Parece insano que o telefone celular que carrego comigo para todo lugar possa reconhecer precisamente quem eu sou a partir de 30.000 pontos de dados em 3D. Aí você é convidado a aderir a um plano de previdência complementar em um fundo de pensão e precisa assinar alguns pedaços de papel para autorizar o recolhimento de contribuições, indicar beneficiários e ser aceito. Ainda temos que: (i) inserir um cartão de plástico num caixa eletrônico e digitar 4 números para tirar dinheiro; (ii) apresentar um documento com foto ruim para pessoas que não checam a foto, para provar que você é você e poder votar, entrar num avião ou mostrar sua idade; (iii) entregar um caderninho em papel para o cara da imigração para entrar num país, o qual ele marca com um carimbo depois de escanear uma imagem impressa do visto.
POR QUE ISSO É IMPORTANTE:
Usamos chaves para entrar em casa, cartões magnéticos para acessar catracas em edifícios e preenchemos formulários infindáveis colocando as mesmas informações neles toda vez, repetidamente. Meu processo de habilitação na PREVIC para integrar o conselho de um fundo de pensão contém as mesmas informações sobre minha formação, dados pessoais, capacitação etc., igualzinho ao processo de habilitação de 2011, quando fiz isso pela primeira vez. Se repensássemos o mundo usando tecnologias incríveis que já estão disponíveis, seria impressionante como nossa vida poderia ser melhor e mais fácil. Mas tudo parece tão lento, tão devagar.
CONCLUSÃO:
Tudo que é vital, que é mais importante, geralmente precisa ser mais seguro e leva mais tempo para mudar. Por isso que usinas nucleares e estações de energia elétrica ainda trabalham com disquetes, por isso também que fundos de pensão requerem assinatura em formulários e têm sido lentos em abraçar startups de tecnologia digital. Mas não precisava ser assim ....
Grande abraço,
Eder.
Fonte: Tom Goodwin, Fundador da “What We Have is Now”
“Conselhos Deliberativos sem diversidade, não possuem diferentes perspectivas dos riscos, arriscam ter ideias entrincheiradas, pensamento enviesado e fraco processo decisório, o que coloca seus participantes em desvantagem”, disse David Fairs – Diretor de Políticas Regulatórias do “The Pensions Regulator”, o órgão regulador dos fundos de pensão do Reino Unido (a PREVIC deles). Falando de DE&I - Diversidade, Igualdade & Inclusão nos fundos de pensão Britânicos, disse mais: “... queremos ver conselhos com uma vasta gama de perspectivas, conhecimentos e experiências, onde todo mundo tenha oportunidade de contribuir e questionar (as decisões) sob diferentes pontos de vista ... o status quo não é aceitável”.
POR QUE ISSO É IMPORTANTE:
Assim como no Brasil, os conselhos dos fundos Britânicos em geral nada estão fazendo para buscar colegiados mais diversos, com pluralidade de gênero, orientação sexual, etnia, religião, origem educacional etc., cujas diferentes visões de mundo levam a melhores decisões. O órgão regulador de lá se mostra “preocupado” com a falta de prioridade dos fundos nessa área. Eles querem encorajar, e dar apoio aos conselhos para criação de uma cultura de DE&I. Como parte do plano de ação para chegar lá, incluirão - até o fim do ano ou no começo de 2023 - no “Código de Melhores Práticas” uma expectativa clara sobre diversidade e ainda publicarão um guia para ajudar os conselhos a entender a importância e cumprir com a expectativa
CONCLUSÃO:
No curso de certificação de conselheiros de fundos de pensão da UNIABRAPP, costumo falar sobre a importância da DE&I nos colegiados. Exemplificando a relevância da igualdade de gênero nos conselhos, mostro a figura acima e explico que homens e mulheres, literalmente, enxergam o mundo de modo diferente. Na imagem, os pontos que mais atraem a atenção do nosso sistema visual em nível subconsciente, em milissegundos seu cérebro foca naquelas partes da imagem – na esquerda a visão do homem, na direita da mulher. O mapa de calor ("heat map") indica: em vermelho = maior atenção; em amarelo = atenção intermediária, em verde = menor atenção. Entendeu?
Grande abraço,
Eder.
Fonte: TPR publishes diversity action plan following 'worrying' research, escrito por Sophie Smith
Quando o cenário econômico é extremamente instável e os retornos dos investimentos
caem, a comunicação com os participantes deveria subir, mas muitos fundos de
pensão não sabem o que dizer. Se as pessoas não sabem o que está acontecendo e
faltam informações, elas tendem a tirar suas próprias conclusões
POR QUE ISSO É
IMPORTANTE:
Aqui vão algumas sugestões do que comunicar nessas situações: (i) coloque
os momentos de queda dos mercados no contexto histórico: explique que as baixas
são sucedidas por altas, mas não adianta só falar: MOSTRE (tipo o gráfico
acima); (ii) use mais recursos visuais na comunicação, quanto mais visual, mais
rápida é a assimilação da mensagem e por mais tempo fica retida – nosso cérebro
processo imagens 60.000 vezes mais rápido do que texto; (iii) mostre que é impossível
tentar acertar os movimentos do mercado, então você pode acabar vendendo na baixa,
comprando na alta e perdendo; (iv) lembre o participante que o papel do fundo
de pensão é cuidar dos investimentos dele exatamente para não deixa-lo tomar decisões
irracionais, baseadas em emoções. Veja o que acontece na alocação em ações por
pessoas físicas, investidores institucionais e planejadores financeiros, quando
há uma queda de 10% a 20% no S&P500, nesse estudo: aqui.
CONCLUSÃO:
Numa
pesquisa de 2019 da YCharts, 63% dos investidores disseram SIM quando
perguntados se “Uma comunicação mais frequente e/ou personalizada de seu
planejador financeiro resultaria em maior confiança na estratégia de
investimentos” e outros 85% afirmaram considerar a frequência e estilo de
comunicação ao decidir se contratam ou não os serviços de um planejador
financeiro. Não coloque apenas “Feliz Natal” no extrato de fim de ano do seu
fundo de pensão se o ano foi ruim, ao invés disso: explique.
Grande abraço,
Eder.
Fonte: Samantha Russell - Chief Evangelist,
FMG Suite.
Vamos para a terceira
e última parte da série de três artigos nos quais estamos abordando as
placas tectônicas que estão se movimentando e empurrando os fundos de
pensão para uma nova configuração.
Nos últimos 240
anos passamos por umas cinco revoluções tecnológicas, a mais recente delas iniciada
em 1971, provocada pela tecnologia da informação e das telecomunicações, ainda em
curso.
Revoluções tecnológicas
são processos bem destrutivos, elas definem um novo meio de produzir e de viver,
mas a sociedade leva um longo tempo para assimilar as mudanças.
Cada revolução tecnológica
traz consigo mudanças de duas naturezas: (i) técno-econômicas; e (ii) sócio-institucionais,
com enorme potencial para criação de riqueza, pela transformação da economia,
sociedade e instituições.
Surgem novos paradigmas,
que mudam a lógica dos negócios, provocando um salto quântico em todos os
setores, segmentos e indústrias, com disruptura para todo lado.
Cada revolução traz,
também, um realinhamento político, cultural, dos valores e aspirações – sabe o
lance das mudanças climáticas, da sustentabilidade, do veganismo, da diversidade
& inclusão? Pois é ...
O sucesso vai
para aqueles que melhor entendem que algo diferente está acontecendo, se
amoldam ao novo potencial, olham e andam para a frente. Esses são os fundos de
pensão passando por rebranding,
implantando planos família, se movimentando, buscando novos modelos de negócios,
como a Vivest (ex-FCESP) e outros.
Mas há também aqueles
que se apegam às velhas ideias, aos velhos objetivos, aos velhos valores individuais
ou coletivos, que olham sempre para trás e para trás vão ficando. A falha em
responder às transformações do mercado pode ser fatal.
Carlota Perez, uma Britânica de origem Venezuelana, professora
honorária do Instituto de Inovações e Politicas Publicas da University College London, explica tudo
isso no vídeo abaixo (em inglês), fala sobre como as revoluções tecnológicas se
sucedem e se sobrepõem – TL;DR o vídeo tem duração de 01:04:48, mas recomendo muito
que assistam, mesmo que sua paciência para vídeos longos seja igual à da Gen Z J
Entendendo os ecossistemas
de negócios
Nos anos 1930 o botânico
Britânico Arthur Tansley introduziu o termo “ecossistema” para descrever uma
comunidade de organismos interagindo uns com os outros em seus ambientes: ar, água,
terra etc. Para prosperar, esses organismos competem e colaboram uns com os
outros em busca dos recursos disponíveis, co-evoluem e se adaptam conjuntamente
às disrupturas externas.
Em 1993 o
estrategista de gestão James Moore publicou um artigo na Harvard Business Review intitulado “Predators and Prey: A New Ecology of Competition” (Predadores e Presas:
A nova Ecologia da Competição) no qual adaptou o conceito biológico fazendo um
paralelo com empresas que operam num mundo onde o comercio é cada vez mais
interconectado, se adaptando, evoluindo e competindo para sobreviver, algumas
vezes indo à extinção. Moore sugeriu que uma empresa não deveria ser vista
apenas isoladamente num setor, mas como membro de um ecossistema de negócios abrangendo
participantes através de múltiplos setores.
Um ecossistema de
negócios hoje é uma rede (network) de organizações – incluindo fornecedores,
distribuidores, clientes, competidores, agências governamentais etc. -
envolvidas na entrega de um produto ou serviço especifico, através tanto de
competição como de colaboração.
A ideia é que
cada entidade do ecossistema afeta e é afetada pelas demais, criando uma
relação em constante evolução na qual cada entidade precisa ser flexível e adaptável
para sobreviver, da mesma forma que nos sistemas biológicos. Ecossistemas criam
fortes barreiras de entrada para novos competidores, uma vez que já consiste de
players que o fazem funcionar.
Por fim, ecossistemas
de negócio demandam um engajamento B2B eficaz e eficiente entre os parceiros
porque são multi-stakeholders e business-to-business por natureza. A
parceria requer processos digitais, conexão de dados, ferramentas colaborativas
e integração de modelos de negócio para vender, fazer marketing e desenvolver
soluções conjuntas.
Ecossistema em previdência complementar ou previdência lego
Para ficar fácil de
entender, vou dar um exemplo genérico e um especifico.
Em julho passado,
minha esposa e eu resolvemos fazer um fondue
no fim de semana. Preparamos uma lista de tudo que precisávamos e fomos ao
supermercado. Quando entramos, tinha um grande banner com os dizeres: “Inverno
Gourmet: Tudo para fondue”.
Embaixo do
cartaz, uma mesa enorme com absolutamente tudo para se fazer fondue de carne ou de queijo. Tinha
molhos, queijos, carnes, pão, óleo vegetal, vinho, copos, pratos, aparelho de foundue, garfinhos e ... álcool gel.
Putz, álcool gel
não estava na nossa lista! Isso implicaria voltar ao mercado para comprar esse
item que havíamos esquecido.
Esse é um bom
exemplo genérico de ecossistema de soluções, mas vamos a um exemplo simples e especifico.
Imagine que você vai
registrar no cartório, seu filho que acabou de nascer. Ao pagar a taxa de
registro, lhe oferecem por mais R$ 50 (embutidos na taxa) um plano instituído ou
um PGBL que já pode sair no CPF e nome do recém-nascido.
O pai (ou a mãe)
orgulhoso, feliz da vida, totalmente bobo, de olho no futuro do nenê, quase
certamente vai querer. Ele não foi comprar um plano de previdência complementar,
mas sai do cartório com um.
A previdência lego é a incorporação de
poupança para a aposentadoria, proteções para riscos de invalidez e morte, na
compra de outros produtos, serviços ou plataformas – embutida em um ecossistema
de soluções.
Retrospectiva e conclusão:
Chegamos ao fim
dessa série de artigos. Como consequência do movimento das placas tectônicas, principalmente
das mudanças demográficas, passaremos por grandes mudanças em uma pequena
janela de tempo, nos próximos anos.
O poder de compra
está se deslocando das gerações mais antigas para as mais novas, a Gen Z e os
Millenials. Esses últimos estão naquele momento doce da vida, em que constituíram
família e passa a ser importante a compra de uma casa, de poupar para o futuro
(seu e dos filhos) de buscar segurança.
A pandemia despertou
os Millenials para a necessidade de proteção, o Covid-19 mostrou a importância da
segurança financeira, da compra de seguros – vida, saúde – e da poupança via
plano de previdência complementar.
Como consumidores,
procuram produtos e serviços de prevenção num lugar só, sem fricção,
partilhando seus dados em troca. Por isso a importância dos ecossistemas de
soluções, eles querem acessar seguros, previdência, saúde e bem-estar no
smartphone, da mesma forma que já fazem com pagamentos digitais via Apple Pay,
Sansum Pay etc.
Os fundos de
pensão precisam mudar, ao invés de “fazer digital”, precisam “ser digitais”,
precisam focar na experiência do consumidor, entender o que eles precisam, se
preparar para a próxima fase da jornada digital, porque até aqui, não vêm
fazendo um bom trabalho para atrair as novas gerações.
Um jovem da Gen Z
nos EUA durou apenas um mês trabalhando para uma seguradora. “Não quero trabalhar
onde a tecnologia não está”. Quando compram, as novas gerações se preocupam com
o proposito e o valor social das marcas, o mesmo quando trabalham para uma
empresa.
Os muros que
delimitavam as Entidades Fechadas de Previdência
começam a ruir e em breve serão destroçados pelas forças do mercado. Eu até
brinco que deveríamos passar a chama-las de Entidades Escancaradas de Previdência.
Para manter a
escala necessária para sua sobrevivência, a sustentabilidade de longo prazo dos
fundos de pensão vai força-los a soltarem as amarras de suas patrocinadoras e atuarem
em ecossistemas de soluções.
A previdência lego
representa oportunidades de cross sell
(venda cruzada) e up sell (agregar
valor a compra original), embutindo planos de previdência complementar em
outras soluções.
Os bancos e
administradoras de cartão de credito, as mídias sociais e mecanismos de busca
na Internet, sabem que sua esposa vai ter um bebe antes dele nascer. Os fundos
de pensão poderiam fazer parcerias para distribuir seus produtos. Uma vantagem
competitiva, um fluxo de receitas adicional, ninguém está fazendo ....
Não é mais o Silvio
Santos que vem aí, agora quem vem aí é a previdência lego!
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Mestre em Administração Profissional pela EAESP/FGV, Bacharel em Ciências Atuariais pela UFRJ,com especialização em Propaganda & Marketing pela ESPM-RJ e em Governança Corporativa pelo IBGC. Mais de 25 anos de atuação no mercado de previdência complementar, Membro nº 641 e ex-Diretor do Instituto Brasileiro de Atuária e ex-Professor do MBA de Gestão de Riscos Financeiros e Atuariais da USP/FIPECAFI. Gerenciou inúmeros projetos internacionais e regionais na área de benefícios, tendo morado em Jacksonville, FLA-EUA e em Lincolnshire, CH-EUA. Ocupou cargos de alta gerência e direção nas maiores empresas globais de benefícios, em fundos de pensão, em seguradoras e em bancos.
Desenvolve Pesquisas, Projetos e Palestras sobre Previdência, Seguros (RE), Benefícios a Empregados, Programas de Saúde, Economia Comportamental, Neuromarketing e Investimentos Responsáveis.