De Sāo Paulo, SP.
O sistema de previdência complementar corporativo – os fundos de pensão (EFPC) – está maduro no Brasil, assim como em muitas partes do mundo.
Há, atualmente, mais aposentados e pensionistas recebendo beneficios do que participantes ativos contribuindo para os planos de previdência complementar.
Essa característica, longe de ser apenas um detalhe estatístico, é sinal de uma transição estrutural, com implicações profundas para o futuro desses sistemas.
1. Um sistema maduro: mais saídas do que entradas
No início de desenvolvimento dos fundos de pensão, a lógica da capitalizaçāo era básica:
Um grande volume de contribuições, feitas por participantes ativos, ao longo de décadas, acumulava reservas e patrimônio;
Somadas aos retorno dos investimentos, esse dinheiro financiava o pagamento de beneficios durante o periodo de aposentadoria.
Com o passar do tempo, esse padrão foi se revertendo fruto, em grande parte, da chamada “transição demográfica”. Cada vez menos entrantes jovens contribuindo e cada vez mais participantes assistidos com direito ao recebimento de rendas.
No Brasil, os fundos de pensāo (EFPC) somam nesse momento um patrimônio de aproximadamente R$ 1,3 trilhōes, equivalente a uma fração significativa da economia brasileira.
No ano de 2025, até o mês de setembro, os pagamentos de benefícios pelas EFPC superaram os R$ 98 bilhões. Já as contribuiçōes, recolhidas no mesmo período, ficaram em torno de R$ 34 bilhões.
A quantidade de participantes ativos nos fundos de pensāo girava, no começo de 2025, em torno de 3.074.000 e o número de assistidos (aposentados e pensionistas) era próximo a 878.000.
Esses números, retirados do Relatório Gerencial de Previdência Complementar do 3T-2025, publicado pelo Ministério da Previdência Social, por si só, sinalizam uma realidade simples:
O setor já cumpre hoje, majoritariamente, uma função maior no pagamento de beneficios do que na acumulação de contribuiçōes.
2. Crescimento ilusório
Os relatórios públicos — como o citado Relatório Gerencial de Previdência Complementar publicado pelo Governo Federal — ao divulgarem o patrimônio total dos fundos de pensāo passam a impressāo de que o sistema está experimentando forte crescimento.
Isso porque o foco é concentrado no aumento do patrimônio total - de um ano para o outro - sob o ponto de vista consolidado e nāo na dinâmica por trás dos fluxos de pagamentos, contribuiçōes e rendimentos.
Podemos, no entanto, construir uma estimativa para fins de análise. Se considerarmos que no periodo de jan-set de 2025:
O pagamento de benefícios foi de ~R$ 98 bilhões;
As contribuições feitas em nome de participantes ativos foi de ~R$ 34 bilhões;
O retorno dos investimentos de 9,5% (sobre o patrimônio de R$ 1,29 trilhōes posicionado em dezembro/2024) equivale a acerca de R$ 122 bilhões;
Obteríamos, como resultado de uma conta simplificada:
Patrimônio em dezembro de 2024: R$ 1,29 trilhōes;
Total de entradas de R$ 156 bilhōes [contribuições de R$ 34 bilhōes + retorno dos Investimentos de R$ 122 bilhōes];
Total de saidas de R$ 98 bilhões [pagamentos de beneficios e resgates]
Patrimonio em 2025 (até setembro) ~ R$ 1,35 bilhōes a R$ 1,37 trilhōes.
Um olhar supeficial diria que o patrimonio dos fundos de pensāo “aumentou” de R$ R$ 1,29 trilhōes (dez/2024) para R$ 1,37 trilhōes (set/2025).
Uma analise granular mostra que por trás desse resultado nāo está uma expansāo do sistema de previdência complementar corporativo, mas sim um encolhimento.
Esse exercício sugere que o sistema gera hoje um excedente “financeiro” devido, principalmente, ao forte retorno dos ativos, não à receita de contribuições oriunda de novos participantes e de novas empresas patrocinadoras.
Isso já é um indício de que o que vem pela frente é uma ameaça a sustentabilidade dos fundos de pensāo.
3. Quando o patrimônio começa a se reduzir?
Utilizando o mesmo raciocínio anterior:
Se as contribuições começarem a cair (por menor entrada de jovens e consequente redução da massa salarial das empresas patrocinadoras),
E se o pagamento de benefícios continuar crescendo como resultado das tendencias demográficas: aumento da quantidade de pessoas nas faixas etárias acima de 60 anos,
Essa dinâmica levará a um declínio do sistema de fundos de pensāo em velocidades cada vez mais acentuadas, a partir de determinado ponto dos proximos anos.
Uma projeção simples mostra um cenário em que, na ausência de novas contribuições reais, o sistema começará a consumir patrimônio líquido quando:
A taxa de retorno real dos ativos for pressionada para baixo (cenário plausível em ambientes de juros estruturais mais baixos);
As contribuições comecarem a cair ano após ano, devido à menor entrada de participantes.
O ponto de inflexão — no qual as receitas totais [contribuições + retornos] passam a ser menores que os pagamentos de beneficios — poderá ocorrer dentro de uma década ou menos, dependendo da velocidade de envelhecimento da base de participantes e da performance dos investimentos.
Mesmo um retorno de 5 a 6% sobre os R$ 1,37 trilhōes só gera R$ 68 a 82 bilhões: insuficiente para cobrir pagamentos crescentes acima de R$ 100 bilhões sem aportes adicionais. Essa ordem de grandeza indica que o patrimônio, se as contribuições líquidas continuarem em queda, começará a ser reduzido mais cedo do que muitos imaginam.
4. A demografia reforça a tendência de esgotamento
A tendência populacional projetada para o Brasil e para a maioria dos países desenvolvidos e emergentes a partir da metade desse seculo é clara:
Redução da população jovem e
Aumento da proporção de idosos.
Isso significa menos contribuintes entrando no sistema e mais beneficiários provocando a saida de recursos.
Essa dinâmica demográfica desfavorável ao captador de recursos é exatamente o que explica por que regimes de repartição simples (como o INSS) enfrentam déficits: há menos ativos para financiar cada aposentado.
Nos fundos de pensão, embora a capitalização individual tente suavizar esse efeito, a agregação dos planos e o estágio avançado de maturidade — com um número crescente de participantes no momento de receberem renda — torna inevitável a pressão secular sobre as contribuições líquidas.
Em outras palavras: até que idade média da população estabilize em níveis mais altos, e enquanto a participação de jovens nas patrocinadoras diminuir, haverá uma tendência natural de redução de entradas líquidas no sistema, acelerando a fase de desacumulação de patrimônio.
5. O erro das análises de crescimento
Relatórios anuais de fundos de pensāo e matérias na mídia especializada que destacam o aumento do patrimônio total ou crescimento líquido de ativos em planos de previdencia complementar — muitas vezes falham em considerar essa dinâmica de desacumulação.
Observa-se a evolução do estoque de patrimônio e conclue-se que o sistema está crescendo. Esse raciocínio está incompleto por dois motivos principais:
Os ativos crescem por juros compostos e valorização de mercado, não necessariamente por aumento de contribuições líquidas; e
O principal motor de crescimento histórico — o aporte consistente de contribuições de muitos participantes ativos — está se esgotando em função das transformaçōes demográficas e de mercado.
Um patrimônio que cresce porque os ativos financeiros tiveram retornos positivos não é o mesmo que um sistema que cresce por causa de sua relevância social, nem indica que é sustentavel no longo prazo.
O crescimento do estoque de patrimonio pode coexistir com a redução da base contributiva, um sinal claro de que o sistema está em transição de acúmulaçāo para desacumulação.
6. Um silêncio que incomoda.
Muito se fala — quase de forma ritual — sobre:
Aumento da longevidade,
Crescimento acelerado da população 60+,
Redução populacional projetada para a maioria dos países,
Impacto da IA sobre o futuro do trabalho e
Fragmentação dos vínculos empregatícios (menos relações formais, contratos mais curtos, múltiplas empresas ao longo da vida profissional).
Mas, apesar da recorrência desses temas nos discursos, não existem análises quantitativas robustas e integradas — feitas por centros de pesquisa, universidades ou governos — que projetem o efeito nos proximos anos, de forma clara, do impacto combinado dessas dinâmicas sobre a sustentabilidade do sistema de fundos de pensão.
Alardeia-se bastante a insustentabilidade dos sistemas de previdencia social, mas o silencio sobre o impacoquantitativo dessas variaveis sobre a sustentabilidade dos fundos de pensāo, é sepucral.
Sem números, sem projeçōes, o debate é confortável, porém, inofensivo.
A ausência de projeções não é neutra: ela posterga decisões difíceis e empurra para o futuro um ajuste que será inevitavelmente mais doloroso na previdencia complementar.
Conclusão
O sistema de fundos de pensão no Brasil — especialmente no Brasil — não está apenas maduro: ele está entrando numa nova fase, caracterizada por:
Uma base crescente de beneficiários;
Contribuições líquidas que tendem a se estabilizar e começar a cair;
Retornos financeiros que, se menores no futuro, pressionarão as receitas totais;
Uma população que envelhece mais rapidamente do que nas décadas anteriores.
Essa equação, se não for ajustada por inovação, novas formas de financiamento ou adaptação regulatória, pode levar a uma fase de redução patrimonial, com implicações profundas para a solvência intergeracional dos fundos de pensão.
O “crescimento” do sistema, medido apenas pelo tamanho do estoque de ativos, é uma narrativa incompleta. A verdadeira leitura deve considerar fluxos de contribuições vs. fluxos de pagamento, e sobretudo a dinâmica demográfica subjacente que regerá o futuro dos sistemas de previdência complementar.
Grande abraço,
Eder.
Opiniōes: Todas minhas | Fonte” Relatorio Gerencial da Prvidencia Compementar - Terceiro Trimestre/2025”.
Disclaimer: Esse artigo foi escrito com uso de IA, baseado em prompts do autor, em sua profunda experiencia profissional e nas informações das fontes citadas.

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