domingo, 17 de abril de 2022

PARTE I - Todos vêem, mas uns poucos enxergam: O que um atuário pode ajudar os fundos de pensão a enxergar sobre o futuro da previdência


Credito de Imagem: https://sofrep.com/fightersweep/


De São Paulo, SP.


A maioria das historias sobre vitórias nas guerras que a humanidade enfrentou, foi contada sob a ótica do front de combate, dos heróis, dos trunfos militares, das estratégias de ataque e de defesa.

 

Não obstante, igualmente importantes para essas vitorias, são acontecimentos, personagens iluminados e episódios sensacionais que ocorrem por trás das linhas de batalha.    

 

O mesmo acontece com os casos de sucesso no mundo competitivo dos negócios, frequentemente contados sob a perspectiva dos líderes, das estrelas à frente das empresas e de suas brilhantes estratégicas e decisões gerenciais. 

 

A história muitas vezes não capta nem registra o papel silencioso dos gênios, cuja atuação nos bastidores é igualmente fundamental, senão imprescindível, para o sucesso das corporações.

   

Em tempos de Guerra: um matemático que enxergou algo onde ninguém viu

 

Abraham Wald nasceu em 1902 na cidade de Cluj, no Império Austro-Húngaro, uma região conhecida hoje por Romênia. Com PhD em Matemática pela Universidade da Áustria, Wald emigrou para os EUA fugindo da invasão nazista da Áustria durante a II Guerra Mundial. 

 

Convidado, passou a integrar o Grupo de Pesquisas Estatísticas - Statistical Research Group (SRG) – que aplicava conhecimentos de matemática e estatística para ajudar os americanos a solucionar diversos problemas relacionados a guerra.

 

Um dos problemas mais notáveis que Wald ajudou a resolver foi o reforço de blindagem nos bombardeiros americanos enviados para as campanhas sobre a Europa. O desafio do SRG era aumentar as chances de sobrevivência dos aviões, sem comprometer seu alcance de voo nem sua capacidade de manobra.

 

Diante da impossibilidade de cobrir os aviões inteiros com pesadas placas blindadas, era preciso priorizar os locais de colocação das placas. A abordagem adotada pelo SRG foi olhar os bombardeiros B-29 que retornavam das missões de ataque e identificar os locais mais atingidos pelos tiros inimigos.

 



O pessoal do SRG observou que partes da fuselagem - o corpo principal do avião - e das asas tinham praticamente duas vezes mais furos de bala (pontos vermelhos na figura abaixo)  do que a plataforma dos motores, da cauda e o nariz dos aviões. Portanto, foi tomada uma decisão simples: aplicar mais reforço na fuselagem, afinal, era onde a tripulação ficava de modo que fazia mais sentido aplicar proteção extra ali. 

 

Wald, no entanto, indicou que essa abordagem estaria completamente errada. Ao invés disso, sugeriu ele, o reforço na blindagem deveria ser colocado em todos os locais onde o SRG notou não haver buracos de bala (círculos em azul na figura abaixo). 

 

Por quê?  Porque os únicos aviões que o SRG analisou foram aqueles que sobreviveram aos ataques e retornaram às bases compondo, portanto, uma amostra exatamente oposta àquilo que o conjunto de dados mostrava a respeito do problema.

 

Os aviões não estavam retornando com furos de bala nos motores e na cauda porque eles eram abatidos pelos danos nesses locais e caiam nos campos de batalha Europeus.

 

Senhores, vocês precisam colocar reforços nas partes onde não havia buracos, porque é onde estavam os buracos nos aviões que não voltaram – disse Wald.

 

Em outras palavras, os aviões analisados pelo SRG foram aqueles capazes de continuar voando mesmo depois de ter a fuselagem repleta de furos de bala. Se o SRG quisesse realmente reforçar a blindagem para salvar mais tripulações, deveria colocar placas em todos os lugares EXCETO na fuselagem.





As recomendações de Abraham Wald foram adotadas e essa premissa básica continua a ser usada até hoje para aplicação de blindagem e proteção dos aviões norte-americanos. O episódio ficou conhecido como um exemplo de viés da sobrevivência.

 

 Viés da sobrevivência: o erro logico de se concentrar apenas na amostra que sobrevive a um evento ou que ultrapassa um processo, ignorando-se aquelas que não o fazem. Esse viés pode levar à visões otimistas e premissas incorretas ao ignorar as falhas em situações em que o mais importante a se olhar são exatamente os dados faltantes.    

 

Por sorte, a mente matemática de Abraham Wald (foto abaixo) foi capaz de enxergar além dos dados disponíveis e entender o contexto completo da situação, salvando milhares de vidas nesse processo.




Os atuários e os dados sobre longevidade 

 

Ao estudar o impacto do aumento da longevidade na previdência, as análises atuariais se concentram no período alongado, durante o qual as rendas vitalícias precisam continuar a ser pagas ao aposentado.

 

O período contado entre o nascimento das pessoas e a entrada delas no mercado de trabalho, que antecede, portanto, o início da fase ativa do cidadão, nunca foi considerado na solução do problema causado pelo aumento da longevidade.

 

Esse período representa uma amostra de dados semelhante aos locais da fuselagem que não mostravam furos de bala nos aviões que retornavam a base. Ou seja, ninguém olha para esses anos como potencial período de acumulação de poupança previdenciária.

 

Por quê? Porque nesse período a pessoa ainda não entrou no mercado de trabalho então esses anos são desconsiderados para fins de poupança previdenciária.

 

Mas, então, porque esses anos são considerados para fins do imposto de renda, já que desde 2019 a receita federal passou a requerer a informação do número do CPF para todos os dependentes, de qualquer idade, declarados no IRPF?

 

Fica a pergunta para nossa reflexão e assim como essa, deveríamos procurar enxergar a resposta para tantas outras questões que seguem subjacentes ao futuro da previdência complementar, sendo vistas, mas não enxergadas ...  

 

Um filósofo alemão do Século XIX, Arthur Schopenhauer, resumiu numa frase a diferença entre ver e enxergar, disse ele certa vez:

 

Ter talento é acertar um alvo que ninguém mais consegue acertar, ser gênio é acertar um alvo que ninguém mais consegue ver.

 

Na segunda parte dessa curta série, veremos a história de um personagem que fez sucesso no mundo da propaganda & marketing por ter a incrível capacidade de enxergar .... o óbvio.

 

Grande abraço,

Eder.

 

 

Fonte: Hidden History: Abraham Wald and a lesson in survivorship bias, escrito por Ethan Castro

 

 


quinta-feira, 14 de abril de 2022

TE CONTEI? PORQUE É TÃO DIFICIL PARA OS CONSELHOS DOS FUNDOS DE PENSÃO HOJE, VISLUMBRAREM O FUTURO DA PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR

 



De São Paulo, SP.

 

O QUE ESTÁ ACONTECENDO: 

Em 1945 Percy Spencer supervisionava um dos laboratórios sob sua responsabilidade na Raytheon - fornecedora de tecnologia de radares para os aliados na II Guerra. Quando ele parou perto de um magnetron, que é um tubo a vácuo gerador de microndas para aumentar a sensibilidade dos radares, ele sentiu algo estranho no bolso da calça, era a barra de chocolate derretendo. A curiosidade surgiu instantaneamente, então, Spencer trouxe um saco de milho que o magnetron transformou em pipoca. Passado um ano, a Raytheon patenteou o forno de micro-ondas. Hoje em dia as pessoas associam o acaso a sorte, negligenciando o que Horace Walpode chama de “sagacidade”. A maioria de nós daria de ombros e iria embora ao perceber o chocolate derretido, foi a sagacidade que impediu Spencer de fazer o mesmo.

 

POR QUE ISSO É IMPORTANTE: 

No mundo das finanças todo mundo lê Bloomberg, no segmento dos fundos de pensão todos leem as mesmas revistas, participam dos mesmos cursos, todo mundo vê a mesma informação. Quando todo mundo acessa a mesma coisa, da mesma forma, fica difícil fazer conexões com a originalidade. A curiosidade se sustenta em perguntas não respondidas e a Internet tem todas as respostas, ela nunca te diz “eu não sei”. Em termos de informação e conhecimento, isso tende a deixar todos ignorantes, mas felizes, alegremente despreocupados com aquilo que desconhecem e ainda não sabem. O Google pode te dar a resposta para qualquer pergunta que você faça, mas não pode te dizer o que você deve perguntar. Discutindo o futuro de sua empresa (Google) Larry Page descreveu o mecanismo de busca perfeito como sendo um capaz de “entender exatamente o que você quis dizer e te devolver exatamente aquilo que você quer”. Mas e se eu não souber aquilo que eu quero? A falta do acaso torna as inovações mais difíceis porque a inovação depende da colisão inesperada entre conhecimento e ideias.  

 

CONCLUSÃO: 

Estamos perdendo o interesse por questões que não podem ser facilmente respondidas. “Pesquisar” em livros e enciclopédias significava embarcar numa busca árdua, implicava em fazer perguntas que te levavam a mais perguntas. Você enfrentava obstáculos, se perdia, não encontrava aquilo que tinha começado a procurar, mas sempre aprendia algo no caminho. Isso aumentava seu mapa mental e o escopo de suas perspectivas. Curiosidade depende de fricção, da luta para preencher lacunas na informação, da incerteza, do mistério e da consciência da nossa ignorância. Estamos ficando tão acostumados com respostas fáceis que estamos esquecendo de como se faz perguntas e assim vamos degradando nossa capacidade de aprender. Os conselhos dos fundos de pensão que souberem explorar a curiosidade sobre o futuro, serão os que terão maior vantagem competitiva.

 

Grande abraço,

Eder.

 


Fonte: Curious: The desire to know and why your future depends on it, escrito por Ian Leslie.

 


quarta-feira, 13 de abril de 2022

TE CONTEI? OS PERIGOS DO REAL DIGITAL QUE APENAS O CONGRESSO PODE RESOLVER ... SE QUISER!

 



De São Paulo, SP.


O QUE ESTÁ ACONTECENDO: 

A moeda digital oficial de um país tem sido chamada de CBDC – Central Bank Digital Currency ou “Moeda Digital do Banco Central.” A maior preocupação com um eventual dólar digital ou um real digital, já em estudo, é com a privacidade dos cidadãos. Nos EUA os senadores republicanos Ted Cruz (Texas), Chuck Grassley (Iowa) e Mike Braun (Indiana) apresentaram na quarta-feira da semana passada um projeto de lei impedindo o Federal Reserve (Banco Central Americano) de oferecer “produtos ou serviços diretamente para os indivíduos”, de manter contas para indivíduos ou de emitir CBDC para as pessoas. Um “press release” emitido pelo gabinete de Ted Cruz diz que a legislação “proíbe especificamente o Banco Central de desenvolver uma CBDC diretamente para o consumidor, que poderia ser usada como ferramenta de vigilância financeira pelo governo federal, igual ao que está acontecendo hoje na China”. Chamada de ECASH - Electronic Currency And Secure Hardware Act, a proposta de lei estabelece que um dólar eletrônico possa ser guardado pelos usuários em cartões ou carteiras digitais em seus celulares, online ou off-line, sem ser rastreado e preserve a privacidade do usuário.


POR QUE ISSO É IMPORTANTE: 

O Banco Central brasileiro esta por trás do PIX, que vem sendo celebrado como uma revolução nos meios de pagamento e uma ferramenta de inclusão financeira, na medida em que permite transferência de $$$ P2P a custo zero para pessoas de baixa renda, diferente dos Docs, Teds e seus respectivos altos custos de transação cobrados pelos bancos. A inovação é bem-vinda, mas há um estranho silencio no Brasil hoje sobre o perigo de uso das informações de todas as transações financeiras efetuadas via PIX, algo que deveria acender uma luz amarela que pode ir rapidamente para a vermelha com o real digital, se nada for feito. Roberto Campos Neto, Presidente do BACEN, disse que a “proof of concept” do Real Digital começará já no 2º semestre/2022 (link: aqui), o que ele não disse foi qual garantia de privacidade os cidadãos terão com a CBDC tupiniquim.  


CONCLUSÃO: 

Pode parecer besteira, mas num mundo digital não seria muito difícil caminharmos em direção a realidade distópica descrita por George Orwell no clássico livro “1984”. Acima, um curta (15 minutos) bem-humorado de ficção, que dá uma ideia deprimente do mundo Orwelliano que ninguém gostaria que um dia se tornasse realidade ...


Grande abraço,

Eder.



Fonte: “State of Crypto” – Digital (dollar) privacy, Coindesk


terça-feira, 12 de abril de 2022

TE CONTEI? O MONITORAMENTO E CONTROLE DOS RISCOS SOCIAIS, AMBIENTAIS E CLIMATICOS JÁ É OBRIGATORIO NO BRASIL PARA OS BANCOS, OS PROXIMOS DA FILA SÃO OS FUNDOS DE PENSÃO

 



De São Paulo, SP.


O QUE ESTÁ ACONTECENDO: 

No dia 15 de setembro do ano passado o banco central (BACEN) e o conselho monetário nacional (CMN) publicaram um conjunto de regras sobre o gerenciamento e o reporte dos riscos “ambientais, sociais e climáticos”. As Resoluções CMN nº 4.943 e nº 4.944 tornam obrigatório o monitoramento e o controle desses riscos – em adição aos riscos de mercado e de crédito – pelas instituições financeiras e demais instituições autorizadas a funcionar pelo BACEN. Tais riscos devem ser documentados de forma clara e ser expressamente limitados. A Res. CMN nº 4.943 entra em vigor em 1º de julho de 2022, sendo que alguns dos requisitos devem ser observados apenas a partir de 1º de dezembro de 2022. A Res. CMN nº 4.944 passa a vigorar a partir de 1º de dezembro de 2022.


POR QUE ISSO É IMPORTANTE: 

Também no dia 15/09/2021 foram publicadas a Resolução BACEN nº 139 e a Instrução Normativa nº 153 do BACEN tornando obrigatório para bancos e demais instituições financeiras a divulgação anual do Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticas (GRSAC), alinhado aos guidelines do TCFD – Task-Force on Climate Related Financial Disclosure. Posicionados no dia 31 de dezembro de cada ano, o prazo para publicação do primeiro relatório é de 180 dias a partir de 31/12/2022 e de 120 dias a partir de 31/12/2023, quando os dados terão que ser publicados no formato aberto e será obrigatória a divulgação de informações quantitativas, com metas e métricas. Os dois normativos do BACEN entram em vigor a partir de 1º de dezembro de 2022.


CONCLUSÃO: 

Conforme venho publicando aqui desde 2021, a compulsoriedade chegou para os maiores fundos de pensão do Reino Unido em outubro do ano passado e alcançará todos eles independentemente do tamanho a partir de 2023. Como a fila anda, a vez dos fundos de pensão brasileiros vai chegar logo, logo, então, melhor já ir se preparando. O conselho deliberativo do seu fundo de pensão precisa de ajuda? "Drop me a Line".


Grande abraço,

Eder.



Fonte: Autarquias do Sistema Financeiro Nacional Brasileiro publicam arcabouço regulatório sobre política de responsabilidade e gerenciamento de riscos sociais, ambientais e climáticos, Mayer Brown


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