sexta-feira, 20 de outubro de 2023

O PRÓXIMO TRILHÃO DE REAIS SERÁ MUITO MAIS DIFÍCIL



 

De Sāo Paulo, SP.


Uma das verdades inconvenientes que venho abordando e que cedo ou tarde os fundos de pensão e seguradoras terão que enfrentar, é que a maioria dos participantes “fácil de atrair”, já está nos planos de previdência complementar.

O que restou foi um amplo mercado de trilhões de reais em oportunidades que ninguém no setor quis abordar, porque não fará o patrimônio dos fundos de pensão e entidades abertas explodir em poucos anos.

Quem no atual ecossistema de previdência complementar estaria preparado para investir e colocar energia em uma aposta que levará décadas para dar resultado?

As inovações digitais que vem sendo implantadas nos fundos de pensão tem tudo a ver com otimizar a gestão, a palavra-chave por trás delas tem a ver com facilidade ou eficiência, dependendo de que lado do balcão você está.

Fim de festa


Os mercados atuais de previdência complementar estão: (i) saturados; ou (ii) sendo abordados por novos players digitais.

Mas vou te dizer uma coisa: os grandes desafios da previdência complementar não se resolvem (só) com tecnologia. Por exemplo, você acha que poderia reinventar os mecanismos de busca na Internet em 2023? Pense novamente. Um artigo muito interessante explica a razão de ser impossível ganhar do Google apenas com tecnologia: link.

Novos produtos digitais, novas soluções disruptivas e novos entrantes hightech no mercado de previdência complementar terão que dar uma parada e encarar os problemas difíceis da previdência complementar.

Quais problemas? Todos aqueles que a revolução digital não se deu ao trabalho de abordar, porque seriam muito complexos e muito difíceis para resolver.

Atrair jovens, tornar os planos inclusivos para baixa renda, torná-los atrativos para pequenas empresas, conjugar eficiência com drástica redução de custos, colocar a economia informal dentro do barco, assegurar que profissionais com idade acima de 50 anos permaneçam contribuindo, são alguns que me vem à mente.

Mas tem outros também: conectar os investimentos aos propósitos individuais dos participantes, incorporar diversidade e igualdade de gênero nos conselhos, trazer profissionais de fora das patrocinadoras para dentro dos colegiados e por aí vai.

A pergunta de um milhão de dólares?  Onde estão as estruturas, os ecossistemas, os dirigentes de fundos de pensão, os formuladores de políticas públicas, dispostos a enfrentar esses problemas?

A “deeptech”, ou seja, a P&D de tecnologias avançadas, não vai resolver tudo isso. A razão é que, além do massivo investimento necessário para mudar o status quo, a maior parte das soluções esperadas não virá da invenção de novas tecnologias.

Um paralelo obvio: as novas tecnologias e a revolução digital, tem sido capazes de resolver problemas eminentemente complexos da medicina, dos diagnósticos e do tratamento das doenças, mas não nos fizeram avançar um centímetro para tornar os planos de saúde universalmente acessíveis a todos.

O que tornará muito, muito difícil chegarmos ao próximo trilhão de patrimônio dos planos de previdência complementar é a colossal inércia de fundos de pensão e entidades abertas para resolver essas questões de base, cujos dirigentes encontram-se entrincheirados na cultura atual e em outros problemas não-gerenciais.

Nenhum desses desafios e problemas está no centro daquilo que procuramos resolver quando pensamos em inovações digitais na previdência complementar.

E isso é alarmante!

Grande abraço,

Éder.


Fonte: “Party's over, the next trillion-dollar markets are bears”, escrito por Phillipe Meda.


terça-feira, 17 de outubro de 2023

IDENTIFICANDO PSICOPATAS CORPORATIVOS



De Sāo Paulo, SP.


Um estudo científico lança luz sobre a forma de identificar, gerenciar e se for o caso, remover das organizações, os indivíduos denominados de “psicopatas corporativos”.

O termo se refere a psicopatas que possuem alto desempenho trabalhando em ambientes políticos e corporativos. Esses indivíduos perfazem cerca de 1% da população adulta.

Eles não sentem emoções, como culpa ou empatia, mas muitas vezes ascendem a posições de liderança devido às suas características carismáticas. Os psicopatas corporativos representam ameaças significativas para as empresas e tem potencial para causar grandes danos.

Sinais de alerta ajudam a identificar sua presença, tais como charme superficial, pura racionalidade, falta de remorso e uma emocionalidade rasa.

Esses e outros achados serão apresentados por ocasião do Chelmsford Science Festival no próximo dia 23 de outubro. A pesquisa foi desenvolvida pelo Dr. Clive Boddy – pioneiro do campo da psicopatia corporativa – e Head da Escola de Negócios (Business School) da Anglia Ruskin University (ARU), originada da Cambridge School of Art.

Brazāo da Anglia Ruskin University (ARU)

O estudo foi publicado no International Journal of Market Research e mostra que os psicopatas corporativos não possuem consciência, vergonha nem culpa, não têm capacidade de sentir amor nem empatia por outras pessoas.

Parecem líderes potencialmente muito eficazes. O Dr. Boddy vai mostrar como eles chegam ao topo das organizações, o que fazem assim que alcançam a liderança e quais sinais de alerta podem ser detectados por investidores, fundos de pensão e outros setores da economia.

Além dos sinais apontados acima, outros sinais incluem irresponsabilidade e inteligência superficial. O Dr, Boddy disse que: “É possível olhar em retrospectiva histórica, para indivíduos que cometeram crimes ou desestabilizaram setores inteiros da economia e despois do evento foram considerados inteligentes e sábios.

De acordo com o Dr. Boddy, segmentos importantes como o setor financeiro tem uma enorme responsabilidade, precisam ficar mais atentos e vigilantes para identificar tais indivíduos e assegurar que não causem danos à economia e sociedade.

Seu comportamento cruel e egoísta tem, em casos extremos, potencial para derrubar setores inteiros. A busca por dinheiro, poder e controle é o que move o psicopata corporativo, eles são implacáveis e eficientes na obtenção desses benefícios.

“Minha palestra explicará o que motiva esses indivíduos e como identificá-los antes que causem danos graves. Ser capaz de identificá-los também poderia desempenhar um papel importante na tomada de decisões de investimento bem informada”, completa o Dr. Boddy.

Organizações que não tem psicopatas corporativos tem mais chance de serem viáveis, sustentáveis e menos probabilidade de entrarem em colapso.

Assustador? Claro que é, mas não podemos esquecer que as organizações são feitas de gente, todo tipo de gente.


Grande abraço,

Eder.


Fonte: “Spotting Corporate Psychopaths”, escrito por Jamie Forsyth da Anglia Ruskin University.


segunda-feira, 16 de outubro de 2023

CARTA DE UM CONSULTOR APOSENTADO PARA UM AMIGO QUE ACABOU DE ASSUMIR A POSIÇĀO DE PRESIDENTE DE UM FUNDO DE PENSĀO

 



São Paulo, 17 de outubro de 2023.


Caro Zeca,

Fiquei muito contente em encontrá-lo na praia na semana passada e mais feliz ainda em saber que você acabou de ser nomeado CEO de um grande fundo de pensão.

Conforme conversamos, preparei esse material que o ajudará em sua nova aventura profissional. Acho sábia sua decisão de contratar um consultor em previdência complementar, de alto nível, para orientá-lo em sua jornada.

Naturalmente, tendo assessorado fundos de pensão ao longo dos últimos 35 anos em inúmeras firmas multinacionais de consultoria, eu estaria muito bem-posicionado para servi-lo. Porém, chega um momento na vida de todo profissional que é preciso tirar o terno, pendurar as chuteiras e tomar cerveja na praia, onde você me encontrou.

Para atender seu pedido, reuni algumas orientações sobre como lidar com consultores da minha espécie. Espero que ache útil a apresentação anexa, com 120 slides de PowerPoint. A seguir, você encontrará um breve resumo - um sumário executivo, como gostamos de falar.


Fique alerta para o nível do consultor que o atenderá: Não se deixe enganar pelos eloquentes veteranos que irão ao seu escritório vender os projetos. O trabalho será feito, majoritariamente, por jovens inteligentes, mas com espinhas no rosto, na faixa de vinte e poucos anos, usando modelos reciclados de projetos desenvolvidos para outros clientes. A falta de experiência deles será compensada com longas horas de trabalho nos seus projetos. Você não precisa ficar com pena deles. Eles se alimentarão em restaurantes sofisticados, se hospedarão em hotéis luxuosos e andarão de Uber Executivo – às suas custas.

A princípio, você achará que eles são agregam nenhum valor – até mesmo prejudicam – pois atormentam sua equipe de gestão com intermináveis ​​questionamentos e solicitações urgentes de dados. Mas logo eles irão conquistá-lo, com a inteligência e coragem que eles possuem – ou serão substituídos silenciosamente pela firma de consultoria. Enquanto isso, sócios seniores, cabelos grisalhos, aparecerão só de vez em quando. Fique alento.

Tenha cuidado com a Lei de Parkinson: Nós consultores, somos mestres em expandir silenciosamente a venda. Se você nos contratar para um projeto de dois meses, certamente vai durar 12. Quando finalmente terminar, nossos tentáculos terão se espalhado. Peça para desenharmos um novo plano de previdência complementar e quando você piscar os olhos, estaremos administrando o plano, definindo a política de investimento, selecionando bancos, criando scripts de atendimento dos participantes e melhorando a governança do conselho deliberativo.

Como acontece com muitos clientes, um dia você vai se cansar de nossos preços exorbitantes e vai decidir contratar diretamente para seu fundo de pensão os consultores mais espertos da equipe. Teremos prazer em deixá-lo ir. Não tem nada melhor do que um dos nossos ex-consultores, para contratar nossos serviços mais sofisticados como cliente. Quanto mais sênior, melhor. Contrate, mas não dê para ele um orçamento com cheque em branco.

Questione tudo: Todo consultor que se preze sabe que grandes recomendações requerem grandes honorários. Como regra geral, dívida tudo por dois. Nunca confie num benchmark, eles podem ser direcionados ao gosto do freguês sem perder a veracidade. Ah, leia atentamente aquelas notas intermináveis na parte de baixo dos gráficos. É ali que os segredos mais sujos são enterrados. Duvide duplamente de qualquer relatório de consultoria que seja elogiado por seus subordinados, especialmente se recomendaram um orçamento maior para a área daquele subordinado.     

Não assuma culpa nenhuma: Como executivo chefe recém-contratado, indubitavelmente você estará cheio de ideias. Muitas delas se mostrarão terríveis. Algumas serão catastróficos. Uma das grandes vantagens dos consultores é servir de escudo humano. Assegure-se de que seu conselho deliberativo saiba que foram eles que recomendaram o novo desenho de plano que foi um desastre ou selecionaram o banco de investimentos que entregou uma performance pífia. Você sempre teve suas dúvidas, mas confiou na reputação da firma de consultoria. Da mesma forma, seus consultores podem, de tempos em tempos, ter uma boa ideia, mas foi você que pensou nisso primeiro.

Teste a poligamia: Seus consultores farão de tudo para ter exclusividade. Falarão exaustivamente de “parceria de longo prazo”. No entanto, é uma relação monogâmica para apenas um dos lados. Não é da natureza dos consultores ser fiel. Provavelmente, eles estão entregando as boas ideias do seu fundo de pensão para outros clientes que atendem, com uma “Chinese Wall” fininha entre as equipes.

Siga o exemplo e contrate as firmas de consultoria que competem com eles. Idealmente, coloque as equipes deles em salas de reunião adjacentes no seu escritório. Consultores são extremamente competitivos e nada os estimulará mais a elaborar relatórios ainda mais completos do que ver seus inimigos vagando pelos corredores do seu fundo de pensão. Se um dia você estiver entediado, convide para a mesma reunião os representantes de duas firmas de consultoria rivais e os assista brigar pelo seu projeto.  


Não tenho lá muito orgulho em admitir que fiz com alguns clientes muita coisa parecida com aquilo que está descrito acima. Mas asseguro que a profissão de consultor é uma profissão nobre.

Causar impacto na vida das pessoas é o mote do nosso segmento (admito que nunca foi muito claro para mim o que isso significa, mas você não pode negar que soa como algo de grande relevância).

Uma última reflexão para concluir: nunca há problemas grandes demais nem problemas muito pequenos para um consultor resolver. Isso eu posso afirmar por experiência.

Sua fatura, incluindo despesas, segue anexada.

Boa sorte e grande abraço. Seu amigo (e consultor).

Eder.


Fonte: “A retiring consultant’s advice on consultants”, The Economist


LIÇŌES PARA OS FUNDOS DE PENSĀO BASEADAS EM HOLLYWOOD, NETFLIX E NA CAPELA DE RONCHAMP

 




De Sāo Paulo, SP.


O auge dos estúdios de Hollywood estava terminando em 1949, mas a julgar por um evento que aconteceu naquele ano, as pessoas encarregadas do sistema pareciam não saber disso.


O estúdio MGM organizou um jantar para comemorar seus 25 anos de existência e convidou todos os artistas contratados, lendas do cinema como Clark Gable, Katharine Hepburn, Frank Sinatra e Spencer Tracy. O jantar foi organizado pelos estúdios Louis B. Mayer, que divulgou o evento como tendo “mais estrelas do que os céus”.


Se levássemos em consideração as aspirações dos burocratas da PREVIC, o órgão de fiscalização dos fundos de pensão brasileiros poderia muito bem ser comparável ao jantar da MGM. A PREVIC – salvo honradas exceções – parece não perceber que os fundos de pensão precisam de ideias, inovações e políticas públicas que forneçam um novo direcionamento ao sistema de previdência complementar corporativo.


Ao invés disso, a PREVIC quer fazer alterações na regulamentação para trancar a porta de saída das empresas cujos setores econômicos passam por reestruturação e optam por levar o plano de aposentadoria para outros veículos financeiros. Ao divulgar tais medidas, só posso pensar que esses caras buscam flashes e glamour num grupo fechado de atores enquanto o sistema declina.


Se você tem o poder da caneta e escolhe olhar para o outro lado, então que esperança tem o resto da populaçāo brasileira que ainda não possui um plano de aposentadoria num fundo de pensão e sonha um dia chegar lá?


A PREVIC deveria se espelhar na Netflix, cujo modelo de negócios inicial era baseado no aluguel filmes via Internet, gravados em DVDs e Blu-ray e enviados pelo correio para os consumidores.


O mundo mudou, a Netflix evolui e há anos passou a usar as tecnologias de streaming para adaptar seu modelo de negócios às novas circunstâncias. Agora no começo de 2023 a Netflix encerrou sua operação, que tinha mais de duas décadas de existência, de aluguel de filmes em DVDs e Blu-ray. A Best Buy - uma das maiores redes de varejo de produtos eletrônicos dos EUA - anunciou essa semana que a partir de 2024 fará o mesmo, tanto online como em suas lojas físicas.


A morte dos DVDs e discos de Blu-ray foi prenunciada muitos anos atrás, mas aqueles que não foram capazes de perceber a mudança, morrerão junto com eles. A literatura dos negocios esta repleta de exemplos assim. Fico imaginando os burocratas da PREVIC no conselho de administraçāo da Netflix: “vamos adotar medidas para dificultar o acesso dos consumidores aos filmes via streaming ...”.


A Capela de Ronchamp e os fundos de pensão


Charles-Edouard Jeanneret-Gris, mais conhecido pelo pseudónimo de Le Corbusier, foi um arquiteto, urbanista, escultor e pintor de origem suíça, naturalizado francês. É considerado um dos mais importantes arquitetos do século XX.Le Corbusier desenhou a magnifica Capela Notre Dame du Haul, construída no topo de uma colina com vista para a pequena cidade francesa de Ronchamp, na fronteira com a Suíça.


Um edifício único e transcendente, a capela está no coração não só de um convento ativo, mas também da tendência romântica e orgânica da arquitetura modernista. Foi construída com um orçamento apertado, usando em sua maioria material local, inclusive de escombros de uma igreja do século IV que anteriormente ocupava o local e que foi destruída na II Guerra Mundial.


Independente do ponto que você contemple a igreja, seja por dentro ou por fora, quando você se move só um pouquinho, a capela muda de maneira impressionante e reveladora. O piso interior desce em direção ao altar, criando dinamismo e intimidade e as torres parecem enormes por dentro, embora toda a estrutura seja de tamanho muito modesto.


Por séculos as igrejas foram desenhadas para impressionar. Durante muito tempo foram projetadas para impressionar, por meio da arquitetura imponente ou de uma decoração interior e exterior luxuosas. Com o tempo, outros braços do cristianismo abraçaram a simplicidade e a modéstia.


A Capela de Ronchamp não cai em nenhum dos dois extremos. É incrivelmente complexa e está longe de ser modesta como uma capelinha do interior, mas dispensa a necessidade de decorações elaboradas e sofisticadas. Tudo que é preciso pode ser obtido da estrutura da edificação.


Na cabeça da PREVIC, os fundos de pensão ainda se parecem com as igrejas dos séculos passados, precisam da escala, magnificência e sofisticação das suntuosas construções antigas.


Quando na verdade tudo que é necessário para viabilizar os fundos de pensão hoje em dia é algo muito mais parecido com a Capela de Ronchamp, estruturas complexas, construídas com orçamentos controlados, sobre os escombros dos fundos de pensão do passado, usando tecnologia e inovação para se alavancarem.


Boas liçōes.


Grande abraço,

Eder.   


Fontes: “Bye, bye Blu-ray”, escrito por Shauneen Miranda | “Building of the week: The Ronchamp chapel”, escrito por Felix Salmon.


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