quinta-feira, 27 de julho de 2023

DEVERIAMOS TER MEDO DA MOEDA DIGITAL DO BANCO CENTRAL DO BRASIL, O REAL DIGITAL? ALERTA: PROVAVELMENTE SIM ...

 



De Sāo Paulo, SP.


Mais de 100 países estudam o lançamento de sua versão da “moeda digital do banco central”, conhecida em inglês por CBDC, acrônimo para Central Bank Digital Currency. De acordo com o Atlantic Council Geo-economics Center, isso representa uns 95% do PIB mundial, portanto, a chegada do dinheiro digital é só uma questão de tempo, de pouco tempo.

China, França e Índia já lançaram um piloto, Reino Unido, Paquistão e Brasil divulgaram planos para suas CBDC, enquanto nas Bahamas já é realidade.

Diferentemente das cryptomoedas, as moedas digitais oficiais dos países não têm nada a ver com descentralização, tem a ver com “digitalização” da economia. Têm a ver com abandonar o dinheiro em papel, com tornar programável o dinheiro nacional, com incentivar ou desincentivar certas atividades econômicas.

Considerando que a maioria das pessoas possui conhecimento bastante limitado sobre Web 3, tokens, carteiras digitais, blockchain e toda a tecnologia de cryptografia por trás das CBDC, qual a chance de termos um debate amplo, democrático, transparente e justo sobre o Real Digital? 

Mesmo o BACEN compartilhando com a mídia o roteiro de desenvolvimento do Real Digital, isso não quer dizer que ele não possa vir a ser redesenhado ou modificado mais adiante, sem o consentimento dos cidadãos brasileiros. 

Tudo que queremos - e temos todo o direito de saber - é quais as intenções no longo prazo do Banco Central do Brasil com o Real Digital em relação aos cidadãos do país?

O mundo distópico de George Orwell com 40 anos de atraso?

Duas preocupações costumam emergir na literatura publicada pelos bancos centrais na comunicação do lançamento de suas CBDCs:

  1. Os técnicos têm dificuldade para explicar os motivos, sob a perspectiva da sociedade e dos negócios, pelos quais estão considerando a CBDC e não conseguem detalhar claramente seus benefícios para o cidadão comum;
  2. Os riscos das CBDC são largamente ignorados pelos bancos centrais, quando muito, ficam circunscritos aos aspectos financeiros e de política monetária.

O Real Digital trás uma gigantesca ameaça à proteção dos direitos humanos dos consumidores. Se for desenhado de forma inapropriada, terá potencial para ser usado como meio de vigilância e controle do cidadão comum pelo governo.

O Real em papel moeda, uma vez impresso e colocado em circulação pelo BACEN, é virtualmente impossível de ser rastreado. Aquela nota de R$10 que você carrega no seu bolso, pode ter sido usada anteriormente em centenas de pagamentos, mas não existe registro dessas transações, nem de quem foi dono anterior da nota.

A privacidade é preservada, não existem terceiros controlando como você nem como os donos subsequentes da nota, gastam esse dinheiro.

Com o Real Digital, cada transação ficará registrada e qualquer autoridade com acesso a esses registros digitais poderá ver todas as transações. Isso pode ser útil paras monitorar a economia e suas tendencias, mas está sujeita a abusos pelo governo e pelos terceiros com acesso aos dados.

Por exemplo, pode ser facial identificar membros de partidos políticos, grupos religiosos, comunidades sociais, setores militares. Em essência, o Real Digital pode ser usado para construir um perfil completo de cada individuo que esteja usando o dinheiro digital. 

O Real Digital, potencialmente, pode virar um sistema de vigilância da população, controlando onde os indivíduos gastam seu dinheiro, quanto gastam, em que gastam, quando gastam. Todo tipo de controle é possível. 

Pode-se colocar prazo de validade para o Real Digital, pode-se limitar quanto uma pessoa pode gastar ou possuir, pode-se atribuir diferentes taxas de juros e preços, dependendo de quem tem o dinheiro, pode-se impedir compras de determinados produtos, deduzir multas e impostos automaticamente da carteira digital de uma pessoa etc. 

Particularmente preocupante é a tendencia de se conectar a CBDC com a identidade digital. A identidade digital é vista por alguns como componente chave para disseminação do dinheiro digital.

Essa narrativa vem sendo defendida por burocratas e técnicos que estudam um substituto para a identidade em papel, bem como por reguladores a procura de novas soluções para combater crimes financeiros.

No entanto, a identidade em papel é desnecessária para fazer pagamentos. Nāo existe nenhuma razão para um supermercado, um restaurante ou um taxi precisarem saber quem você é ou qualquer coisa sobre você, o mesmo vale para pagamentos com dinheiro digital.

Quando se fala de pagamento digital, é comum os burocratas confundirem erroneamente a identificação digital dos destinatários da transferência do dinheiro com a identidade digital deles.

Identificação digital é necessária para endereçar o pagamento para a pessoa certa e para que a pessoa que faz a transferência tenha certeza de que tem o endereço digital correto.

As soluções para isso são diferentes das soluções de identidade e não existe absolutamente nenhuma razão para conectar todos os pagamentos digitais à sua identidade digital. Fazer isso seria catastrófico para a privacidade, para as liberdades individuais e para a democracia.

A identidade é necessária para achar criminosos se eles cometerem fraude, lavagem de dinheiro ou financiarem atividades criminosas. Identidade também é necessária para fornecer as credenciais de acesso seus ativos digitais. 

No entanto, num mundo em que o dinheiro passa a ser programável, a identidade digital vai muito além de apenas permitir acesso aos seus ativos. 

O uso desses ativos pode ser condicionado a sua identidade digital se for parte do sistema de pagamentos, ou seja, uma loja pode unir sua identidade ao pagamento para saber que é você que está fazendo o pagamento. 

Mas quando esses ativos estão em Real Digital, então o banco central e por conseguinte o governo, podem controlar diretamente como você gasta e recebe seu dinheiro. 

Desconfie de qualquer um que esteja defendendo a conexão de sua identidade digital ao Real Digital e questione as razões dessa defesa. Da mesma forma, desconfie de programas de CBDC separados de sistemas de identidade digital, com origens independentes e sem nenhuma conexão que, de repente, se tornarem conectados. 

Não existe motivo logico para fazer isso sob o ponto de vista monetário, mas um mar de razões e propósitos mal-intencionados com proposito de controle e vigilância.

O Real Digital começou mal

Conforme alertado acima, a maioria das pessoas possui conhecimento limitado sobre as tecnologias por trás da construção do Real Digital.

Quando o governo divulga na mídia que o Real Digital será executado num blockchain privado chamado Hylerledger Besu, que é compatível com o Ethereum Virtual Machine (EVM), isso é o mesmo que falar grego ou chinês para as pessoas.

Mas tem gente que conhece muito bem isso e vem alertando há alguns anos para os potenciais perigos.


O projeto do Real Digital está sendo desenvolvimento há pelo menos três anos, mas o código fonte (sempre ele) só foi disponibilizado pelo BACEN agora no dia 06 de julho, poucos meses antes do início dos testes piloto. 

O código fonte do Real Digital pode ser acessado no GitHub – uma plataforma que hospeda códigos Open Source para programadores, utilitários ou qualquer um cadastrado que queira contribuir. 

Um desenvolvedor de blockchain que analisou o código do Real Digital descobriu funções que permitem ao governo, em determinadas circunstâncias, congelar fundos, reduzir saldos de usuários do sistema, congelar e descongelar contas, aumentar ou reduzir saldos, movimentar moedas entre endereços (carteiras eletrônicas), criar reais digitais em um endereço específico. 

O governo, não explica quais seriam as circunstâncias em que tudo isso poderia ser feito, nem quem teria o poder de fazê-lo. Nada está registrado nos smart contracts (contratos inteligentes) que regulam o funcionamento da moeda digital.

Imagine que você, cliente de um banco, queira sacar todo seu dinheiro de uma só vez da sua conta bancária. Você simplesmente poderia ser impedido pelo governo, através do mecanismo de funcionamento do real digital, de ter acesso ao seu próprio dinheiro e ficar limitado ao cumprimento de regras imposta pelo BACEN. 

O Real Digital é importante demais para ser deixado a cargo apenas de técnicos e burocratas do Banco Central do Brasil e demais órgãos do governo. O assunto requer o envolvimento da sociedade num debate amplo, transparente e prévio ao seu lançamento, antes que seus perigos sejam irreversíveis ...


Grande abraço,

Eder.


Fontes: The Risks to Society of Central Bank Digital Currencies (CBDC) , escrito por Jeremy Light | Real Digital contém código que pode congelar ou subtrair fundos, escrito por Ana Luiza | Real digital poderá ter “circuit breaker” e congelamento de saques, escrito por Gustavo Bertolucci


terça-feira, 25 de julho de 2023

Pergunte para os conselheiros do seu fundo de pensão: “Qual a idade do capitão”?

 





De Sāo Paulo, SP.

Em 2018 viralizou na Internet um problema de matemática dado no 5º ano do ensino fundamental, nas escolas da China. O problema era o seguinte:

Se um barco tem 26 ovelhas e 10 carneiros a bordo, qual a idade do capitão?

Vou te dar um momento, faça uma pausa na leitura e tente responder ... 

Terminou? Sim? Segue o jogo.

A maioria dos pais das crianças, indignada com o problema aparentemente impossível de responder, não entendeu o ponto por trás da questão.

Algumas das respostas dadas pelos alunos foram bem astutas, como essa de um estudante da cidade de Weibo:

O peso total de 26 ovelhas e 10 carneiros é de 7.700kg, baseado no peso médio de cada animal. Na China, se você está pilotando um barco com mais de 5.500kg de carga, você precisa ter tirado uma licença há pelo menos 5 anos. A idade mínima para se tirar a licença de capitão é de 23 anos, então, o capitão tem pelo menos 28 anos.

Hahaha, adorei a criatividade.

O que os haters da Internet, os pais das crianças e os especialistas de sofá deixaram escapar é que esse problema é, de fato, uma questão que envolve fundamentos da matemática, da logica e da álgebra. A resposta é: 

Não há informação suficiente para responder a questão.

As reações dos estudantes para o problema, que ficou conhecido como “a idade do capitão”, são frequentemente citadas como exemplos da falta de senso-matemático, i.e., das coisas que fazem sentido em matemática.

Ao longo de várias pesquisas feitas em diferentes partes do mundo, um número considerável de crianças no ensino fundamental respondeu 36 para a pergunta sobre a idade do capitão, somando as 26 ovelhas com os 10 carneiros.

“O raciocínio delas parece ter sido suprimido, elas obviamente perderam o bom senso quando entraram na sala de aula” – C. Selter, Educational Studies in Mathematics, Vol.42, No.2 (2000), pp. 211-213.

Essa armadilha mental está sendo apresentada aqui para chamar a atenção para a importância do pensamento crítico nos conselhos deliberativos. 

Os conselheiros de um fundo de pensão devem saber que o mundo nem sempre os apresentará "problemas de soma-zero" para resolver. O termo é derivado da Teoria dos Jogos, mas diferentemente do contexto de jogos com informação incompleta, se refere a um aspecto psicológico: a necessidade de interpretação subjetiva de uma pessoa em determinadas situações. 

Mas o buraco é ainda mais embaixo. Nos anos 1980, ao se apresentar o problema da idade do capitão (ou uma variante dele) para crianças de diferentes faixas etárias na França, Alemanha e Suíça, obteve-se um resultado alarmante:

Quanto mais as crianças têm estudo, mais são compelidas a resolver o problema com respostas sem sentido

Eu não preciso traçar para você um paralelo entre essas questões e um conselho deliberativo pedindo para o Diretor Presidente explicar como um projeto de inovação disruptiva vai conseguir transformar o modelo de negócios do fundo de pensão daqui a cinco anos ... 

O paralelo deveria ser dolorosamente obvio. Em inovação ou de modo geral nos desafios de transformação dos fundos de pensão, problemas desse tipo são a norma, não a exceção.

Os conselheiros acabam desenvolvendo algumas habilidades para serem capazes de superar o desafio de ter que lidar com informações escassas e questões matematicamente insolúveis.

Uma resposta que muita gente acharia válida para o problema da idade do capitão, seria dizer: certamente podemos verificar os registros online da capitania dos portos. Só que não!

Durante a próxima reunião do conselho deliberativo do seu fundo de pensão, peça aos conselheiros para responderem: qual a idade do capitão?

E se divirta, se surpreenda ou fique estarrecido com as respostas ...

Grande abraço,
Eder.


Fonte: “What is the age of the captain?”, escrito por Phillipe Meda

segunda-feira, 24 de julho de 2023

Pensando em quem deveria estar no board do seu fundo de pensão? Chame um eletricista!

 



De Sāo Paulo, SP.


Há duas razões pelas quais as pessoas tendem a falar, desnecessariamente, de forma complicada sobre assuntos que abordam: (i) elas têm interesse pessoal em fazer os outros acreditarem que o assunto é mais complexo do que realmente é; ou (ii) elas de fato não entendem do que estão falando. 

Esse é o caso de quase todas as discussões envolvendo a composição de conselhos de fundos de pensão. 

Se você quer ver rostos espantados dos altos executivos que nomeiam os representantes das patrocinadoras para os boards de seus fundos de pensão, use o “exemplo do eletricista”. Eles não terão mais dúvida em relação à nomeação de conselheiros, pelo resto da vida.

O Problema do Eletricista

Um eletricista está trabalhando no quadro de força da entrada da sua casa - aquele perto do poste - e alguém te pede para ir lá fora observar o eletricista e reportar de volta se ele está fazendo um bom trabalho.

Como você é desprovido de qualquer conhecimento técnico sobre eletricidade, provavelmente vai tentar deduzir a expertise dele baseado em algumas pistas contextuais.

Tipo: (1) o eletricista tem uma aparência profissional e consistente com um técnico qualificado? (2) a linguagem corporal dele denota confiança e propósito? (3) ele parece ter as ferramentas apropriadas para o trabalho? (4) há algum sinal indicando claramente que ele não é qualificado (atitude confusa, faíscas, luzes piscando, cheiro de queimado)?

Quando você volta para dentro de casa, você reporta que, baseado no que viu, ele parece qualificado e parece estar procedendo de forma hábil.

A futilidade de todo o exercício fica evidente, o entanto, quando alguém faz a pergunta crucial: “Como se pode confiar na sua avaliação ... se você não entende nada de eletricidade”?

A resposta, claro, é: “não se pode”. Não obstante, isso acontece o tempo todo em centenas de fundos de pensão Brasil afora.

O elo faltante nas salas de reunião dos conselhos

Considere os fundos de pensão com planos do tipo benefício definido (BD). Um risco chave que esses planos tipicamente possuem é uma avaliação recorrente de seus passivos atuariais.

Apesar disso, a quase totalidade dos fundos de pensão brasileiros não possui membros com expertise profissional em riscos atuariais, avaliação de passivos, definição de hipóteses, demografia, processos estocásticos, etc. em seus conselhos deliberativos.

Então, como eles supervisionam esses riscos? Bem, se falta esse requisito na expertise dos conselhos, eles ficam limitados a uma espécie de dedução lógica, baseados naquilo que a própria gestão lhes apresenta. 

Em outras palavras, eles não conseguem saber se os passivos estão corretamente dimensionados nem se as táticas de gestão dos riscos atuariais são boas ou não. Eles se baseiam e acreditam naquilo que lhes é apresentado.

Nos conselhos deliberativos dos fundos de pensão brasileiros, responsáveis por administrar os maiores planos BD, com bilhões de $$$ em compromissos, está faltando um elo - talvez o mais importante: o atuário.

Mas se as questões atuariais representam a maior fatia dos quase um trilhão de reais em compromissos dos fundos de pensão, por que ninguém consegue encontrar um atuário entre os conselheiros dos fundos de pensão? Onde foram parar os atuários?

Sim, os próprios fundos de pensão, supervisionados por esses conselhos deliberativos, tem dificuldade para contratar atuários para seus quadros de gestão. Mas as questões atuariais também não deveriam ter voz nos colegiados?

Cerca de 10% dos fundos de pensão possuem um ou menos atuários em seus conselhos deliberativos, 90% não tem nenhum. Indivíduos com bacharelado em ciências exatas (estatística, matemática, física, química) são mais fáceis de encontrar do que atuários.

Será que é porque os atuários não querem fazer parte dos conselhos ou por que os conselhos não querem nenhum atuário? (Confissão: o autor desse artigo é atuário)

Talvez não haja atuários suficientes por aí. Isso é real, mas um problema bem diferente. De acordo com o Instituto Brasileiro de Atuaria - IBA, existem no país 1.497 profissionais (associados), mesmo a profissão existindo desde 1944 no Brasil.

Mas mesmo esse número escasso de profissionais é certamente suficiente para preencher pelo menos uma cadeira nos conselhos dos 272 fundos de pensão existentes, cuja composição conta em média com 6 membros.

Alguns poderiam argumentar que seu fundo de pensão não tem nenhum plano BD – mas a realidade é que não existe previdência complementar sem análise de riscos de morte, invalidez e sobrevivência.

Como os planos desses fundos de pensão vão assegurar que seus produtos são adequados para quem busca segurança financeira presente e futura para si e para suas famílias? Quais ameaças financeiras e tecnológicas estão a espreita para extinguir o principal negócios dos fundos de pensão?

Qual fundo de pensão poderia suspeitar que a tecnologia reduziria pela metade o quadro de empregados das patrocinadoras com impactos profundos na sua própria sustentabilidade? 

Os riscos atuariais estão em todo lugar. Em todo lugar, mas parece que menos nos conselhos dos fundos de pensão!


Grande abraço,

Eder.



Fontes: "Struggling with who should be on your board? Call an electrician”, escrito por Adam J. Epstein | “Engineers: The Boardroom’s Missing Link?”, escrito por Norman R. Augustine and Sai Mamidala


sábado, 22 de julho de 2023

PARA ONDE VĀO OS FUNDOS DE PENSĀO?

Respondo pegando carona nas palavras de Carl Sagan, alguém a quem admirei profundamente durante minha adolescência:


Grande abraço,

Eder.



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