pela frente. Seu dinheiro é flexível, renovável, fungível. Seu tempo nāo é. Cada ano que você passa hesitando em usar o dinheiro que economizou para a aposentadoria, é um ano que não volta jamais.

A cultura da acumulação nos ensina a ter medo da falta de dinheiro. Mas o maior risco — aquele que ninguém coloca em um belo gráfico — é o de ficar sem tempo, sem tempo para viver mais um pouco.

Gaste com vontade

A desacumulação é difícil porque vai de encontro a tudo aquilo que somos ensinados sobre dinheiro. Gastar suas economias soa algo errado, arriscado, até mesmo vergonhoso.

Não obstante, a aposentadoria é um capítulo da nossa vida no qual gastar é nāo apenas permitido – gastar é exatamente o objetivo.

Seu futuro eu nāo quer saber sobre perfis de investimentos, rebalanceamento de carteira, tábuas atuariais. O que importa para ele é se você fez aquela viagem dos sonhos, jantou naquele restaurante bacana, foi ao show de rock da década.

Entāo, vá em frente. Gaste esse maldito dinheiro. Não de modo imprudente, não de forma tola — mas com propósito.

Porque o mais assustador sobre a desacumulação não é ficar sem dinheiro antes do fim da vida. É ficar sem vida antes do fim do dinheiro

Grande abraço,

Eder.


Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “Decumulation Nation: Why Spending Money Is Harder Than Saving It”, escrito por Troy Breiland.


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