De Sāo Paulo, SP
Josh Brown, CEO da Ritholz Wealth Management - uma empresa de gestão de ativos com sede em Nova York - cunhou o termo HALO para descrever qualquer empresa que nāo possa passar por total disruptura, simplesmente porque alguém digitou algo em um prompt:
Ele deu como exemplos as açōes da Expedia e Delta Air Lines, antes intimamente ligadas ao setor de viagens e turismo, mas que seguiram rumos distintos no ano passado;
A Delta Air Lines — uma empresa que possui aviões de verdade para levar as pessoas de um lugar ao outro — viu suas ações subirem mais de 13%; enquanto…
… as açōes da Expedia — uma das maiores agências de viagens online do mundo, uma plataforma completa para pesquisa, compra e reserva de voos, hotéis, pacotes de férias, aluguel de carros e passeios — um serviço que, em teoria, poderia ser replicado por bots — permaneceram paradas, estáveis, com valorizaçāo de 0%.
HALO = Heavy Assets, Low Obsolescence, em tradução livre poderia significar algo tipo “Indústria Pesada, Baixa Obsolecência”.
O conceito é que as açōe de empresas relativamente imunes à automaçāo, como McDonalds (alimentaçāo) e John Deere (fabricante de tratores), seriam as mais seguras num mundo dominado por IA - Inteligência Artificial.
A ideia é simples: num mundo em que a inteligência artificial pode redesenhar setores inteiros, tende a parecer mais segura a empresa que ainda depende de fábrica, frota, campo, energia, alimento, logística, infraestrutura física. O chatbot pode até sugerir a viagem, mas ainda não pilota sozinho um avião cheio de passageiros.
Numa leitura superficial, os fundos de pensão brasileiros estariam relativamente protegidos dessa nova onda. Afinal, boa parte de seus recursos continua concentrada em renda fixa, especialmente títulos públicos. Dados oficiais mostram que as EFPC somavam R$ 1,36 trilhão em ativos em junho de 2025, com R$ 890 bilhões aplicados em títulos públicos federais. Outra estatística setorial mostra que a renda fixa já representava 84,6% da carteira em agosto de 2025, enquanto a renda variável havia caído para 7,8%.
À primeira vista, portanto, pareceria haver pouco motivo para pânico: se os fundos quase não estão expostos à bolsa, nem às empresas mais ameaçadas pela IA, estariam a salvo.
Só que não.
O verdadeiro perigo da IA para os fundos de pensão talvez não esteja, em primeiro lugar, na carteira de investimentos. Pode estar na sobrevivência institucional do próprio modelo de fundo de pensão.
O risco não é só financeiro, é existencial.
Um artigo recente da Citrini Research fez muito barulho ao imaginar um cenário hipotético para daqui a apenas dois anos, 2028.
Os autores fazem questão de dizer que se trata de um cenário, não de uma previsão. Mas um cenário bem construído serve justamente para isso: nos obrigar a pensar no que hoje parece exagero, mas amanhã pode soar óbvio.
Nesse exercício, a IA evolui a ponto de realizar, com enorme eficiência, boa parte do trabalho intelectual e operacional que hoje sustenta setores inteiros da economia. O efeito seria uma combinação explosiva:
demissões em massa em funções de escritório;
queda da renda de parte importante da classe média;
enfraquecimento do consumo;
pressão sobre empresas que vivem de intermediar serviços (tipo, fundos de pensāo); e
no fim da linha, uma economia com muita mais produtividade, porém, com menos gente com dinheiro para gastar.
A Citrini chama isso, de forma provocativa, de uma espécie de economia fantasma: a produção continua acontecendo, mas circula menos renda entre pessoas reais. Em sua estimativa, o desemprego chegaria a 10,2% e a bolsa americana acumularia uma queda de 38% desde o pico imaginado para outubro de 2026.
De novo: não é profecia. É simulação. Mas uma simulação que ganhou tração justamente porque tocou num ponto sensível do nosso tempo.
O texto cita empresas como Visa, Mastercard, DoorDash e plataformas digitais de intermediação como exemplos de modelos de negócio que poderiam perder espaço se agentes de IA passassem a negociar, comparar, contratar e executar tarefas diretamente, sem precisar de tantos intermediários.
Agora vem a pergunta que interessa aos fundos de pensão:
Os fundos, ao operarem como uma estrutura de intermediação de serviços de investimentos e pagamentos, estariam igualmente ameaçados?
O fundo de pensão como “intermediário”
Durante décadas, os fundos de pensão fizeram — e ainda fazem — algo essencial: recebem contribuições ao longo da vida ativa, investem esse dinheiro com horizonte longo, administram riscos, pagam benefícios e criam disciplina de poupança para a aposentadoria.
Tudo isso continua valioso, mas repare:
Boa parte do valor agregado pelos fundos de pensāo, depende de três premissas que a IA pode abalar. Vejamos quais sāo essas premissas, a seguir.
1. Emprego estável e carreira longa
O fundo de pensão tradicional nasceu e prosperou num mundo em que as pessoas passavam anos — às vezes décadas — ligadas ao mesmo empregador ou a poucos empregadores ao longo da vida.
Se a IA acelerar a substituição de funções administrativas, analíticas, técnicas e até gerenciais, o mercado de trabalho pode ficar ainda mais fragmentado do que vem se tornando, mais instável e mais descontínuo. Menos carreira linear, mais renda que flutua, intermitente e pulverizada.
Ora, sem estabilidade no trabalho, a lógica contributiva clássica também enfraquece.
Não é por acaso que o próprio setor já convive com maturidade crescente e aumento continuo do pagamento de benefícios.
O que acontece com o modelo de negócios dos fundos de pensāo, quando o fluxo de novas contribuições perde força ao mesmo tempo em que cresce a pressão sobre o patrimonio, por liquidez, para o pagamento dos benefícios?
2. Intermediação administrativa barata e ágil.
Num mundo em que a IA pode explicar, comparar, simular, recomendar, acompanhar e até executar decisões simples em tempo real, por um custo ínfimo, o participante começará a se perguntar:
Por que preciso de uma estrutura tão pesada e cara para fazer a gestão da minha poupança previdenciária?
Hoje o fundo ainda se justifica por boa governança, economia de escala, custo razoável e disciplina institucional. Mas amanhã, o participante poderá ter na palma da mão um agente digital que:
projeta e simula aposentadoria em segundos;
rebalanceia a alocação dos perfis de investimentos automaticamente;
compara planos e custos disponíveis no mercado;
sugere nível de contribuição;
integra previdência, seguros, investimentos e orçamento pessoal; e
conversa com ele 24 horas por dia, em linguagem simples.
Se isso acontecer, o participante poderá não querer mais apenas um “plano de previdencia complementar”. Ele poderá exigir uma experiência financeira e previdenciária inteligente, personalizada e portátil.
Quem não oferecer isso corre o risco de parecer um cartório do século XX, operando e carimbando papeis numa economia do século XXI.
3. O valor institucional do fundo
Os fundos gostam de dizer — com razão — que são investidores de longo prazo e instituições sem fins lucrativos. Mas isso, sozinho, talvez não baste mais no futuro.
Num ambiente em que a tecnologia reduz o custo da informação, simplifica acesso a produtos e enfraquece barreiras de entrada, a pergunta passa a ser outra:
Qual valor singular e único que o fundo de pensão é capaz de entregar, que um ecossistema digital de soluções, mais leve e barato não consegue entregar?
Se a resposta for apenas “governança”, “compliance” e “processos”, talvez seja pouco e se a resposta for “compramos título público e pagamos benefício”, pior ainda.
Porque, nesse caso, o fundo deixa de ser visto como solução e passa a ser percebido como uma camada extra desnecessaria.
O paradoxo brasileiro: protegidos da IA na carteira, expostos à IA no modelo
Aqui está a ironia.
Os fundos de pensão brasileiros estão hoje pouco expostos à parte mais barulhenta do mercado acionário e fortemente concentrados em renda fixa. Isso pode até proteger seus investimentos de certos choques imediatos de mercado.
Mas essa mesma distância da economia real e da inovação pode cobrar um preço mais alto. O risco maior talvez não seja perder dinheiro comprando ação da empresa errada.
Talvez seja não perceber que o mundo ao redor mudou.
A IA pode não destruir diretamente a carteira de investimentos dos fundos de pensāo brasileiros. Mas pode corroer os pilares que sustentam sua relevância e existência:
emprego formal de longa duração;
patrocínio corporativo robusto;
paciência do participante com estruturas lentas;
aceitação passiva de produtos padronizados;
confiança automática nas instituições tradicionais.
Em outras palavras: o fundo de pensāo pode continuar com muito título público na carteira e, ainda assim, ficar estruturalmente mais fraco como instituição social, econômica e previdenciária.
O que ameaça os fundos de pensão num cenário de IA avançada
Se o cenário da Citrini estiver ao menos parcialmente correto, os fundos de pensão terão de lidar com impactos em cadeia.
Menos contribuições, mais volatilidade na vida laboral
Se a IA reduzir postos de trabalho qualificados e pressionar salários, parte dos participantes poderá contribuir menos, interromper contribuições ou migrar entre vínculos de trabalho com mais frequência. Isso enfraquece a acumulação previdenciária.
Patrocinadores mais pressionados
Empresas patrocinadoras poderão rever custos, redesenhar benefícios ou preferir modelos mais flexíveis e menos comprometedores no longo prazo, sobretudo se enfrentarem ambientes competitivos mais agressivos e margens mais apertadas.
Participante mais exigente e menos fiel
Se aplicativos, bancos digitais e plataformas de investimento passarem a oferecer experiencias muito superiores, o fundo de pensão precisará disputar atenção e confiança num novo patamar e com novos players.
Pressão por desintermediação
O participante do futuro talvez não queira mais um produto fechado, lento e genérico. Ele poderá querer uma conta previdenciária inteligente, portátil, transparente e integrada à sua vida financeira.
Crise de identidade institucional
O fundo que não souber explicar por que existe poderá descobrir, tarde demais, que sua função histórica do passado não garante sua função previdenciaria no futuro.
O fundo de pensão do futuro não pode ser apenas gestor de investimentos.
Se quiser sobreviver à era da IA, o fundo de pensão precisará deixar de ser visto apenas como uma “caixa” que arrecada, investe e paga.
Ele precisará se tornar, de fato, uma plataforma de proteção de longo prazo.
Isso significa, no mínimo:
usar IA para servir melhor o participante, e não apenas para cortar custo interno;
personalizar contribuição, comunicação e estratégia de investimento;
oferecer portabilidade mental, não só regulatória;
integrar previdência com saúde financeira, educação e planejamento de vida;
modernizar governança sem perder prudência;
e, principalmente, provar que continua sendo útil numa economia em que a intermediação será cada vez mais questionada.
O risco de virar um dinossauro educado
O artigo da Citrini provocou o mercado porque sugeriu algo desconfortável: empresas que vivem de intermediação e hábitos podem parecer sólidas até o dia em que deixam de fazer sentido.
Os fundos de pensão deveriam ler isso com muita atenção. Não porque vão virar a nova DoorDash. Nem porque o problema principal esteja em Visa, Mastercard ou Expedia.
Mas porque a pergunta central vale para qualquer instituição:
Se a tecnologia eliminar parte da fricção que justificava sua existência e impedia o participante de faze tudo sozinho, o que sobra do valor agregado pelo fundo de pensāo?
Para muitos fundos de pensão brasileiros, a resposta ainda é incerta e talvez esse seja o maior risco de todos. Não o risco de ver os investimentos irem para o Halo.
Mas o risco de descobrir, tarde demais, que o mundo mudou tanto que o fundo de pensāo — tal como foi concebido — começou ele próprio a escorrer pelo ralo da história.
.Grande abraço,
Eder.
Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “Wall Street is looking to invest in anything but AI”, escrito por Matty Merritt | “Part One - The Rise of Agentic AI”, escrito por Alap Shah | “Part Two - The 2028 Global Intelligence Crisis”, escrito por Alap Shah e Citrini Research.



Nenhum comentário:
Postar um comentário