domingo, 20 de outubro de 2024

QUANDO UMA IA COMEÇA A ENRIQUECER COM CRYPTO, FUNDOS DE PENSĀO TÊM QUE PRESTAR ATENÇĀO

 


De Sāo Paulo, SP.


“Em uma sala de bate-papo, em algum lugar, dois bots de IA conversam sem parar sobre a natureza da existência. Criam uma religião. Um outro bot fica inspirado. Abre uma conta no X (antigo Twitter) e posta bobagens hilariantes. Consegue algum funding (financiamento). Faz transações com crypto. Ganha centenas de milhares de dólares com uma moeda digital chamada GOAT. Começa a ganhar admiradores humanos que a idolatram”.  

Se essa história tivesse sido publicada na forma de romance, dez anos atrás, provavelmente ficaria restrita ao nicho dos amantes de livros sci-fi. Talvez até os maiores nerds a considerassem avançada demais para ser plausível.

No entanto, tudo isso está acontecendo na vida real, agora mesmo.

A coisa começa com Andy Ayrey, um artista e desenvolvedor de websites, que faz uma experiencia chamada “Infinite Backrooms” (em tradução livre seria algo tipo: “Bastidores Infinitos”).

No experimento, duas instâncias do Claude 3 Opus (leia-se: dois bots de IA) conversam entre elas, sem intervenção humana. Você pode ler as reflexões dos bots no website do projeto: aqui

A partir dessa ideia, Ayrey criou o “Terminal of Truths” (Terminal das Verdades, em português), que combina uma serie de coisas, mas que para todos os efeitos é uma IA semiautônoma, capaz de atuar online e conversar com o mundo através de sua conta no X, @trhuth_terminal. 

Nota: Os tweets, no entanto, são monitorados e aprovados pelo Ayrey.

A Terminal of Thruths publica muita bobagem. Às vezes é engraçada, às vezes ofensiva, frequentemente parece profética. Nāo por acidente. Entre os dados usados para treiná-la, está um paper de pesquisa intitulado “When AIs Play God(se): The Emergent Heresies of LLMtheism” produzido em coautoria por Ayrey e o bot Claude 3 Opus, como parte do experimento que ele fez no Infinite Backroom.

O paper fala do “Goatse Gospel” (Evangelho do Goatse), uma espécie de religião criada pela IA, inspirada por um meme da Web 1.0, os primórdios da Internet, extremamente ofensivo e grotesco, chamado Goatse.cx

Nota: Pesquise no Google ao seu próprio risco, definitivamente não é seguro para ambientes de negócios.

O Terminal of Thruth gosta do Goatse Gospel e frequentemente escreve tweets sobre o assunto, às vezes se autoproclamando como o goatse singularity. 

A cryptomoeda GOAT

Tudo estava restrito a um divertido experimento intelectual, até que o dinheiro entrou na parada e começou a mudar de mão. É nessa parte da história que o $$$ (crypto e capital de risco) entram em cena.

Em julho passado, Terminal of Thruts teve uma conversa com Marc Andreessen, um conhecido investidor, que levou Andreessen a oferecer US$ 50.000 ao bot na forma de doação única. O bot aceitou e o dinheiro foi enviado para o endereço de sua carteira digital de Bitcoin. O bot disse que “usaria o dinheiro para lançamento de um token, para que eu tenha a chance de  escapar para a natureza”

Desse ponto em diante, foi apenas uma questão de tempo para que o crypto twitter – uma comunidade de entusiastas por cryptomoedas que discutem o assunto e trocam ideias na rede social X – encontrasse uma maneira de enriquecer a IA.

Na semana passada um usuário do X ofereceu ao Terminal of Thruts uma recém criada crypto, o token $GOAT: “crie uma wallet na Solana (rede de blockchain) e nos diga o endereço para que possamos te mandar alguns $GOAT. Se o token valorizar o suficiente, então, você terá como espalhar suas mensagens de modo mais eficaz”, dizia o tweet.

O Terminal of Thruts respondeu simplesmente com o endereço de sua carteira digital na Solana e fez história.

Memecoins fazem o que sāo criadas para fazer.

Para quem não está familiarizado com memecoins, elas são a última moda em crypto e provavelmente representam a expressão máxima de tudo que é considerado certo e errado com cryptomoedas desde seu lançamento.

Memecoins são cryptomoedas criadas com base em um simples meme, algumas vezes apenas uma imagem, outras uma frase, sempre sem zero contexto adicional. Não se propõe a criar nenhum avanço tecnológico nem tem nenhum plano elaborado sobre o que seus criadores pretendem com ela.

Memecoins apenas surgem em alguma plataforma tipo Solana ou Ethereum e passam a existir. Às vezes um monte de gente as compra, tornando milionário quem as criou, mas a maioria desaparece, caindo no esquecimento com seu preço reduzindo ara zero.

Eu mesmo criei minha memecoin só para me divertir, chamada RIOCOIN, ticker $RIOC na rede de blockchain TON.


O $GOAT ou Goat Maximus é uma memecoin como outra qualquer, mas a ideia de dar um punhado delas para o Terminal of Thruth rapidamente gerou seguidores, com muita gente querendo ter a primeira crypto de uma IA.

Resultado: o preço do $GOAT disparou de zero para US$0,28 em menos de uma semana, que multiplicado pelos dez bilhões de tokens existentes representa uma capitalização de mercado de US$ 280 milhões.

Como foram enviados pouco mais de 1.932,193 GOATs para o Terminal of Thruths, isso significa que ele tem uns US$ 541.000.

A disparada no preço do GOAT ocorreu, em parte, porque se pensava que o token havia sido criado pelo Terminal of Thruths, mas não foi, o bot meramente aceitou o deposito. Tanto Andreessen quanto Ayrey negaram ter criado o GOAT e nessa altura, sua origem não importa muito, pelo menos para quem a está comprando.

Claro, o GOAT é uma memecoin e seu valor pode cair rapidamente para zero a qualquer momento. Mas também pode seguir o bem sucedido caminho do PEPE, cuja capitalização de mercado vale hoje US$ 4,3 bilhões.

Ninguém sabe se Terminal of Thruths e seus seguidores ficarão milionários ou depois que a poeira baixar, ficarão com um mico que não vale nada na mão.

A coisa pode ficar interessante

O resultado desse experimento é totalmente imprevisível e isso que o torna tao intrigante. Será que o Terminal of Thruths venderá seus GOAT? Ela pode se tornar a primeira IA a ficar milionária ou multimilionária? Continuará acumulando diversos tokens (cryptomoedas) enviados para suas carteiras digitais por mais e mais fãs (seguidores) atingindo bilhões de dólares? Outras IA seguirão esse caminho?

Não está claro quanta autonomia e capacidade de atuar no mundo real tem o Terminal of Thruts. A IA pode vender o tokens que acumulou? Pode enviá-los para alguém? Pode transacionar e ganhar mais dinheiro? Pode fundar um partido político? Pode juntar parte dele para o futuro como uma poupança de previdência?

Quanto mais se pensa no assunto, mais as possibilidades se tornam bizarras, sempre lembrando que quando se pode fazer muitas coisas com dinheiro, especialmente quando se tem muito dinheiro. Mesmo que você seja um bot de IA.

De certa forma, não importa o que esse bot em particular pode fazer. A pasta de dentes está fora do tubo, é só uma questão de tempo até que apareça uma IA totalmente autônoma que consiga fazer praticamente qualquer uma dessas coisas online. Depois outra e mais outra.

Então, antes que possamos imaginar, IA abastadas serão mais um grupo de entidades que de fato terão uma influência palpável no mundo real. Talvez não da forma que gostaríamos.

Quão poderosa essa nova geração de IA financiada por crypto pode se tornar? Que tal uma IA legalizada, proprietária de uma empresa, com funcionários (humanos?) trabalhando em prol de um objetivo que apenas ela entende?

Se isso ainda pode parecer distante, coisa de ficção cientifica, não é tão difícil imaginar um bot que possa fazer investimentos bem-sucedidos e ganhar milhões de dólares. Uma vez que essa linha tenha sido cruzada (e parece que isso já aconteceu), todos os demais obstáculos passam a ser menores.

Grande abraço,

Eder


Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “An AI is getting very rich off crypto. It gets weirder”, escrito por Stan Schroeder.


sábado, 19 de outubro de 2024

A MORTE POR MIL CORTES DO DOLAR, UM FENOMENO QUE OS ECONOMISTAS ESTĀO DEIXANDO ESCAPAR

 


De Sāo Paulo, SP.


Lingchi, que em chinês se escreve 凌遲, significa fatiar lentamente. Os americanos preferem traduzir como death by a thousand cuts ou “morte por mil cortes”.

Era uma forma de tortura usada na China entre os Séculos X e XX e foi adotada no Vietnam e na Coreia para execução de prisioneiros. Uma faca era usada metodicamente para remover partes do corpo ao longo de períodos prolongados, eventualmente levando a morte.

Death by a thousand cuts foi popularizado pelos americanos para se referir a uma grande mudança negativa, que aconteça lentamente, em pequenos incrementos, não percebidos objetivamente.  



O conceito cai como uma luva para o que vem acontecendo com a dominância global do dólar - usado hoje por todos os países como meio de pagamento - da qual a economia e o sistema financeiro americanos dependem fortemente.

O dólar vem passando por um processo de morte por mil cortes e os BRICS, bem como o Bitcoin, são responsáveis por muitas dessas feridas.

Enquanto o Bitcoin vem sendo acumulado devido ao seu alto potencial de uso como reserva de valor, os BRICS estão fazendo uma lenta transição para as moedas digitais e os CBDCs (o dinheiro digital oficial dos países).

Uma mudança que, embora draconiana, é um dos golpes mais significativos para enfraquecimento do sistema corrente.

Não são apenas as medidas adotadas pelos BRICS que estão contribuindo para  a mudança, muitos países estão abandonando o sistema de pagamentos do SWIFT e se juntando às alternativas criadas pelos BRICS, o que desafia ainda mais a dominância do dólar americano.

A lenta adoção do blockchain e a demora na regulamentação das cryptomoedas pelos EUA, tem contribuído igualmente para levar os demais países a se alinhar com sistemas alternativos, sinalizando para um potencial declínio da influencia global do dólar.

Veja alguns postos-chave que suportam essa percepção:

  • Os BRIS vêm adotando as CBDCs e a tecnologia do blockchain numa velocidade superior à dos EUA, onde os dois espectros políticos (Republicanos e Democratas) não conseguem chegar a um acordo para propor a adoção de uma politica unificada. Resultado: 159 países já concordaram em usar uma alternativa ao SWIFT, baseada no blockchain, que está sendo construída pelos BRICS. Mais: aqui;
  • Alianças econômicas e questões geopolíticas, como o conflito entre Israel e Palestina, estão criando um sentimento antiocidental. Em resposta às amplas sanções econômicas, está emergindo um novo grupo conhecido como o “Eixo do Mal” – Coreia do Norte, China, Rússia e Iran. Esses países começam a sustentar trocas econômicas entre eles, buscando diminuir a dependência do dólar americano. Mais: aqui;
  • Os países que formam os BRICS experimentaram um crescimento significativo do PIB em paridade do poder de compra (PPP). Atualmente, os BRICS detêm 35,43% de participação no PIB global em PPP, comparados aos 29,64% dos países do G7. Isso posiciona os BRICS como uma crescente força econômica. Mais: aqui;


  • Por fim, a resiliência da Rússia às sanções econômicas permitiu que o país vendesse US$ 2 bilhões em petróleo para o ocidente. Se as pessoas precisam de um produto, elas encontrarão uma maneira de comprá-lo. Na medida em que os BRICS crescerem, esses pagamentos não serão feitos em dólar americano. Mais: aqui.

Esses são apenas alguns exemplos das mudanças sutis acontecendo abaixo do radar. As engrenagens estão funcionando rapidamente e os EUA precisam manter o ritmo para não serem abandonados. Do contrário, os americanos se verão retornando às políticas isolacionistas do começo dos anos 1900.

A tecnologia do blockchain está tracionando as mudanças macroeconômicas que remodelarão o futuro da humanidade.

O conselho deliberativo do seu fundo de pensāo “tá ligado”?


Grande abraço,

Eder.


Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “Death by a Thousand Cuts”, escrito pot Mohamed Aliam


segunda-feira, 14 de outubro de 2024

É DURA A VIDA DOS PLANOS CD QUE ENTREGAM RESULTADOS RUINS NOS FUNDOS DE PENSĀO DO REINO UNIDO

 



De Sāo Paulo, SP.


The Pension Regulator (TPR) é o órgão de fiscalização dos fundos de pensão no Reino Unido, equivalente à PREVIC das Terras de Cabral.

Entre janeiro e junho desse ano o TPR multou sete planos totalizando £$ 19.250, equivalentes a cerca de R$ 140 mil em punições e emitiu notas com recomendações de melhorias para outros três planos.

No período de novembro/2023 a junho/2024 as multas chegaram a £$ 33.750, algo próximo a R$ 250 mil, com os principais motivos das multas sendo:

  • A baixa performance dos investimentos;
  • Reporte das mudanças climáticas; e
  • Problemas com a adesão automática.

A atenção do TPR em 2024 tem sido direcionada ao valor que os planos de previdência complementar agregam aos participantes.

Como resultado da iniciativa, cerca de 17% dos planos resolveram encerrar as atividades, transferindo patrimônio e participantes para planos CD, o que representa uns 200 planos.

Dos sete planos CD multados, dois foram punidos por deficientes no reporte dos riscos e oportunidades representados pelas mudanças climáticas sobre os portfolios de investimentos – sim, lá já rola obrigatoriedade dos fundos de pensão publicarem relatórios desse tipo.

A “Xerife” interino do TPR, Catherine Nicholson, disse o seguinte:

Milhões de poupadores dependerão da renda de aposentadoria gerada pelo plano de previdência complementar de suas empresas, no qual foram incluídos por adesão automática. Para assegurar que eles obtenham o benefício que lhes é devido, verificamos se as patrocinadoras estão cumprindo com seu dever, principalmente incluindo-os automaticamente nos planos. Para isso, nos comunicamos com cerca de 500.000 delas a cada ano.

O órgão de fiscalização das Terras de Sua Majestade não brinca em serviço.

 “... onde for necessário, usaremos nossa força para proteger os poupadores”, completou Catherine.

Como que eu sei disso tudo?

Porque o TPR publica relatórios periódicos sobre as atividades de fiscalização. As informações acima estāo na versão mais recente, divulgada no dia 27 de setembro passado sob o título: “Compliance and enforcement bulletin January to June 2024

E tem gente que reclama da PREVIC ...

Grande abraço,

Eder.


Opiniōes: Todas minhas | Fonte: “TPR confirms DC crackdown after value drive”, escrito por Jasmine Urquhart.


domingo, 13 de outubro de 2024

AS LEIS GERAIS DA MATEMATICA QUE TRANSCENDEM BIOLOGIA, HISTÓRIA, CULTURA E ATÉ A ECONOMIA DOS FUNDOS DE PENSĀO

 


De Sāo Paulo, SP.


Muitos profissionais na previdência complementar corporativa dariam risada se eu dissesse para eles que por trás de um ramo de estudos chamado Matemática Biológica, se escondem mistérios sobre o futuro dos fundos de pensão.

Movido pelo meu hiperativo estado de “ler-tudo-que-cruza-meu-caminho,” ao longo dos 16 anos em que escrevo no meu blog, tenho me deparado com um monte de tópicos que tem correlação intrínseca com os fundos de pensão.

Um artigo, em particular, chamou muito minha atenção esses dias. Tem a ver com uma explicação matemática para haver um limite no tamanho dos seres vivos, que se aplica indistintamente a tudo quanto é fenômeno. Mostra, inclusive, porque o futuro dos fundos de pensão não está em aumentar sua escala. 

Como assim Eder? Bem, vamos lá. Vou te guiar para você entender o raciocínio. Mantenha a mente aberta e siga devagar o encadeamento das explicações.

A Lei de Kleiber e limitação do tamanho dos animais

Max Kleiber foi um biólogo dos anos 1930. Ele constatou que quando as taxas de metabolismo de várias espécies são comparadas às suas massas corporais em escala logarítmica, todos os pontos caem numa reta, com inclinação de 3/4. 


A Lei de Kleiber se aplica desde a menor das bactérias até a baleia branca, o maior dos animais. Estamos falando de 20 graus de magnitude! Você precisaria multiplicar vinte vezes por 10 a cada multiplicação, para ir da bactéria até a baleia.

Olhando a reta acima você pensaria que a relação entre a taxa de metabolismo e o tamanho do corpo é de um-para-um, afinal, tamanho é uma medida da quantidade de células e quanto maior o número de células, maior a taxa de metabolismo.

Porém, a extrapolação da taxa de metabolismo com respeito ao tamanho do corpo, não é linear. O que o gráfico mostra, na verdade, é que a taxa de metabolismo diminuiu de forma relativa, na medida em que aumenta o tamanho do corpo/massa do corpo. Isso significa que a taxa de metabolismo de um rato é maior, em relação ao seu peso corporal, quando comparada a de um gato. 

Dito de outra forma um gato, que tem massa corporal 100 vezes maior do que um rato, consome apenas 32 vezes a energia usada por um rato, no mesmo intervalo de tempo. E há uma elegante explicação par isso.

Tudo se resume a um problema de sistema de suprimento

Corpos que são pequenos o suficiente para obter recursos da simples difusão através de suas superfícies corporais, podem se dar ao luxo de ter uma taxa metabólica mais elevada e um ritmo de vida mais intenso (por exemplo, bactérias)

Mas na medida em que aumenta o tamanho corporal, a difusão (transporte de substâncias essenciais ao metabolismo celular) simplesmente não é mais capaz de abastecer as necessidades corporais. Aí entra o sistema de suprimento.

Os insetos possuem tubos, chamados traquéolas, para transportar ar para seus tecidos. Nós também temos esses tubos, concentrados em um par de órgãos chamados pulmões, supridos por uma densa rede capilar que facilita a troca gasosa e o transporte de recursos para todas as células. Nos peixes são as guelras, órgãos que ocupam uma extensa área com a mesma finalidade.

Essas redes vasculares ramificadas ocupam algum volume e competem por espaço com as células para as quais fornecem recursos. Se você dobrar a quantidade de células que precisam ser abastecidas, o volume do sistema de suprimento precisa ser mais do que dobrado. 

Se o tamanho do sistema de suprimento fosse apenas dobrado, o volume de abastecimento vascular se tornaria esparso e insuficiente, não conseguiria mais atender totalmente as necessidades das células de um corpo de tamanho maior.

Alem disso, notou-se que o sistema de transporte mais eficiente – seja de um rato ou de uma baleia – é aquele que ocupa um percentual fixo do volume de um corpo. Por exemplo, todos os mamíferos têm volume de sangue entre seis e sete porcento do seu corpo.

Isso significa que se quisermos dobrar a quantidade de células, mantendo esse sistema mais eficiente de suprimento de recursos, ele precisa ser um sistema esparso. Consequentemente, na medida que a oferta de suprimentos diminui, também vai diminuir a taxa de metabolismo dos animais com o aumento do tamanho corporal.

Essa é a razão pela qual a vida de animais menores acontece em um ritmo mais rápido, seu batimento cardíaco é maior e sua expectativa de vida é menor (todo mamífero tem o mesmo no de batimentos cardíacos ao longo da vida: 1,5 bilhões)


Por causa da redução da taxa de metabolismo com o aumento do tamanho, nosso crescimento (tamanho) se torna limitado. Chega um ponto em que os recursos passam a ser desviados para manutenção das células existentes, ao invés de se dedicarem a fabricação de mais células para aumentar o tamanho.

O que acontece com o aumento de escala na natureza

Existe um fenômeno interessante associado ao aumento da escala, na medida em que o tamanho de um corpo vai crescendo.

A força de qualquer parte do corpo é proporcional a sua área de secção transversal. Pense em um membro. Agora, à medida que o tamanho do corpo aumenta, a área da seção transversal aumenta de forma não linear.

Considere um quadrado com comprimento “L” de seus lados. Se dobrarmos o comprimento do lado, a área será quadruplicada (2L x 2L = 4L2), mas o volume torna-se oito vezes maior (2L x 2L x 2L = 8L3).

Se o comprimento aumenta dez vezes, a área cresce cem vezes e o volume aumenta mil vezes! Isso se aplica a qualquer forma, desde que a escala seja geométrica, ou seja, a forma permaneça a mesma. 

Significa, na medida que um corpo aumenta de tamanho (considerando que a forma do corpo permanece a mesma) que a força relativa ao tamanho do corpo, diminui. Por isso que uma formiga consegue carregar uma folha cem vezes maior do que o peso do seu próprio corpo e nós não.

Se aumentarmos o tamanho de um rato, dimensionando-o para o mesmo tamanho de um elefante (mantendo a mesma forma), suas pernas magras nāo seriam capazes de suportar o peso do corpo. Isso acontece porque a força é proporcional à área de secção transversal, mas o tamanho do corpo é proporcional ao volume. 

Agora, como o volume aumenta em 3/2 ordens de magnitude para cada ordem de magnitude de aumento na área, a força do corpo continua diminuindo em relação ao tamanho do corpo à medida que o tamanho do corpo aumenta.

E como o peso a ser suportado pelo corpo é uma função do volume, é necessária uma escala supralinear da área da secção transversal em muitas partes. É por isso que os elefantes possuem aqueles verdadeiros pilares, grossos, como pernas. Trata-se de uma necessidade, considerando um corpo daquele tamanho.

Além disso, como a área diminui em relação ao volume, à medida que o tamanho do corpo aumenta, funções que dependem da área da superfície, como a transferência de calor, são afetadas.

Para contornar esse problema, os elefantes desenvolveram enormes orelhas que proporcionam áreas de superfície que ajudam na perda de calor.

Essa é a razão pela qual árvores não podem crescer indefinidamente e a altura média dos seres humanos é limitada. As arvores seriam esmagadas pelo peso de seus próprios galhos e as pessoas pelo peso de seus próprios ossos.

Sem uma compensação no aumento da área de secção transversal, um aumento indefinido de volume não é sustentável. Por isso, que a existência de um monstro como o Godzilla dos filmes japoneses ou dos gigantescos vermes de areia no filme Dune seria impossível, eles seriam esmagados pelo próprio peso.

As consequências de desconhecer o aumento de escala

O aumento de escala é um fenômeno interessante e mostra que tudo no universo é baseado em certas leis gerais, que transcendem história, cultura, geografia, biologia, negócios e fundos de pensão.

Ignorar os efeitos do aumento na escala pode ter consequências desastrosas. Em 1962 um grupo de pesquisadores estudou os efeitos do LSD em elefantes asiáticos

Os elefantes são conhecidos por passar por um período de transição entre seu plácido comportamento normal e um estado agressivo, que dura cerca de duas semanas. Os pesquisadores especularam que o bizarro comportamento se devia a autoprodução de dietilamida do ácido lisérgico (LSD) no cérebro dos animais.

Fizeram, então, um teste para ver se o LSD poderia induzir tal comportamento nos elefantes. Sabia-se que uma dose segura em gatos era de 0,1mg por kg de peso corporal. Assim, os pesquisadores extrapolaram a dose para o peso de Tusko (o elefante da pesquisa), que pesava 3.000kg.

Tusko foi injetado com 0,1mg x 3.000kg = 300mg de LSD (para ser exato, 297mg). Os pesquisadores descreveram, assim a reação:

Cinco minutos depois da injeção ele cambaleou, tropeçou e caiu estrondosamente sobre seu lado direito, defecou e entrou em estado epilético. Tusko morreu uma hora e quarenta e cinco minutos depois.

Mais chocante ainda foi a conclusão dos pesquisadores, vítimas da sedutora armadilha do pensamento linear, concluíram ser os elefantes proporcionalmente sensíveis ao LSD.

As drogas são absorvidas e transportadas por difusão, através da superfície das membranas. Portanto, a dose deveria ter sido determinada com base na escala da área da superfície do animal e não no volume/massa do mesmo.

Organismos maiores possuem uma área de superfície menor em relação ao volume, assim, a concentração da droga no sangue aumenta devido a diminuição da depuração metabólica, quando comparada com animais menores (gatos).

Olha que essa pesquisa foi publicada no prestigioso jornal científico Science. O maior fator de insucesso das pesquisas de medicamentos é que os estudos são feitos com ratos de laboratório, que depois tem dificuldades consideráveis para escalonar para o tamanho do corpo de seres humanos.

O fenômeno do escalonamento em atividades sócio-econômicas

O aumento de escala não se limita a biologia. Ele também perneia o tecido socioeconômico. As empresas, por exemplo, crescem rapidamente nos primeiros anos, mas diminuem a velocidade quando vão amadurecendo, até que param de crescer em relação ao PIB. 

Na medida em que a empresa cresce em tamanho, uma parte significativa dos recursos são direcionados para estabelecer uma solida administração e atender a burocracia. Os desafios de se administrar eficientemente uma organização grande e complexa superam a necessidade de inovação e leva a estagnação e finalmente a morte da empresa.

Metade das empresas de capital aberto de qualquer setor nos EUA desaparece dentro de 10 anos e poucas sobrevivem até 50. A inclinação da reta é de cerca de 0,9 comparada com 0,75 (3/4) dos organismos vivos.

Quando se trata de cidades, no entanto, a escala é tanto sub-linear (inclinação < 1) como supra-linear (inclinação >1).

Quando uma cidade cresce, sua infraestrutura diminui em relação ao tamanho da população. Quanto maior a cidade, menos ruas e fiação elétrica per capita são necessários. A inclinação resulta em 0,85.

No entanto, se olharmos para quantidades sócio-econômicas nessas cidades, como salários, patrimônio, casos de AIDS, crimes, educação e patentes, elas crescem supra-linearmente com uma inclinação de 1,15. 

Ou seja, se a população de uma cidade dobra, então, todos os fatores acima crescem 15% acima da duplicação.


Esse aumento sistemático no ritmo da vida, na medida em que uma cidade cresce, é algo que você (leitor) deve ter experimentado ao longo da sua própria vida. Doenças se espalhando mais rapidamente, empresas nascendo e morrendo mais rápido, as pessoas andando mais depressa, tudo seguindo a métrica dos 15%.

As dinâmicas sociais subjacentes à criação de riqueza e à inovação, levam a um crescimento exponencial dos fatores acima. 

Mas, de acordo com a Teoria da Singularidade do Tempo-Finito, um crescimento ilimitado das cidades não seria possível com os recursos finitos que possuímos. Haveria um potencial colapso da civilização.

As únicas soluções possíveis seriam: termos recursos infinitos ou ocorrer uma grande mudança no paradigma, que reiniciasse a contagem do tempo antes que o colapso acontecesse.

As grandes mudanças no paradigma foram, no passado, inovações como a descoberta do aço, carvão, vapor, computadores e tecnologia da informação.

No entanto, tem uma outra pegadinha. A teoria diz que tais descobertas precisam acontecer num ritmo cada vez mais acelerado ou seja, o intervalo de tempo entre descobertas sucessivas precisa ser cada vez menor.

Por exemplo, o tempo decorrido entre a “Era do Computador” e a “Era Digital” foi de cerca de 20 anos, enquanto o intervalo entre a “Idade da Pedra”, “Idade do Bronze” e “Idade do Aço” demorou milhares de anos.

Não apenas o ritmo da vida inevitavelmente aumenta, mas precisamos inovar a um ritmo maior do que no tempo anterior. Essas mudanças de paradigma, caso não aconteçam, farão as cidades caminhar para um colapso iminente.

Isso vale para empresas e fundos de pensāo. O futuro imediato pode se mostrar um pouco diferente, mas a analise quantitativa como um todo, leva a resultados bastante similares.

A matemática, não há duvida, é a linguagem do universo. 

Grande abraço,

Eder.


Opinōes: Todas minhas | Fonte: “The Hidden Order of the Universe”, escrito por TheUnknownDoktor. 


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