segunda-feira, 5 de agosto de 2019
Uma guerra assimétrica: Eles sabem como você vai se comportar. Porque não usam isso para fazer você poupar?
Sao Paulo, SP.
Durante décadas ela ficou meio esquecida. Restrita aos círculos sociais e familiares, era abordada com ênfase apenas nos meios religioso e profissional.
Para chamar a atenção e virar assunto em nível nacional, a falta dela tinha que ser algo muito, muito severo.
Não mais! O medo de se perder de vez a privacidade, com o avanço da tecnologia, colocou-a no centro das atenções.
Se por um lado questões sobre ética aparecem frequentemente nos tweets e posts publicados nas mídias sociais, por outro, raramente isso se deve às próprias plataformas que são usadas como meio para transmitir as narrativas.
Esses quadros-de-aviso modernos oferecem uma oportunidade para expressão de todo tipo de personalidade. Servem de cobertura para os socialmente desajustados e através delas podemos soltar nossos demônios (frequentemente) sem freios, despreocupados com quais olhos e almas lerão nossos desabafos. Um campo fértil para discursos de ódio, que parecem não ter fim. Está até ficando cansativo assistir neuroses, inseguranças e mi-mi-mi políticos jogados diariamente nas telas, mas isso faz parte da Vida 1.0 e o problema não esta propriamente aí.
A questão em debate são os algoritmos tóxicos por trás das mídias sociais. Esses algoritmos são criados, intencionalmente, para “fisgar” as pessoas e as manter permanentemente conectadas. Um funcionamento que faz parte do modelo de negócios dessas plataformas.
“Fico triste por que isso não esta acontecendo por acidente, mas por desenho, o modelo de negócios é manter as pessoas engajadas, em outras palavras, essa audiência é sobre tecnologia de persuasão e persuasão tem a ver com uma invisível assimetria de poder", disse Tristan Harris no dia 25 de junho passado, durante uma sessão com empresas de tecnologia conduzida pelo Senador John Thune no congresso americano, para discutir o uso dos algoritmos e como estes afetam aquilo que as pessoas veem online.
Harris foi o Especialista em Ética do Google, integrou a equipe responsável pelo desenho desses algoritmos e apos ter deixado a gigante de tecnologia, esta ajudando a trazer a tona essa horripilante realidade.
A corrida para prever comportamentos
Harris usou a magica, que aprendeu quando criança, para explicar o que esta acontecendo. As ilusões, disse ele, só funcionam quando você não esta prestando muita atenção, do contrario os truques seriam rapidamente percebidos. As plataformas tecnológicas usam uma assimetria semelhante e as pessoas não estão percebendo o que esta acontecendo.
As empresas de mídia social precisam, cada vez mais, atrair sua atenção para gerar lucros. Na corrida por atenção, essas empresas estão se tornando mais e mais agressivas.
Primeiro foi o “like” e “dislike” que transformaram os consumidores em participantes ativos, fazendo-os ter a sensação de que controlam a plataforma. De certa forma até controlam, porque é o próprio usuário que alimenta o algoritmo, que vai aprendendo seus hábitos e passando a ser capaz de prever seu comportamento.
A grande preocupação, então, passou a ser com a IA – Inteligência Artificial que pode levar essa questão para um outro patamar.
A IA já mostrou ser capaz de prever nosso comportamento melhor do que nós mesmos. Consegue adivinhar nossa inclinação politica com 80 por cento de precisão, descobrir se você é homossexual antes mesmo que você saiba e começar a sugerir carrinhos de nenê muito tempo antes que seu teste de gravidez resulte positivo.
Previsão é parte integrante da nossa biologia. Os morcegos precisam prever onde se encontram os obstáculos para poderem se desviar, em um ambiente noturno onde a visão não serve para muita coisa. O ser humano — assim como todas as formas de vida biológica — também encontra seu caminho no meio ambiente prevendo e se antecipando aos perigos e recompensas.
O problema é que desde a Revolução Industrial, criamos ambientes relativamente seguros para habitar. Por não precisarmos mais prestar atenção a arbustos que se mexem e predadores a espreita, transferimos toda a nossa atenção para os celulares que carregamos constantemente em nossas mãos.
Nosso senso de alerta diminuiu, mas em plena era da tecnologia, permanecemos animais Paleolíticos, com forte necessidade de nos reunirmos em tribos.
Na briga por atenção, as empresas exploram nossa necessidade de validação social e usam nossos instintos básicos em seu proveito. Pegam carona em um sistema de alerta enfraquecido, o que torna ainda mais fácil influenciar nosso comportamento.
Em um tempo em que nossa atenção não está mais voltada para sobreviver, mas sim focada nas mídias sociais, emerge uma forma de narcisismo em massa: tudo é sobre o “eu”. O mundo encolhe e o ego se expande.
Os problemas com os algoritmos nem são tão difíceis de detectar. No Youtube, por exemplo, 70% do tempo que as pessoas passam assistindo vídeos se deve às recomendações feitas pela plataforma.
Vamos nos acostumando ao que vemos e passamos a querer cada vez mais. Segundo escreveu o jornalista Eric Schlosser sobre a evolução da pornografia: a nudez parcial se torna light e aquilo que antes era considerado escandaloso é incorporado aos costumes, vamos nos acostumando, porque queremos ver mais.
O Youtube cria uma espiral movida a dopamina, confrontando preferencias politicas de esquerda e de direita que se tornam uma jornada. Uma vez validada, você fará qualquer coisa para manter aquela sensação viva.
Os algoritmos, atrás de uma tela, influenciam o mundo que você carrega na sua cabeça e eles não tem nenhum senso de altruísmo ou compaixão.
Como um punhado de empresas de tecnologia controlam bilhões de mentes todos os dias
Aquele sentimento de ofensa, causado por validação, vale ouro para as empresas de tecnologia. Conforme dito pelo Tristan Harris, a corrida por prever nossos comportamento ocorre a cada click.
"O Facebook tem um negócio chamado previsão de lealdade, que realmente consegue prever e informar um anunciante quando você esta prestes a se tornar desleal aquela marca. Se você é uma mãe e usa a fralda Pampers, eles conseguem dizer para a Pampers: 'Ei, esse usuário vai se tornar desleal à vocês'. Em outras palavras, eles conseguem antecipar coisas sobre nosso comportamento que nem nós mesmos sabemos".
Não é só ele que esta preocupado com essa corrida. Arthur Holland Michel que escreve sobre tecnologia, abordou recentemente uma tendência tao preocupante, senão ainda pior, protagonizada pela Amazon que fica na encruzilhada entre previsão e privacidade.
"A Amazon patenteou um sistema que analisa as cenas de vídeo de propriedades privadas, coletadas pelos drones que usam para fazer suas entregas. Essas imagens alimentam, então, algoritmos que recomendam produtos para você. Você compra uma capa para seu Ipad e vem um drone fazer a entrega. Enquanto está fazendo a entrega o sistema de visão do drone percebe que as arvores do seu quintal estão com as folhas amareladas. Isso alimenta o sistema e então, você recebe no celular ou e-mail a recomendação de um fertilizante para folhas"
Tristan Harris comparou essa pratica das empresas de tecnologia com um padre vendendo penitencias para dispensar suas confissões. A diferença é que as plataformas usadas pelas mídias sociais tem bilhões de penitencias para te vender e uma vez que elas aprendem o que você esta confessando, fica fácil prever qual será sua próxima confissão. Com base nessa informação, eles podem te vender as penitencias antes mesmo de você ter pecado.
Nossa identidade como indivíduos sempre foi uma questão filosófica, mas uma coisa é certa: ninguém esta imune a ser influenciado e a ética não foi embutida nos algoritmos das mídias sociais, dos quais dependemos agora.
Se não a incluirmos conscientemente — aqui é onde o governo precisa entrar, porque que a ideia de auto-regulação das empresas não passa de piada — qualquer nível de poder assimétrico passará a ser possível. Continuaremos espantados com aquelas pombinhas brancas saindo do chapéu daquele homem sorridente (o magico), parecendo que surgiram do nada.
Seria tão bom se usassem para o bem todo esse conhecimento de psicologia social e neurociência! Poderiam ajudar as pessoas a pouparem para a aposentadoria, sem nem elas saberem que estão poupando. Usar o comportamento humano em beneficio das pessoas seria o máximo!
Grande abraço,
Eder.
Fonte: Adaptado do artigo “The race to predict our behavior: Tristan Harris testifies before Congress”, escrito por Derek Beres.
Marcadores:
#Etica; #MidiasSociais; #AlgoritmosdePersuassao;
segunda-feira, 29 de julho de 2019
Vai transmitir uma ideia e quer que as pessoas memorizem? Use um truque psicológico. Ajuda até a divulgar plano de previdência.
De São Paulo, SP.
Nossa memoria é engraçada.
Sabe a festa junina que a empresa organizou no mês passado? Lembramos da distribuição de pipoca, rapadura e quentão na entrada. Também lembramos dos brindes caipiras entregues na saída. O que aconteceu no meio, porém, fica meio embolado na lembrança.
Nossa memoria, geralmente, funciona assim mesmo.
Chamamos isso em inglês de “Serial Positioning Effect”, ou Efeito do Posicionamento em Serie, em tradução direta.
É muito simples de entender: qualquer que seja a situação experimentada, o que as pessoas mais se recordam é o que acontece no começo e o que ocorre no fim.
Esse funcionamento do cérebro humano é muito bem documentado e foi descrito pela primeira vez em 1962 pelo Psicólogo Norte-Americano Bennet Bronson Murdock.
Murdock fez um teste em que pedia às pessoas para memorizarem listas que continham de 10 a 40 palavras. O padrão dos resultados foi inconfundível.
Por exemplo, nas listas com 20 palavras, a primeira palavra era lembrada com 50% de precisão enquanto a vigésima palavra era rememorada com 75% de acerto.
Porem, as percentagens de acerto decresciam rapidamente. Nenhuma palavra entre a 4ª e a 16ª posições chegou perto da marca de 25% de acertos.
Murdock atribuiu esse resultado aos nossos dois tipos de memória: memória de curto-prazo e a memória de longo-prazo.
As palavras no inicio da lista ficam guardadas na “caixinha” da memória de longo prazo, porque prestamos mais atenção a elas, temos tempo de digeri-las e as marcamos como significativas.
As palavras no final da lista se beneficiam do fato de terem sido lidas recentemente. Não temos que ficar buscando por elas em nossa mente porque ainda estão frescas em nossa memoria de curto-prazo.
Acontece que as memórias de curto-prazo mais “recentes” tendem a ir empurrando as memorias de curto-prazo mais “antigas” de modo que as palavras no meio da lista vão ficando para trás.
Ou seja, dependendo da posição da palavra na serie (lista) de palavras, ela é mais facilmente guardada na memória. Por isso Murdock chamou o fenômeno de Efeito do Posicionamento em Serie.
Usando a Memória na Divulgação de Planos de Previdência
Como usar esse conhecimento?
Digamos que você vai apresentar o novo plano de previdência da empresa para os empregados e precisa assegurar que eles retenham os pontos principais. Você quer que eles consigam se lembrar do funcionamento do plano mesmo depois de passados dias e semanas.
Para prender a atenção da plateia, você vai ficar tentado a abrir sua apresentação de forma bem humorada, contando algum caso pitoresco ou historia engraçada com alguma relação ao assunto, ainda que essa relação seja apenas marginal.
Isso pode funcionar bem como estratégia para ganhar a atenção da audiência, mas vai ter o efeito oposto ao que você quer no que tange a retenção da mensagem que você está transmitindo.
Sua audiência vai lembrar da historia engraçada – mas não vai lembrar o que isso tem a ver com aquilo que você esta tentando explicar para ela, que é o funcionamento do plano de previdência.
Seria muito melhor você começar ressaltando os pontos chave que você quer transmitir, antes de apresentar argumentos de apoio e historinhas divertidas.
Quando chegar no final da apresentação, você deve fazer um novo resumo dos pontos chave que está transmitindo.
Assim, estará usando o Efeito do Posicionamento em Serie a seu favor.
Gostou? A boa noticia é que você pode usar essa estratégia inclusive na sua próxima entrevista de emprego.
Grande abraço,
Eder.
Fonte: Adaptado do artigo “To Get Your Point Across, Use the Serial Positioning Effect“, escrito por Reuben Westmaas.
Credito de Imagem: www.fatosdesconhecidos.com.br
domingo, 21 de julho de 2019
O quase acidente do pouso na Lua e a reação humana que se sobrepôs à maquina: assuma o comando da sua aposentadoria!
De São Paulo, SP.
A sucessão de eventos extraordinários, capazes de provocar admiração e surpresa ate hoje em função de sua grandiosidade, que culminou com o primeiro pouso do homem na Lua em 20 de julho de 1969, completou 50 anos ontem.
O que muita gente talvez não saiba, é que não foi uma jornada fácil e no caminho final do pouso na Lua houve uma sequencia de eventos que por pouco não terminou em desastre.
A certa altura na trajetória de descida, os astronautas foram surpreendidos por um bug nos computadores. Em um momento em que os astronautas precisavam decidir se continuavam ou abortavam a decida, soou o alarme 1202 e ninguém sabia o que era.
Alguns momentos de tensão se seguiram, até descobrirem que o erro 1202 era uma sobrecarga de dados no computador, que havia sido projetado para reiniciar e restabelecer a memoria caso isso acontecesse. Ou seja, não era necessário abortar a missão por causa daquele alarme.
Resolvido o problema, os astronautas enfrentaram um desafio ainda maior bem rente a superfície, quase chegando no local planejado para a descida.
O único registro visual do histórico pouso da Apollo 11 na Lua, foi feito por uma filmadora de 16mm, com compressão de vídeo de 06 quadros por segundo.
Em termos de comparação, para você ter uma ideia, o Iphone X filma hoje com uma compressão de 52 quadros por segundo. Essa resolução de imagem produz um vídeo muito mais nítido em nossos dias do que os daquela época.
A câmara foi montada na janela do lado direito do modulo de pouso lunar, apelidado de Eagle (que significa águia, em Inglês), onde estava o astronauta Buzz Aldrin. O famoso vídeo do pouso na Lua, que todos assistiram, foi filmado por essa câmara e mostrava o visual que Aldrin estava enxergando.
Devido ao tamanho reduzido das janelas do Eagle e ao angulo em que a filmadora foi montada, não foi possível filmar o que viu Neil Armstrong, que estava pilotando o modulo, ao fazer a aproximação para tentar pousar no solo lunar.
O modulo estava em piloto automático quando Armstrong, um experiente piloto de testes da força aérea Americana, mudou repentinamente o comando para controle manual.
O que o levou a fazer essa manobra brusca, não foi filmado na época e a razão para isso ter acontecido só agora pôde ser vista.
Reconstrução visual do pouso na Lua
Quando o modulo lunar pousou, restavam apenas 30 segundos de combustível em seus tanques, consequência da manobra manual que Armstrong precisou fazer. Durante o procedimento de descida e aproximação para o pouso, Armstrong notou que havia um grande obstáculo, que impediria um pouso seguro. Ele teve que pensar rápido.
A equipe do LROC – Lunar Reconnaissance Orbiter Cameras reconstruiu imagens dos últimos três minutos da trajetória de pouso do Eagle.
Nota: Em operação desde 2009, em órbita da Lua, a LROC é um conjunto de três câmeras da alta resolução, acopladas na sonda LRO – Lunar Reconnaissance Orbiter, da NASA, que capturam fotos da superfície lunar para mapear sua topografia.
Os cientistas usaram dados de latitude, longitude, altitude, velocidade e orientação que ficaram gravados nos controles da missão. Usaram, também, pontos de referencia e informações de altitude, do gravador de vozes, que eram informadas a todo instante por Buzz Aldrin para Huston, antes do pouso.
Partindo desses dados sobre a trajetória do modulo, da topografia e imagens de alta resolução fornecidos pelas câmeras do LROC, os cientistas simularam a cena que Armstrong viu naquele minutos finais em que ele guiava o modulo lunar para o pouso na superfície da Lua.
O resultado ficou extraordinário, saca só.
Momentos quase fatais
O obstáculo, que poderia ter sido fatal para os astronautas e teria transformado o pouso na Lua em uma tragédia, aparece de forma clara no vídeo.
Armstrong logo nota, no começo do vídeo, que o ponto de pouso estava situado numa região pedregosa e inclinada, no flanco nordeste de uma cratera batizada de West Crater, que tem 190 metros de diâmetro.
Então, ele assume o controle manual da nave e começa a voar horizontalmente em busca de um local mais seguro para pousar. Armstrong estava muito concentrado e ocupado demais para explicar a manobra para o centro de controle na Terra.
No vídeo você consegue perceber ele guiando cuidadosamente o modulo, passando entre as crateras e outros obstáculos no solo, procurando uma área segura para descer.
“Claro que ele conseguia se inclinar para a frente e para trás e virar a cabeça para os lados para ter uma visão melhor do que a imagem simples e estática apresentada nessa reconstrução em vídeo", disse Mark Robinson, que liderou a equipe de trabalho do LROC. "No entanto, nossa simulação em vídeo permite reviver aqueles momentos dramáticos", completa ele.
A última cratera que se vê passando por baixo do modulo é chamada de Little West Crater, foi essa cratera que Armstrong visitou rapidamente durante sua caminhada de duas horas pela superfície lunar.
No vídeo reconstruído você nota uma coisa estranha surgindo no lado esquerdo da imagem fotografada pelo LROC: trata-se da parte do modulo que ficou na Lua. Claro que Armstrong não viu isso na cena real.
Naquele dia ele visualizou apenas a superfície estéril da Lua e foi ali que ele pousou. A razão de vermos a parte do modulo que ficou por lá é que se trata de um vídeo reconstruído com base em imagens tiradas apos o pouso da Apollo 11 na Lua.
Lição de previdência
Assim como Armstrong, você precisa assumir o controle manual da sua preparação para a aposentadoria. Não adiante ligar o piloto automático e achar que tudo vai dar cetro sozinho, ha imprevistos pelo caminho.
Se Armstrong não tivesse assumido o controle manual do modulo de pouso, a historia provavelmente teria se desenrolado de forma diferente.
Faça um plano de previdência complementar e pouse suavemente quando sua aposentadoria chegar. Ou você vai arriscar posar em local desconhecido?
Grande abraço,
Eder.
Adaptado do artigo “ “, escrito por Elizabeth Howell
Credito de imagens: NASA
domingo, 14 de julho de 2019
Apollo 10 – A incrível historia do modulo de pouso que vaga no espaço há 50 anos e uma lição de previdência
De Sao Paulo SP.
Era por volta de onze horas da noite, do dia 20 de julho de 1969, quando eu e meus irmãos fomos subitamente acordados. Eu tinha apenas 7 anos de idade, mas nunca mais esquecerei daquela noite fria de inverno.
Meu pai e minha mãe estavam eufóricos e pareciam muito apressados. Morávamos no C.T.A. – Centro Tecnológico Aeroespacial, uma grande base da Aeronáutica em São Jose dos Campos.
Meio bêbados de sono e sem entender bem o que estava acontecendo, fomos levados para a frente da TV, que transmitia em preto e branco (sim, não havia televisão a cores naquela época) imagens de um episódio que mudou para sempre a historia da humanidade.
Nenhuma geração que veio depois da minha jamais presenciou um passo tão grandioso para a exploração do espaço quanto o pouso da Apollo 11 e o primeiro passo do homem na lua.
Mas a Apollo 11 foi precedida de uma serie de missões que lançaram, de forma precursora, os alicerces que permitiram o pouso bem sucedido na lua.
Uma delas foi a Apollo 10, a quarta missão tripulada do programa Apollo. A Apollo 10 foi uma missão quase completa e incluiu tudo que a Apollo 11 tinha, exceto pelo efetivo pouso na lua.
Foi como um ensaio de casamento, tendo sido a segunda missão Apollo a orbitar a lua. Tinha até um Módulo de Pouso Lunar, que voou a meros 15 km de altitude da superfície da Lua.
Aquele modulo, porem, nunca chegou a pousar e depois que se reconectou ao módulo de comando e a tripulação desembarcou, foi enviado para a órbita do Sol. Até hoje, ninguém sabia aonde ele estava.
O Modulo Lunar da Apollo 10 tinha um apelido carinhoso. Era chamado de "Snoopy", um personagem da serie em quadrinhos "Peanuts", criada nos anos 50 pelo cartunista americano Charles Monroe Schulz.
A NASA imaginou que dar nomes ao modulo de comando e ao modulo lunar usando personagens das famosas e populares historias infantis, ajudaria a atrair o interesse das crianças pela missão (o modulo de comado era chamado de "Charlie Brown").
O Snoopy foi enviado para ficar orbitando o Sol e sem um objetivo específico e nenhuma preocupação em rastreá-lo, foi esquecido.
Então, em 2011, um grupo de astrônomos amadores do Reino Unido começou a procurar pelo Snoopy. Naquela altura, um site de notícias não-comerciais sobre astronomia, fundado em 1999, chamado Universe Today, cobriu os esforços do astrônomo amador Nick Howes e sua equipe, na busca pelo Snoopy.
O desafio de Howes era gigantesco. Diante de dados escassos sobre o voo orbital da Apollo 10, ele tinha que vasculhar uma área enorme. “Estimamos um arco de busca com amplitude de cerca de 135 milhões de quilômetros e isso é um espaço muito grande para procurar” disse ele em 2011 para o Universe Today.
Agora, passados oito anos, Howes acha que finalmente encontrou o Snoopy. Ou está pelo menos 98% certo de que encontrou.
Numa entrevista recente para a revista Newsweek, Howes disse: “Temos quase certeza de que localizamos o modulo. A orbita heliocêntrica parece correta, o objeto é artificial e é do tamanho certo”.
Se Snoopy foi realmente encontrado, eles conseguiram acertar uma chance em 235 milhões que é a probabilidade de faze-lo. Realmente impressionante!
Porém, eles ainda não tem certeza absoluta. A confirmação vai requerer observações mais detalhadas e nesse momento o Snoopy está muito longe para isso. Uma agencia governamental vai ter que dar uma olhada melhor para confirmar se o objeto é mesmo o Snoopy.
Ou então alguém como Elon Musk, que tem os meios para isso, poderia querer recupera-lo. Nunca se sabe né! Por outro lado, se Elon Musk fosse seguir toda sugestão bem intencionada que fazem para ele, não faria outra coisa na vida.
Resta saber se o Snoopy foi ou não encontrado e se foi, terá sido algo intrigante. Não apenas por causa da pequena probabilidade disso ter acontecido, mas por toda a historia envolvida.
Uma lição para previdência
O aniversario de 50 aos do pouso da Apollo 11 na Lua é uma boa oportunidade para olharmos além daquilo que foi a maior aventura do homem no espaço, até agora.
Precisamos ser justos e reconhecer o enorme esforço que a precedeu. O 50o aniversario da Apollo 10 ocorreu, desapercebido, no dia 22 de maio passado. Foi nessa mesma data, em 1969, que o Snoopy fez sua maior aproximação da superfície lunar.
Dá para imaginar a expressão no rosto da tripulação. Com os rostos colados na escotilha, os olhos dos astronautas Eugene Cernan e Thomas Stafford devem ter brilhado ao passarem tão perto da superfície da Lua, mas não pousarem lá.
Numa entrevista posterior, Eugene Cernan brincou que a NASA, de propósito, não colocou combustível suficiente no Snoopy para afastar a tentação deles decidirem pousar.
Varias lições de previdência podemos tirar desse episodio. A missão da Apollo 10 e de tantas outras que a precederam, foram uma grande preparação para o clímax do pouso em solo lunar. Ou seja, você precisa se preparar para o dia da sua aposentadoria. Poupe, poupe, poupe, essa é a preparação, essa é a missão precursora.
Não fique tentado a gastar o dinheiro quando já tiver acumulado um montante razoável e ainda faltar tempo para você se aposentar. Evite a tentação deixando o dinheiro “preso” em um plano de previdência complementar, limite seus gastos, assim como o “combustível” no Snoopy.
Howes, o astrônomo amador, é realista sobre a chance de se recuperar o Snoopy e traze-lo de volta à terra. Seria um uso fútil de recursos públicos, o que não impede um Alon Musk da vida querer fazer isso com dinheiro próprio.
Terão se passado cerca de 18 anos ate a próxima aproximação do Snoopy com a orbita da Terra. Muita coisa pode acontecer ao longo desses 18 anos. Quem sabe o Snoopy poderá finalmente voltar para casa?
O segundo passo do homem na lua
Existem atualmente dois projetos em andamento para levar o homem de volta à Lua. O projeto Americano foi batizado de Artemis em homenagem a deusa grega, filha de Zeus e Leto e irmã gêmea de Apolo. A meta dos gringos, considerada ambiciosa, é voltar a pisar na Lua em 2024.
Há também o projeto Chinês nomeado de Chang'e (em Chinês: 嫦娥) em referencia a deusa chinesa da Lua que mudou de nome para evitar conflito com o Imperador Wen de Han. Os Chineses, mais realistas, planejam pousar na Lua por volta de 2035.
Se tudo correr bem e Deus permitir, em 2024 vou acordar meus pais em uma noite fria de inverno e sussurrar no ouvido deles: pai, ... mãe, o homem esta pousando novamente na Lua, vem ver na televisão, vocês nunca viram essa cena em cores ...
Abraco grande,
Eder.
Fonte: Adaptado do artigo “The Apollo 10 Lander that Never Landed May Have Been Spotted In Space”, escrito por Evan Gough
Credito de Imagem: Nasa; CollectSpace e Zazzle
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