quarta-feira, 28 de abril de 2010

Shakespeare e os valores que forjam homens e líderes de verdade

De São Paulo, SP.

Quem não teve a chance de estudar em uma escola militar nem serviu ao exército, fico contente de ter tido esse privilégio, deveria ler Henrique V, uma peça que se acredita ter sido escrita por volta de 1599 por William Shakespeare.

Baseada na vida do Rei Henrique V da Inglaterra, a peça aborda os eventos imediatamente antes e após a Batalha de Azincourt (Agincourt em inglês), ocorrida durante a Guerra dos Cem Anos.

A história faz parte de uma tetralogia, precedida por Richard II, Henrique IV – Parte 1 e Henrique IV – Parte II e conta como Henrique V liderou seu exército França adentro, em 1415, vencendo uma força muito maior do que a sua.

Quando escreveu sua história, Shakespeare não usou as palavras liderança, comprometimento ou valores, mas mesmo assim pode-se aprender bastante sobre esses temas através de seu drama.

A boa notícia é que os resultados alcançados por Henrique V – que não contava com uma equipe de relações públicas, sistemas modernos de propaganda & marketing nem enormes montantes de capital a disposição – podem ser replicados nos dias de hoje.

O que é preciso? Coragem e consistência.

 Antes de seu pai, Henrique IV, morrer, Henrique V era um jovem príncipe que andava de bar em bar (ou melhor, de pub em pub) enquanto esperava pela coroa.

Quando se tornou Rei, alguns de seus “buddies” o acompanharam em sua campanha Francesa. Avançando pelo interior da França, Henrique V proibiu taxativamente a pilhagem de propriedades civis. Era uma ordem clara, sem ambigüidade nem espaço para má interpretação.  

No entanto, pouco antes da escatológica Batalha de Azincourt, chegou ao conhecimento de Henrique V que um de seus antigos amigos da juventude, o velho Bardolph, havia violado suas ordens. Bardolph roubara um ícone religioso de colonos locais, um verdadeiro pecado capital. A ofensa descomunal se disseminou rapidamente e todos ficaram sabendo.

No esplêndido filme rodado em 1989, com direção de Kenneth Branagh (que também faz o papel de Henrique V) o Rei se aproxima de Bardolph, cujo pescoço está envolto por um laço. Henrique V relembra as farras alegres que fizeram juntos na juventude, as bebedeiras de quase cair. Bardolph olha para ele implorando por piedade.

O Rei faz uma pausa, lágrimas brotam nos olhos e então ... ordena a execução. Bardolph é enforcado na frente de Henrique V e de seu exército.

Aquele momento ajuda a explicar o triunfo no campo de batalha que ocorreria logo depois. Fica claro que Henrique V aplica as regras justa e consistentemente e quando há violações, sem ambigüidades, ele age em linha com seus princípios.

Isso é verdade mesmo quando se trata de alguém próximo a ele e existem motivos pessoais clamando pela leniência. No ardor da batalha, o exército de Henrique V sabe que pode confiar nele. Ele faz o que diz e não há exceções baseadas em amizade ou posição hierárquica. Se está comprometido, seus soldados contam com ele sem pestanejar. Ao segui-lo na batalha, eles conhecem seus imperativos.

Os líderes das organizações de hoje têm desafios semelhantes. Suas regras precisam ser consistentemente aplicadas para que sejam vistos com credibilidade. Sem isso, seus objetivos não se concretizarão e suas visões não se tornarão realidade, nunca.

Eu já trabalhei em organizações nas quais o Presidente tinha enormes desafios a frente. Diante de mercados passando por fortes transformações, se faziam imperativas grandes mudanças culturais e alteração na orientação dos negócios (não apenas para gringo ver). 

No entanto, requerer os novos comportamentos de sua própria equipe e não apenas daqueles nos níveis inferiores da organização, bem, digamos apenas que era um problema....

Se os líderes não reforçarem seus próprios princípios e não fizerem aquilo que disseram que iriam fazer, como podem esperar que os outros acreditem no que eles estão falando? Diante de violações claras e muitas vezes repetidas, envolvendo seus colegas mais próximos, como querer que todos dêem importância para suas palavras?

Infelizmente, essa é a razão pela qual muitas iniciativas falham no mundo corporativo, muitas empresa quebram ...

Eu tenho uma sugestão para os líderes que por questão de amizade, importância,  posição ou qualquer outro racional, ignoram as flagrantes violações daqueles próximos a eles: leiam Henrique V e sigam os ensinamentos dele.

Boa sorte,
Eder.



Fonte: WorkForce Management - Stephen Paskoff

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