segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Economia Comportamental e os Planos de Previdência Complementar

De São Paulo, SP  (republicado)

Você já começou uma dieta na segunda-feira de manhã e jogou tudo pro alto quando viu sua sobremesa favorita no jantar? Já foi pegar seu filho no shopping e se viu comprando um monte de coisas que não precisava? Sabe porque você desconfia de um xampu muito barato na farmácia e acaba levando outro super parecido só que muito mais caro oferecido pelo seu renomado cabeleireiro? Você aderiu ao plano de contribuição definida da sua empresa, seguindo sua consciência da necessidade de poupar para a aposentadoria, mas nunca se preocupou em saber se deveria aumentar suas contribuições, nem mudou seu saldo de conta para outra alternativa de fundo de investimento mais rentável, dentre as oferecidas pelo plano? 

A Economia Clássica assume que as pessoas são racionais e agem em seu próprio e melhor interesse. A Economia Comportamental, do inglês “Behavioral Economics”, também chamada por alguns autores em português de “Finanças Comportamentais”, estuda como as pessoas agem no mundo real e não como elas deveriam agir. Fortemente baseada nos princípios da psicologia social e cognitiva, a Economia Comportamental analisa a maneira pela qual as pessoas tomam decisões. Um conhecimento mais profundo sobre as razões que levam as pessoas a fazerem aquilo que fazem, permite que as empresas promovam mudanças positivas em seus benefícios de forma mais eficaz, melhorando os resultados, diminuindo custos e atingindo seus objetivos. É a ciência do comportamento, estudada de forma pioneira por John B. Watson em 1913, aplicada à força motriz da sociedade do conhecimento, a economia.
A procrastinação e a inércia tem atrapalhado por mais de uma década o funcionamento dos planos de contribuição definida implantados pelas empresas. Mas, surpreendentemente, esses mesmos comportamentos podem fazer esses planos chegarem muito mais perto de seus objetivos.
A partir da segunda metade dos anos 90, através dos planos de contribuição definida como os PGBL e outros, as empresas começaram lentamente a oferecer aos empregados a oportunidade de escolher como investir suas contribuições e as contrapartidas do empregador, durante a acumulação de poupança para a aposentadoria. Desde então, os profissionais de recursos humanos e os administradores desses planos tem notado pouco interesse e até indiferença na gestão das contas pelos participantes. No longo prazo, esse comportamento se traduzirá por menos recursos acumulados nas contas individuais, portanto, menores benefícios de aposentadoria, insatisfação com o plano de previdência da empresa, diminuição da atração e retenção dos empregados, aumento da rotatividade e, assim, maiores custos para a empresa.
Muita vezes essa falta de ativismo do participante é justificada pela baixa educação financeira do brasileiro. Também não podemos esquecer a taxa de juros. Claro! Décadas de juros altos criaram uma geração acostumada a obter altos retornos na renda fixa sem precisar correr os riscos do mercado de ações. Essa é outra boa razão apontada pelos especialistas para o desinteresse do participante pelos investimentos. Num ambiente assim, tanto faz o plano oferecer escolha ou não para os participantes investirem suas contribuições.
O cenário, porém, está mudando. As taxas de juros estão no menor nível histórico. A grande maioria dos regulamentos dos planos de contribuição definida dos fundos de pensão está sendo alterada para introduzir a escolha de investimentos pelo participante. A oportunidade de investir em alternativas mais arriscadas para obtenção de melhores retornos, vai deixar os participantes inseguros e requerer mais suporte das empresas. A ajuda virá, então, na forma de programas de planejamento para a aposentadoria e de educação financeira, algo que o próprio governo está incentivando. O baixo interesse dos participantes será então finalmente superado, certo? Errado, não será. Conforme começa a ser provado pela Economia Comportamental, a solução requer uma abordagem totalmente diferente da atual.  
A verdade é que, por medo de tomarem uma decisão ruim, muitos empregados com pouca confiança em sua capacidade de investir simplesmente não tomarão decisão alguma. Essa é a pior coisa que pode acontecer: o “fator medo”. Algo potencializado recentemente devido a crise financeira global e conseqüente volatilidade dos mercados.
Eis que surgem em cena dois economistas comportamentais. As pesquisas feitas por Richard Thaler da Universidade de Chicago e Shlomo Benartzi da UCLA (University of California, Los Angeles) estão causando uma guinada brusca das empresas patrocinadoras e das prestadoras de serviço, criando inovações na forma que os planos de previdência complementar são administrados nos EUA.
Baseados em seus estudos, Thaler e Benartzi advogam uma abordagem mais paternalista por parte das empresas patrocinadoras de planos de contribuição definida. A premissa básica que defendem: os pais sabem mais. Se a empresa patrocinadora tomar decisões mais sábias e bem informadas em nome de seus participantes, os dois comportamentos da natureza humana que dispensam apresentações: inércia  procrastinação, trabalharão a seu favor.   
“Muito dos nossos achados faz parte do senso comum, mas a maioria das boas idéias também faz. Simplesmente descobrimos que se você tornar mais fácil para as pessoas pouparem mais, então um monte de gente mudará o comportamento”, ensina Thaler.
Em previdência, tornar mais fácil poupar significa fazê-lo automáticamente. Inscrição automática no plano, aumento automático anual de contribuições, fundos de investimento que seguem o ciclo de vida e tornam a gestão das contas automáticas, são quatro conceitos que estão sendo usados pelas empresas e administradores de planos para guiar os participantes de maneira gentil, porém firme, em direção ao aumento da poupança para aposentadoria.
O seu consultor de benefícios está propondo alterar o desenho do plano de contribuição definida da empresa apenas para introduzir a possibilidade de escolha dos investimentos pelo participante? Algo moderno, não é? Bem, Thaler e Benartzi teriam uma opinião diferente e estou certo de que depois de ler esse artigo, muitos também terão. Baseado no estudo deles e com a devida adaptação à legislação brasileira vigente, eu diria que o seu plano precisa de: (i) inscrição automática no plano sempre que um novo empregado é admitido na empresa; (ii) fórmula de contribuição que reconheça a necessidade de poupar mais para os empregados que não terão uma carreira plena na empresa; (iii) fundo do tipo “ciclo de vida”, como alternativa de investimentos “default”, moderando a alocação em renda variável de acordo com a idade do participante; e (iv) pagamento do benefício através de renda vitalícia como forma padrão pelo plano (nota: há meios de fazer isso sem acrescentar passivos no balanço da empresa nem risco atuarial ao plano).
No modelo tradicional as empresas organizam seminários de educação financeira para motivar os empregados a participarem das escolhas de investimentos. No novo paradigma, conforme mencionado por Steve Utkus da Vanguard, “Nós não vamos sequer educá-lo, vamos inscrevê-lo em um plano e se você quiser algo a mais, terá que nos dizer. Esse é o modelo em que primeiro ensinamos você a se comportar, depois te educamos. Qualquer psicólogo te dirá que a melhor maneira de aprender alguma coisa é fazendo-a”.
Nem todo mundo pensa como ele nem concorda com aquele ditado popular, segundo o qual você não apenas pode levar um cavalo até a água, como pode fazê-lo beber. Muitos dirão que a abordagem proposta pela Economia Comportamental é muito invasiva e tira a liberdade de escolha do participante. Inevitáveis serão as comparações com o “Big Brother”.
Particularmente, penso que na cultura brasileira haveria menos resistência às inovações de Thaler e Benartzi do que na anglo-saxônica. Além disso, nunca se pode perder de vista que o participante pode tomar a rédea das decisões, mantendo a liberdade de escolha, em qualquer parte do processo. Basta ele dizer o que deseja. A abordagem paternalista só é aplicada para aqueles que não se manifestam, que nunca dizem nada.
Gosto muito da afirmação do Pete Swisher, consultor financeiro certificado que trabalha na Unified Trust em Lexington-Kentucky, nos EUA: “Uma pequena mudança na forma de ver as coisas pode alterar tudo. É como se você tivesse no topo de um morro tentando decidir a melhor forma de descer. Eu optaria por descer num trenó. Uma vez dentro dele, fica difícil pular fora”.
Porque não fazer um teste piloto? Eu adoraria poder ajudá-lo. Afinal, como demonstra Dan Ariely, outro economista comportamental, nossa capacidade de raciocínio tem defeitos provocados por forças invisíveis - emoções, relatividade, expectativas, apego e normas sociais - que nos induzem a fazer escolhas "Previsivelmente Irracionais".
Forte abraço,
Eder.







Fonte: Workforce Management – Matin Booe

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