quinta-feira, 16 de novembro de 2023

DESIGN DE INTERAÇĀO - REDESENHANDO O PLANO DE PREVIDÊNCIA DO SEU FUNDO DE PENSĀO

 


De Sāo Paulo, SP.


A definição de “affordance” foi originalmente proposta pelo psicólogo James Gibson em 1977 para denotar a qualidade de qualquer objeto que permite ao indivíduo identificar suas funcionalidades através de seus atributos - forma, tamanho ou peso - de maneira intuitiva e sem explicações.

A tradução mais próxima para o português seria “design de interação”, definido como: o desenho de produtos e serviços no qual o foco vai além do item em desenvolvimento, leva em consideração a maneira como os usuários vão interagir, indo mais a fundo e além do design “tradicional”.

Quando você vê um produto bem desenhado no dia a dia, o design de interação que você percebe deve indicar como usá-lo. Você não deveria ter que se esforçar para descobrir como funciona seu chuveiro se quiser tomar um banho, não deveria ter que se basear em tentativa & erro ou ter que se molhar com água fria no processo.

O desenho de uma coisa comum deveria deixar evidente a forma de usá-la. Um objeto deveria comunicar isso através de seu design de interação.

Um botão embutido permite pressioná-lo. Um mostrador saliente permite girá-lo. Uma chave seletora permite alternar. Você pode jogar uma maçã para outra pessoa pegar, uma bigorna não. Uma cadeira com encosto permite sentar-se e encostar-se, um banquete ou um puff só permitem sentar-se.

Don Norman, que popularizou o termo “affordance” ou design de interação através de seu livro clássico “The Design of Evereday Thing”, que em tradução livre seria algo como: O Desenho das Coisas do Dia a Dia, fala bastante sobre portas.


Podemos empurrar ou puxar uma porta ou ainda, deslizá-la para o lado. Algumas vezes as portas abrem para cima, mas raramente para baixo. Sendo algo tão fundamental para nosso dia a dia, você poderia pensar que acertamos os desenhos suficientemente para não as usarmos da forma errada.

No entanto, sou capaz de apostar que você já puxou uma porta, quando deveria empurrá-la, porque colocaram uma barra dando a impressão que era para abrir puxando. Frequentemente, uma porta desenhada dessa forma ganha um aviso indicando “empurre”. Don Norman diz que se seu desenho precisa explicação ou um aviso, considere outro desenho.


Credito de Imagem: Sketchplanation

As frustrações apontadas por Dan Norman referem-se principalmente aos desenhos de coisas do nosso cotidiano. Se você for um controlador de tráfego aéreo ou um astronauta é razoável se esperar algum treinamento para você poder usar as funcionalidades avançadas dos dispositivos.

Mesmo assim, em ambientes especializados como de saúde, bons desenhos – como evitar armazenar remédios por ordem alfabética – são críticos para reduzir o potencial de erros.

Nos planos de previdência complementar oferecidos pelos fundos de pensão a importância do desenho, mas também do seu uso pelos participantes, é crucial para se atingir os objetivos de longo prazo. Não obstante, essa é uma questão frequentemente desprezada.

Aplicaçāo prática de design de interação

O Prof. Itamar Simonson, da Stanford, levou alguns “snacks” para sua aula semanal e os ofereceu aos alunos. Não porque ele estava querendo ser legal, mas porque faziam parte de um estudo.

De acordo com o professor, algumas vezes não queremos fazer escolhas, pelo menos não uma nova escolha. Assim que escolhemos uma opção, nos agarramos a ela se tivermos que fazer a mesma escolha novamente.

No estudo, o Prof. Simonson ofereceu a uma de suas duas classes a possibilidade de escolherem um snack toda semana. A outra classe tinha que escolher, na primeira aula, o snack para o período de três semanas seguintes.

Ele descobriu que as pessoas que fazem escolhas intertemporais, ou seja, uma escolha para um ponto no futuro, tem preferências diferentes das pessoas que fazem uma série de decisões mais imediatas.

Os alunos que tinham que fazer escolhas para as três aulas seguintes, selecionavam mais variedade de snacks do que aqueles que escolhiam o snack apenas para a próxima aula.  


Credito de Imagem: Plastik Embalagens

Por exemplo, alguém escolhendo para o período de três semanas poderia pegar batata chips, castanha e barrinha de cereais. Já alguém tendo que decidir toda semana escolhia a barrinha de cereais, a barrinha de cereais, a barrinha de cereais.

As pessoas fazem isso o tempo todo. Você seleciona alguns filmes diferentes no Netflix para assistir quando tiver tempo, aí quando você finalmente senta para assistir algo, você escolhe na hora um filme que está passando no momento.

Eu mesmo tenho um bom exemplo disso. Costumo comprar livros sensacionais, que pretendo ler mais adiante, assim que tiver tempo e os guardo na estante da biblioteca de casa. Sempre que passo pela biblioteca, lá estão os livros ainda envoltos pela película plástica protetora, esperando para (um dia) serem lidos ...

A implicação prática da descoberta do Prof. Simonson é que se alguém pede para você fazer escolhas imediatas versus tomar decisões de longo prazo, pode-se esperar que você se comporte de modo diferente.

Essa diferença de comportamento pode ter implicações importantes e em certas situações, prejudiciais para participantes de planos de previdência complementar.

É muito bom poder escolher entre diferentes percentuais do salário para contribuir ao plano de previdência da sua empresa. No entanto, se você escolhe um percentual mais baixo quando entra no plano e nunca mais o altera, vai acumular uma poupança para a aposentadoria menor do que a necessária.

Por exemplo, digamos que as opções de contribuição sejam o valor equivalente a 2%, 5%, 7% ou 9% do salário. Quando entra no plano, o participante precisa escolher um percentual, que pode mudar anualmente se quiser.

Vamos supor que ele escolha 5%. De acordo com o estudo do Prof. Simonson, o participante vai escolher 5% e dificilmente vai alterá-lo posteriormente.

Então, ao invés de se pedir ao participante para escolher um único percentual de contribuição ao aderir ao plano, digamos que o regulamento determine que ele precisa escolher, na partida, os percentuais de contribuição dos três primeiros anos.

Como o estudo diz que se você tiver que fazer escolhas para o futuro, você tenderá a buscar mais variedade nas suas preferências, pode-se esperar que o participante que escolhe 5% ao aderir ao plano, venha a escolher naquele mesmo momento um percentual maior (7% ou 9%) para os anos seguintes.

Considerando que o participante pode alterar o percentual todo ano, tanto a escolha do percentual apenas do primeiro ano, quanto a escolha (na adesão) dos percentuais dos três primeiros anos, seriam neutras, isto é, não trariam prejuízo nenhum para os participantes.

Outra implicação do estudo é que se pode antecipar um provável comportamento.

Suponha que, no final do ano, seu fundo de pensão queira incentivar os participantes a fazer contribuições adicionais, em função do benefício tributário.

Não é muito inspirador pedir a um participante que está focado em presentes de Natal e festas de fim de ano, que faça contribuições além daquelas que ele já vem fazendo ao plano. Como substituir as gratificações imediatas de fim de ano pelo impulso de poupar mais dinheiro no plano, cuja gratificação será apenas no futuro?

Você pode fazer algumas coisas para aumentar o impulso do participante fazer contribuições adicionais. Existem programas de fidelidade que exigem uma compra para você poder aderir, mas te presenteiam com um brinde quando você se inscreve neles. Por que não pensar num brinde simples e de baixo custo para quem fizer contribuições adicionais? Tipo um vale presente de R$10, lembrando que o importante é a percepção de gratificação imediata e não o valor dela.


Credito de Imagem: JoiasUseZoe


Também pode-se conjugar à estratégia acima, o viés da “aversão a perda”. A ideia de que é muito mais forte a sensação que as pessoas têm quando perdem alguma coisa, do que a satisfação que sentem quando ganham algo.

Poderia se criar a sensação de urgência impondo-se uma data limite para se fazer as contribuições adicionais que dão direito ao brinde, após a qual o brinde não estaria mais disponível. As pessoas tenderiam a agir rapidamente para não perder a oportunidade.

Os fundos de pensão têm vários meios pelos quais podem ajudar seus participantes a ter um futuro melhor, auxiliando-os a fazerem melhores escolhas hoje e facilitando e/ou recompensando suas decisões de longo prazo.

Qual o propósito do seu fundo de pensão?

A responsabilidade em assegurar que um participante tenha um futuro financeiramente mais seguro, não termina no momento em que ele é convencido a aderir a um plano de previdência complementar.

O verdadeiro sucesso depende do que o fundo de pensão vai fazer depois, para informar e influenciar o participante ao longo de sua jornada, fazendo-o poupar o suficiente para ter um futuro tranquilo.

Os fundos de pensão têm responsabilidade moral e social em assegurar isso. O que vai determinar se um fundo de pensão será bem-sucedido é o grau de preocupação que ele tem em fazer a coisa certa, seu grau de humanidade e o quanto ele se importa verdadeiramente com as pessoas.

Grande abraço,

Eder.


Fonte: “Customers Really Don't Want Choice and What to Do About It”, escrito por Colin Shaw | “Affordance”, escrito por Jono Hey.


terça-feira, 14 de novembro de 2023

COMO SABER SE SEU FUNDO DE PENSĀO ESTÁ FAZENDO ALGO PELO FUTURO DOS SEUS FILHOS E NETOS?

 


De Sāo Paulo, SP.


As organizações e seus empregados investem, a cada ano, nos fundos de pensão brasileiros cerca de R$ 36 bilhões, na forma de contribuições. 

As decisões sobre como esse dinheiro é administrado e onde é investido, vão moldar o futuro no qual nossos filhos e netos irão viver.

Curiosamente, as empresas que patrocinam os fundos de pensão se preocupam mais com aspectos como emissão de carbono e mudanças climáticas do que seus próprios fundos de pensão, mas não precisa ser assim. 

Os participantes dos fundos de pensão têm uma grande oportunidade para mudar isso, usando sua influência, como verdadeiros donos do dinheiro, para impulsionar mudanças sistêmicas no setor. 

Os jovens das novas gerações também, procurando um fundo de pensão alinhado com seus propósitos pessoais e sua forte consciência ambiental e social. 

Com cerca de R$ 1,2 trilhões em patrimônio, os fundos de pensão representam uma fronteira crítica para mudar o status quo.

Para ajudar os participantes (atuais e futuros) nessa jornada, vou listar um conjunto de perguntas que podem ser feitas ao seu fundo de pensão aqui no Brasil, para descobrir se ele está fazendo algo de verdade em prol das mudanças climáticas. 

Incentivo você, como participante, a enviar um e-mail ou uma carta para o conselho deliberativo do seu fundo de pensão com essas perguntas e se surpreender ou horrorizar com as respostas.

PERGUNTA No 1

Nosso fundo de pensão se comprometeu publicamente a atingir as metas de “carbono zero”, reduzindo pelo menos à metade as emissões até 2030?

Racional da pergunta: Nenhum fundo de pensão no Brasil, nem o maior deles, estabeleceu metas robustas e com base em ciência para reduzir as emissões de gases do efeito estufa. As estratégias de “carbono zero” devem incluir como meta a redução pela metade das emissões até 2030 e zerar as emissões até 2050.

Resposta que você gostaria: Sim, nosso fundo de pensão tem metas claras para 2030 e 2050 e um plano estratégico para atingi-las.

PERGUNTA No 2

Nosso fundo de pensão publicou as metas de redução das emissões (de carbono) de curto prazo - até 2025? Se sim, quais são essas metas?

Racional da pergunta: Para ser realista, se quisermos estar no caminho certo para atingir a meta de reduzir as emissões pela metade até 2030, temos que ter metas de curto prazo para amenizar a maior parte do impacto até lá. Uma meta de redução das emissões para 2025 é crucial se seu fundo de pensão estiver levando a sério o compromisso e assumindo a responsabilidade pelo progresso em direção à 2030.

Resposta que você gostaria: Sim, nosso fundo de pensão assumiu o compromisso e está entregando as metas de curto prazo para reduzir as emissões.

PERGUNTA No 3

Nos últimos 12 meses, houve redução na intensidade da emissão de carbono do nosso portfolio de investimentos (ex.: tonelada de CO2 / R$ Milhāo investido)? Caso positivo, de quanto foi a redução?

Racional da pergunta: As metas do Acordo de Paris contemplam uma redução das emissões dos gases do efeito estufa de pelo menos 7,6% ao ano entre 2020 e 2030.

Resposta que você gostaria: Houve redução da intensidade das emissões de carbono no nosso portfolio (idealmente, de pelo menos 7%) no ano passado.

PERGUNTA No 4 

Nosso fundo de pensão publicou uma política para parar de financiar a expansão de combustíveis fosseis, alinhado com o roteiro da IEA (Agência Internacional de Energia) que estabelece que “além dos projetos e investimentos já feitos em 2021, não deveríamos aprovar nenhum novo campo de Petróleo e nenhuma nova mina de carvão ou suas expansões?

Racional da pergunta: Apesar de continuarmos a depender dos combustíveis fosseis, na fase de transição para uma economia de baixo carbono não podemos seguir aprovando novos projetos de campos de petróleo ou novas minas de carvão a não ser aqueles que foram assumidos em 2021.

Resposta que você gostaria: Sim, nosso fundo de pensão publicou e está trabalhando para cumprir a politica de “não expansão de combustíveis fosseis”.

PERGUNTA No 5

Nosso fundo de pensão publicou uma política ou assumiu publicamente o compromisso de eliminar o desmatamento em nosso portfolio de investimentos? 

Racional da pergunta: Na COP26 os líderes de mais de 100 países se comprometeram a eliminar ou reverter o desmatamento até 2030. Os fundos de pensão deveriam mapear e divulgar o risco de desmatamento nos seus ativos e assumir o compromisso de eliminá-lo de seu portfolio. 

Resposta que você gostaria: Sim, nosso fundo de pensão se comprometeu em eliminar o risco de desmatamento do nosso portfolio.

PERGUNTA No 6

Que evidência robusta vocês podem me fornecer de que nosso fundo de pensão está influenciando as empresas nas quais investimos? 

Racional da pergunta: Os fundos de pensão precisam ser capazes de mostrar como estão usando o assento nos conselhos das investidas (através de engajamento e votos) e em outros ativos (ex.: fundos de investimentos) para tingir as metas de redução de carbono. O dever fiduciário dos fundos de pensão, aquilo que eles fazem com o dinheiro dos participantes, inclui comunicá-los regulamente sobre o progresso dessas questões.

Resposta que você gostaria: Sim, temos disponível publicamente nossas políticas de “stewardship” descrevendo como nos engajamos com as investidas nessas questões e reportamos regulamente como ela está funcionando.

PERGUNTA No 7

Como nosso fundo de pensão se engaja com os participantes para asseguras que suas visões e opiniões são levadas em consideração?

Racional da pergunta: Ter uma estratégia e uma abordagem claras para engajamento com os participantes é sinal inequívoco de melhores práticas. Os principais fundos de pensão se engajam com seus participantes regulamente através de newslatters, acesso a plataformas que permitem indicar suas preferencias, webinars educacionais e mecanismos de feedback.     

Resposta que você gostaria: Sim, nos comunicamos com nossos participantes frequentemente, de forma inteligível, mantendo-os informados e atualizados sobre nossos compromissos, nossas políticas, nossas ações e o impacto do dinheiro deles no clima, na sustentabilidade e na sociedade.

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Ah Eder isso tudo é ficção, não tem nenhum fundo de pensão no mundo que se preocupe assim com as questões climáticas, de sustentabilidade e sociais. 

Minha resposta: tem sim e não são poucos! 

Para ficar em apenas um exemplo, saca só a simplicidade (apenas 6 páginas) e a profundidade do relatório emitido no mês passado por um fundo de pensão do Reino Unido: TfL Pension Fund – Net Zero Carbon Update, October 2023

Nota: TfL ou Transport for London é a estatal responsável pelo sistema de transporte da cidade de Londres e TfL Pension Fund é o fundo de pensão deles.


Se você costuma ler o relatório anual dos nossos fundos de pensão, depois de ler um relatório como esse acima, fala a verdade, não ficamos com a impressão de que nossos principais fundos de pensão escrevem muito em seus relatórios anuais, mas fazem pouco ou nada sobre o assunto?

Pois é, seus filhos, netos e dependendo da sua idade, você também, vão viver no mundo que seu fundo de pensão está ajudando a construir ... boa sorte para nós!


Grande abraço,

Eder. 


Fonte: “Climate Action Tool”, produzido pela ONG Britânica “Make My Money Matter”.


O VERDADEIRO SINAL DE INTELIGENCIA NĀO É CONHECIMENTO, É IMAGINAÇĀO (ALBERT EINSTEIN)

 



De Sāo Paulo, SP.


Andrew McAfee é um guru da inovação digital que dá aulas no MIT Sloan School. Essa semana ele publicou um novo livro intitulado “The Geek Way” que ele resume da seguinte forma:

The Geek Way é o modo de administrar empresas criadas ao longo do Século XX, principalmente no Vale do Silício, controladas por um bando de “geeks” (aquela garotada esquisita vidrada em tecnologia). De repente, eles se viram diante desse ambiente super turbulento, cheio de incertezas, altamente competitivo e estranho. Eu acho que um monte deles percebeu que os manuais que ensinam a gerenciar os negócios, criados na era industrial, não estavam funcionando nem ajudando a tocar as empresas nesse ambiente. Então, eles fizeram o que os “geeks” fazem, mergulharam fundo no problema que estavam enfrentando, testaram, iteraram e surgiram com um conjunto de práticas que quando eu olho para elas, parecem estranhamente consistentes. São melhores. Quando você olha para a briga corpo-a-corpo entre essas empresas que estão emergindo e as incumbentes da era industrial, em quantas dessas brigas a incumbente ganhou ou até conseguiu se manter firme e continuar existindo?” 


Numa conversa com 40 CFOs organizada pela revista Forbes e patrocinada pela Deloitte, McAfee falou semana passada sobre a invasão sem precedentes no ambiente de trabalho, da IA Generativa:  

É uma loucura como isso é poderoso e está acontecendo rápido.  Essa coisa vai se difundir por toda a economia. Vai ser um divisor entre perdedores e vencedores e vai turbinar pra caramba os vencedores, dando uma dianteira maior do que você e eu estamos esperando

Muitos executivos estão cautelosos na adoção das novas tecnologias de inteligência artificial por causa da preocupação com proteção de dados, apropriação indevida de IPs (controle de computadores) e o problema com as “alucinações” – quando a IA não sabe a resposta e inventa alguma coisa.

Há CEOs preferindo esperar para ver o que vai acontecer e só então, adotar rapidamente as novas soluções ao invés de serem os primeiros a adotá-las, mas McAffe levantou um ponto importante:

Essa é a receita para uma empresa ir decaindo no longo prazo ... cada risco apontado acima é real, mas se você ficar atrasado e demorar a enfrentá-los, então você ficará para trás na curva de experiencia. Os riscos são reais, mas são gerenciáveis”  

Na conversa com os 40 CFOs, mencionada acima, McAfee foi confrontado com o fato de muitas empresas criadas na era industrial estarem se saindo melhor do que se esperava uma década atrás, em relação às novatas digitais.

Citaram como exemplo a rede de hotéis Marriott, que desenvolveu o app Bonvoy para reservas pelos clientes no que McAfee respondeu: “Sua história gloriosa de sucesso é um aplicativo de reservas?” 

“Que tal a Daimler?”, perguntou outro CFO.

McAffee contra-argumentou: “Você já olhou o valor de mercado dos fabricantes de automóveis incumbentes comparado ao da Tesla?” 

Wallmart? (tenta, mais um CFO)

McAfee: “Apenas continuar a existir é colocar a barra dessa disputa muito baixo”.

JPMorgan Chase? (provoca outro CFO).

McAfee: “É um setor (mercado financeiro) extremamente regulado”.

Chegou num ponto que todos pararam de tentar achar exemplos de empresas da era industrial superando as da economia digital.

McAfee poderia estar usando argumentos que constam no livro para alavancar a venda, mas o episodio serve de alerta para as empresas e organizações criadas na era industrial – os fundos de pensão estão nesse mesmo barco.

Se demorarem muito para abraçar as novas tecnologias, se ficarem patinando para surgirem com inovações, se acharem que uma guinada não é urgente, sei não ... 

Grande abraço,

Eder.


Fonte: “Incumbentes vs Startups”, escrito por Alan Murray


domingo, 12 de novembro de 2023

NĀO FOMOS FEITOS PARA ENVELHECER: O DESAFIO MORAL DE USAR IA PARA AJUDAR NAS DECISŌES DE VIDA E MORTE

 


De Sāo Paulo, SP.


Você já parou para se perguntar por que nosso corpo se deteriora tanto quando envelhecemos? Em que ponto nosso processo evolutivo falhou tão fragorosamente? 

A resposta é que nós evoluímos bem, mas muito rápido. 

Nosso corpo, assim como o de qualquer outro animal, foi feito para atingir o pico o mais rápido possível, reproduzir, viver o suficiente para ver nossa prole atingir a independência e morrer. 

Era assim que nossos ancestrais viviam há centenas de milhares de anos. Mas, então, a espécie humana fez algo que nenhuma outra espécie havia feito, deu um salto evolutivo gigantesco. 

Deixamos as cavernas, pousamos na lua, mapeamos nosso genoma e reviramos as bases de construção da realidade. No meio disso tudo, as áreas de saúde e medicina cresceram como nenhuma outra.

Mal nos damos conta de que a maioria das pessoas se livra de uma infecção bacteriana hoje, que quase certamente teria sido fatal para nossos encentrais, com um simples comprimido.

O advento da civilização certamente elevou nosso padrão de vida para um nível completamente diferenciado e com ele, inevitavelmente, veio a extensão da vida.

Poucos, provavelmente nenhum, de nossos antepassados distantes conseguia viver até a idade de 80, 90, 100 anos. A vida selvagem simplesmente não permitia atingirmos essas idades. O mundo era um lugar muito perigoso e bruto.

Ninguém com dor nas costas teria boa chance de sobrevier a um encontro com um tigre dente-de-sabre. Hoje em dia, o risco seria do tigre. 

O envelhecimento nunca foi concebido para ser uma característica do ser humano, muito menos para ser bonito. Nosso corpo é desprovido de meios para conservar perfeitamente a constante renovação celular. Lenta e inexoravelmente nosso organismo se desvia da programação impressa na composição genética.


Imagem gerada por Keg Umian usando inteligencia artificial


Os telômeros se partem, os erros durante a mitose vão se acumulando, da mesma forma que se acumulam as toxinas dentro das células. Na medida em que o tempo passa, o estresse oxidativo vai causando mais e mais defeitos em nosso interior e nossos ossos vão se tornando mais fracos a cada dia.

O objetivo da evolução nunca foi aperfeiçoar o envelhecimento. O envelhecimento é, na verdade, a antítese da evolução, um lembrete de que a natureza não favorece o passar do tempo para ninguém. 

Nós é que nos agarramos tenazmente ao envelhecimento como sendo a única oportunidade para continuar caminhando na face da Terra.

Portanto, toda vez que você sentir dor nas costas por não ter mais de 18 anos, lembre-se que você já está vivendo na prorrogação. A vida depois dos vinte e poucos anos costumava ser tão sem sentido quanto o talento para ajudar fisicamente a caçar mamutes. 

Fomos concebidos para viver, atingir o ápice e morrer rapidamente. Era assim no mundo pré-histórico, continua assim sendo no mundo atual e não há previsão de que isso vá mudar no horizonte de tempo futuro que conseguimos enxergar

Por isso, em Roterdã - Holanda, Philip Nitschke conduz os testes finais do “Sarco”, antes de enviar a máquina para a Suíça, onde o primeiro usuário a espera. 

Sarco, protótipo de um dispositivo para “suicídio assistido”, é uma capsula do tamanho de um sarcófago - no melhor estilo Star Treck - produzida com uma impressora 3D pela “Exit International”, uma organização sem fins lucrativos.


Sarco, produzido pela Exit International


Nitschke quer “desmedicalizar a morte” através da tecnologia. 

Selada dentro da máquina, a pessoa que decidiu morrer precisa responder três perguntas: Quem é você? Onde você está? Você sabe o que vai acontecer quando você apertar aquele botão? 

Eis o que vai acontecer: a cápsula será preenchida com nitrogênio gasoso, o ocupante desmaiará em menos de um minuto e morrerá por asfixia, sem sentir nada, em menos de cinco. 

Uma gravação dessa curta entrevista final será, então, entregue para as autoridades Suíças. Nitschke não pediu autorização do governo, mas a Suíça faz parte de um punhado de países onde o suicídio assistido é legalizado. É permitido, desde que a pessoa que deseja morrer realize o ato final por conta própria.

Nitschke quer tornar o suicídio assistido o mais desassistido possível, dando autonomia, portanto dignidade nos momentos finais, à pessoa que decidiu se matar. “Você não precisa de um médico para morrer”, diz ele.

Por usar nitrogênio, um gás amplamente disponível, ao invés dos barbitúricos tipicamente usados em eutanásias clínicas, o Sarco não requer um médico para injetar uma injeção ou emitir uma receita da droga letal.  

Pelo menos essa é a ideia. Porém, Nitschke não vai conseguir se livrar totalmente do “establishment” médico. A Suíça exige que os candidatos a eutanásia demonstrem capacidade mental, o que geralmente é atestado por um psiquiatra. 

“Ainda há a crença de que se uma pessoa está querendo morrer, ela tem algum tipo de doença mental não diagnosticada, que não é racional alguém querer morrer”, diz Nitschke.

Por isso ele está trabalhando num algoritmo que permitirá que a pessoa faça uma espécie de autoavaliação psiquiátrica em um computador. Em teoria, se a pessoa passar nesse teste online o programa fornecerá um código de quatro dígitos para ativar o Sarco. 

Mas a coisa não é tão simples assim. A inteligência artificial (IA) vem sendo usada para fazer triagem e tratar pacientes em diversos campos da medicina. Na medida em que os algoritmos se tornam uma parte importante da saúde, temos que assegurar que seu papel seja limitado às decisões médicas, não às morais.

A pressa para automatizar levanta questões difíceis de responder. Em que tipo de decisão seria apropriado usar um algoritmo? Como esses algoritmos deveriam ser programados? Quem tem a palavra final sobre como eles devem funcionar?

Em 2021 existiam nos EUA 43 estudos sendo conduzidos por pesquisadores com base em modelos de machine-learning, tentando prever se um paciente seria readmitido ou morreria depois de sair do hospital. Nenhum deles era preciso o bastante para uso clínico. 

Mesmo quando a IA parece ser precisa, acadêmicos e reguladores clamam por cuidado. Os dados usados pelos algoritmos e a maneira que eles usam esses dados, são produzidos por humanos, repletos de tendenciosidades. Dados de saúde, por exemplo, são predominantemente de pessoas brancas do sexo masculino, o que distorce seu poder preditivo.

Os modelos oferecem apenas um verniz de objetividade, podendo levar as pessoas a transferirem a responsabilidade pelas decisões éticas, cofiando na máquina ao invés de questionarem seus resultados.  

No ano 2000 foi desenvolvido nos EUA um algoritmo para identificar destinatários da doação de rins. Algumas pessoas ficaram insatisfeitas com a forma que o algoritmo foi desenhado. Em 2007, Clive Grawe, candidato a receber um transplante de rim em Los Angeles, disse para um auditório repleto de especialistas médicos que o algoritmo deles era tendencioso e desfavorecia pessoas mais velhas como ele.



Photograph: MatejMo/Getty Images/iStockphoto


O algoritmo havia sido desenhado para destinar os rins doados de maneira a maximizar o número de anos de vida da pessoa salva. Isso favorecia pessoas jovens, saudáveis e brancas, argumentaram Grawe e outros pacientes.

Distorções como essa são comuns em algoritmos. Menos comum é os criadores desses algoritmos reconhecerem que existe problema. Após anos analisando reclamações como as de Grawe, os programadores encontraram uma forma menos tendenciosa de maximizar os anos de vida salva – consideraram, entre outras coisas além da idade, o estado geral de saúde do destinatário dos rins. 

Uma mudança chave no algoritmo foi que a idade dos doadores, a maioria jovens que morreram cedo, não acarretaria a seleção de destinatários na mesma faixa etária. Alguns rins poderiam, agora, ser destinados a pessoas mais velhas, se elas fossem saudáveis. 

O algoritmo poderia, ainda assim, tomar decisões que não agradam a todos, com as quais nem todo mundo concorda, mas o desenho ficou mais difícil de criticar. 

Voltando a Nitschke, que também vem fazendo perguntas difíceis.

Um ex-médico que tacou fogo em seu diploma após uma disputa legal que durou anos, contra o Conselho de Medicina da Australia, Nitschke foi a primeira pessoa a ministrar legalmente uma injeção letal voluntária em outro ser humano. 

Nos nove meses, entre julho/1996 e março/1997, durante os quais uma lei legalizou a eutanásia no Território do Norte da Australia – revogada pelo governo federal – Nitschke ajudou quatro de seus pacientes a se matarem. 

O primeiro, Bob Dent, um carpinteiro de 66 anos sofrendo de câncer de próstata por cinco anos, explicou sua decisão numa carta: “Se eu tivesse mantido um animal de estimação na mesma condição que eu estou, eu teria sido processado”.

Nitschke queria ajudar seus pacientes a tomarem a decisão, mas se sentia desconfortável tendo que aplicar a injeção letal, então fez uma máquina para tomar seu lugar: “Eu não queria sentar lá e dar a injeção”, disse ele. “Se você quiser, você aperta o botão”.

Agora Nitschke enxerga como próximo passo um algoritmo que faça a avaliação psiquiátrica, mas há grande chance dessa esperança ser frustrada. Criar um programa que possa avaliar a saúde mental de uma pessoa é um problema sem solução – e um bem controverso. 

Como o próprio Nirschke fala, os médicos não concordam sobre o que significa uma pessoa mentalmente sadia escolher morrer. “Você vai obter uma dúzia de respostas diferentes de uma dúzia de psiquiatras”, diz ele. Ou seja, não existe uma base de concordância sobre a qual até mesmo um algoritmo possa ser construído.

Mas essa não é a conclusão aqui. Nitschke está perguntando o que conta como decisão médica, o que conta como decisão ética e quem escolhe. Quando os pacientes têm mais ou menos a mesma chance de sobrevier com um transplante de rim, quem vive e quem morre passa a não ser mais uma questão técnica.

A sociedade deveria ser responsável por tais decisões, ainda assim, o processo pode ser codificado num algoritmo, se for feito de forma inclusiva e transparente. 

Para Nitschke, o suicídio assistido também é uma decisão ética, uma que os indivíduos devem fazer por si mesmos. O Sarco e o algoritmo que ele imagina, apenas protegeriam a capacidade das pessoas poderem tomar a decisão. 

A IA se tornará cada vez mais útil, talvez essencial, na medida em que a longevidade estica e a população envelhece. No entanto, o verdadeiro desafio será lidarmos com o horror e a arbitrariedade de muitas decisões que a IA será chamada a tomar e isso, é por nossa conta. 

Os fundos de pensão e os planos de assistência médica foram concebidos para ajudar a equacionar os aspectos financeiro e de saúde das pessoas. Mas na medida em que as pessoas envelhecem, nem a medicina, nem o dinheiro, são capazes de solucionar o que acontece depois.

Será que está na hora de começarmos a discutir o aspecto ético e moral da decisão individual de viver ou morrer no fim da vida?  


Grande abraço,

Eder,


Fonte: “We Were Never Meant to Age”, escrito por Keg Umian | “The messy morality of letting AI make life-and-death decisions”, escrito por Will Douglas Heaven.


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